Carta aos Confrades
Chamado
a ser apóstolo de Cristo Jesus pela vontade
de Deus
(1Cor
1,1)
8 de setembro de 2009
Natividade de Nossa Senhora
Prot.
N° 0000 159/2009
Caros Confrades,
1. Ao entrarmos no último
mês do sexênio, os olhos da Congregação estão
voltados para o XXIV Capítulo Geral. Embora
espere poder oferecer ao Capítulo um relatório
sobre o estado de nosso Instituto, eu gostaria
de dizer algo diretamente a todos os membros
da Congregação, que confiaram o serviço de Superior
Geral a um irmão indigno. Saúdo também as Irmãs
Redentoristas e outros religiosos e religiosas
e os missionários leigos que compartilham de
nosso espírito, pedindo que leiam essa reflexão
do ponto de vista de sua própria vocação no
Corpo de Cristo. Quem ler talvez irá perceber
quanto amo a nossa Congregação e a esperança
que tenho no nosso futuro.
2. Durante os últimos doze
anos, muitas vezes me perguntaram como foi que
recebi este ministério. Tenho sido tentado a
responder com os três “c” citados por nosso
santo Fundador: capitolo…cavallo…cieco
– o Capítulo é um cavalo cego! No entanto, acho
que em 1997 Deus julgou que eu não amava bastante
a Congregação, então me deu doze anos de intenso
aprendizado na magnificência de nossa vocação.
3. Esta carta pretende continuar
um convite que foi feito formalmente aos Redentoristas
dois anos atrás: que nós consideremos nosso
compromisso de consagrados que se propõem seguir
os passos do Cristo Redentor pregando o Evangelho
aos pobres. Espero que concordem que um olhar
honesto sobre o significado de nossa profissão
religiosa não é apenas um resultado natural
do trabalho dos últimos Capítulos Gerais, mas
também uma tarefa particularmente urgente à
luz da situação atual da Congregação.
4. Na primeira seção desta carta, vou ressaltar algumas circunstâncias
que nos obrigam a lançar um olhar destemido
e corajoso sobre o nosso modo de seguir a Jesus
Cristo. Vocês poderão completar esta descrição
com experiências de sua própria situação social
e eclesial. Na segunda seção, vou tentar avaliar
essa realidade à luz do Evangelho e de nosso
patrimônio espiritual. Em vez de tentar propor
todos os critérios que devem nos guiar hoje,
espero indicar um elemento que é particularmente
crítico para a fidelidade criativa à nossa vocação.
Finalmente, vou propor algumas linhas comuns
de ação com o objetivo de encorajar nossa unidade
nos elementos essenciais, respeitando ao mesmo
tempo a diversidade existencial dentro da Congregação.
I.
VER
Mas quando ele vier, o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade
completa. Pois não falará por si mesmo, mas
falará de tudo o que ele ouvir e vos anunciará
as coisas futuras. (Jo 16,13)
5. O que pode o Espírito Santo
ensinar-nos sobre a nossa maneira particular
de discipulado, a vita apostolica, vida
que compreende “a um só tempo, a vida especialmente
dedicada a Deus e a obra missionária dos Redentoristas”
(Const. 1)? O que pode o Espírito estar ensinando
aos Redentoristas hoje? Como é que ouvimos o
Espírito da Verdade, que nos anuncia as coisas
futuras (Jo. 16,13)?
6. Por onde podemos começar? A vida apostólica redentorista é, antes de
tudo e principalmente, vida. Então, um
ponto de partida valioso para considerar nossa
maneira de discipulado é buscar sinais de vitalidade
entre os missionários Redentoristas de hoje.
Esta busca é particularmente crítica para os
Redentoristas já que, desde os primeiros dias,
a nossa Congregação tem tido uma percepção particular
da abundância de vida que se encontra em Jesus
Cristo; daí nosso lema Copiosa apud Eum Redemptio.
A busca de vitalidade em nossa vida apostólica
não pode ser um exercício de fantasia ou veleidade.
Embora ainda não possamos ver claramente o que
o Espírito Santo está gerando no mundo, na Igreja
e portanto, em nossa Congregação, podemos no
entanto identificar sinais de nova vitalidade.
O
fascínio exercido sobre os Redentoristas hoje
pela
pessoa de Jesus
7. Estou convencido de que
a maioria dos Redentoristas amam a Jesus Cristo
e exprimem esse amor por meio da generosidade,
sacrifício pessoal e perseverança. Quando pregam,
os Redentoristas falam sobre Jesus como uma
pessoa que eles conhecem intimamente, uma pessoa
que manifesta plenamente
a beleza e a força do amor de Deus, precisamente
na cruz [1]
, e em cujo Evangelho descobrimos o caminho da verdadeira libertação e da
solidariedade.
8. Nas visitas às Unidades
da Congregação, os membros do Conselho Geral
têm uma oportunidade privilegiada para ver o
tipo de força que os Redentoristas descobrem
no Redentor. Essas visitas demonstram que o
perfil do Redentorista contido na Constituição
20 não é uma fantasia idílica. Os Conselheiros
Gerais e eu temos testemunhado pessoalmente
o tipo de heroísmo que caracteriza a Congregação:
confrades “abnegados, em disponibilidade constante
para as coisas mais difíceis”, quer a tarefa
assumida seja uma missão particularmente difícil,
quer se trate simplesmente de perseverar em
sua vocação quando, como Abraão, devem eles
“esperar contra toda esperança” (Rm 4,18).
9. A fonte desse amor audaz é o Redentor, a quem os Redentoristas continuam
a “seguir contentes” (Const. 20). O primeiro
e mais importante sinal de vitalidade em nossa
vida apostólica é a constante redescoberta e
o renovado compromisso dos Redentoristas com
Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a
vida (Jo 14,6).
O
desejo de nascer de novo
10. Longe de ser uma espécie
de baluarte que pretende existir fora da história,
a Congregação luta para continuar sua peregrinação
com criativa fidelidade às inspirações do Espírito
Santo. O Concílio Vaticano II desafiou os religiosos
a começar um processo de renovação guiado por
critérios essenciais: um retorno à Palavra de
Deus, especialmente aos Evangelhos, um retorno
ao espírito do fundador e aos valores fundamentais
das origens, e a necessidade de dar uma resposta
concreta aos sinais dos tempos.[2]
Os princípios do decreto Perfectae Caritatis
e a doutrina do Magistério na esteira do Concílio
foram abraçados com entusiasmo pela Congregação
e, até hoje, a renovação tem produzido resultados
concretos.
11. As nossas Constituições
e Estatutos oferecem normas que estão claramente
enraizadas na intuição espiritual de Afonso,
embora sejam bastante flexíveis para permitir
a necessária inculturação de nossa vida apostólica
na vasta panóplia de culturas nas quais a Congregação
exerce sua missão. Alguns confrades têm dedicado
décadas de suas vidas à cuidadosa pesquisa de
nossa história e de nosso patrimônio espiritual
e têm produzido uma riqueza de novos subsídios
para entendermos nossa vida apostólica. Nos
últimos quarenta anos, temos aprofundado nosso
apreço pela vida e pela inspiração original
de Santo Afonso e por seus métodos missionários
e sua espiritualidade. Sabemos muito mais a
respeito das vidas dos outros santos e beatos
nossos, como também sobre a aventura de graça
que tem sido a história da Congregação nesses
duzentos e setenta e seis anos.
12. O fruto dessas pesquisas não fica juntando poeira nas bibliotecas das
comunidades. Muitos confrades participam de
cursos sobre a nossa espiritualidade e nossa
história em Roma e também em nível provincial
e regional. As reuniões regulares dos Superiores
Maiores trabalham com afinco para avaliar os
pontos fortes e fracos dos esforços de suas
Unidades e um certo número de Superiores Provinciais
desejam assumir iniciativas que respondam às
novas urgências pastorais. E agradeço a Deus
por um louvável grau de descontentamento no
seio da Congregação! Dizemos uns aos outros
que podemos ser melhores que o status quo
e recusamos ser seduzidos pela mediocridade.
Muitos de nós esperam ser mais coerentes em
nossas decisões e mais proféticos em nosso estilo
de vida. Longe de ser uma lamentação inútil,
essa insatisfação pode ser um sinal de vitalidade
e indicar abertura à conversão.
A
importância fundamental da missão
13. As Constituições renovadas
insistem em que a nossa caridade apostólica,
“pela qual os Redentoristas participam da missão
de Cristo Redentor” (Const. 52), dá unidade
à vida redentorista, vida esta que encontra
sua plena expressão na vita apostolica.
Sucessivos Capítulos Gerais têm lembrado à Congregação
que nem toda atividade pastoral ou estilo de
vida pode ser justificado como uma expressão
coerente de nosso carisma. Em 1985, o XX Capítulo
Geral desafiou a Congregação a uma proclamação
explícita, profética e libertadora do Evangelho
aos pobres, enquanto, ao mesmo tempo, nos deixamos
também evangelizar por eles [3]
. O XXI Capítulo Geral nos recordou
que a nossa vida comunitária constitui o primeiro
sinal de que somos pregadores do Evangelho;
ademais, a nossa comunidade é uma presença eficaz
do Reino de Deus no meio dos homens e mulheres. [4]
14. Por outro lado, a reflexão
dos últimos anos levou muitos Redentoristas
a vislumbrar uma missão que excita a nossa imaginação
e nos convida a empreender iniciativas audazes
e proféticas, que ultrapassam as fronteiras
tradicionais para proclamar Jesus Cristo por
meio da inculturação, do diálogo ecumênico e
inter-religioso, como também novas formas de
meios de comunicação, sempre mantendo a preferência
pelos pobres e excluídos da sociedade. Embora
as missões paroquiais e outras formas de pregação
itinerante ainda gozem de uma posição privilegiada
entre nós, temos descoberto novas possibilidades
por meio do ministério em santuários, paróquias,
casas de retiro, estações missionárias, meios
de comunicação, direção espiritual e catequese.
15. Por outro lado, o debate sobre as características essenciais de nossa
missão – tema que se tornou mais candente devido
ao processo de reestruturação – nos relembra
que não estamos dispensados de tomar decisões
e devemos lutar para fundamentar nossas decisões
em critérios que são propostos pelo Evangelho
e por nossa compreensão do carisma redentorista.
Como Afonso, Clemente e todos os nossos pais
na fé, devemos decidir para quem somos chamados,
como devemos viver e quais métodos pastorais
são apropriados para desempenhar a missão que
recebemos. Um novo apreço pela fundamental importância
da missão naturalmente questiona toda tendência
a “instalar-se em condições ou estruturas nas
quais [nossa] atuação já não seria missionária”
(Const. 15). Ao mesmo tempo, ao ressaltar a
importância da vida comunitária e da espiritualidade,
a reflexão dos últimos Capítulos Gerais acautelou
os Redentoristas contra simplesmente reduzir
a missão ao trabalho pastoral.
Fidelidade
aos pobres abandonados
16. O Conselho Geral tem visto muitos exemplos da fundamental fidelidade
dos Redentoristas aos pobres abandonados. Algumas
dessas escolhas chegam a colocar em risco as
vidas dos confrades. Penso nos Redentoristas
que têm permanecido ao lado do povo sofredor
do Iraque, nos confrades que estão na Costa
do Marfim, região atormentada pela guerra civil
e desertada pela maioria do clero, inclusive
o bispo diocesano. Há Redentoristas que proclamam
o Evangelho numa terra estrangeira, onde os
resultados visíveis do seu trabalho são muito
mais modestos do que poderiam esperar na sua
Província de origem, como é o caso dos confrades
brasileiros no Suriname e dos missionários poloneses
na Sibéria. Algumas Províncias fundaram comunidades
em novas situações culturais, como o apostolado
entre os afro-colombianos em Buenaventura (Colômbia)
ou os primeiros esforços para estabelecer uma
presença missionária no Laos. Essas iniciativas
demonstram a especial atenção que a Congregação
continua a dedicar aos pobres, carentes e oprimidos
(Const. 4), recordando-nos que é mais importante
estar onde há uma urgência pastoral do que permanecer
em igrejas bem estabelecidas com um impressionante
número de participantes.
A
busca de comunhão
17. Desde o começo, a Congregação
tem estado bem perto das pessoas que ela serve
e tem tentado de vários modos envolver leigos
nos seus trabalhos missionários. Essa tradição
recebeu novo impulso nas décadas recentes, a
partir do XXI Capítulo Geral, que reconheceu
a necessidade de abertura para a cooperação
com os leigos e expressou apoio a iniciativas
novas, inclusive a criação de uma nova figura
na Congregação, o “Missionário Leigo do Santíssimo
Redentor”. [5]
18. Embora haja ainda muito a fazer rumo a uma efetiva integração dos leigos
em nossa missão, parece haver um crescente consenso
na Congregação quanto ao valor de iniciativas
partilhadas envolvendo Redentoristas e leigos.
É também claro que tanto os leigos como os Redentoristas
necessitam de formação teológica, pastoral e
espiritual para garantir que essa associação
dê testemunho de nossa igualdade essencial diante
do Senhor, respeitando no entanto a vocação
particular de cada um. A Congregação não vai
desistir da busca de comunhão que possibilita
uma missão partilhada a serviço da Igreja e
da humanidade.
A
necessidade de uma espiritualidade renovada
19. Finalmente, os Redentoristas
estão se esforçando para aplicar o patrimônio
espiritual da Congregação às novas circunstâncias
em que hoje vivemos e trabalhamos. Percebemos
que o itinerário espiritual de confrades que
nos precederam, a partir de Afonso, mas não
só ele, nos dá preciosas intuições sobre o nosso
modo de seguir a Cristo hoje. Nesta busca, precisamos
ter pontos de referência claros e confiáveis
que definem a orientação de nossa espiritualidade
missionária. Nossa visão deve estar enraizada
nos Evangelhos, no espírito de Afonso e na experiência
real dos Redentoristas pelos séculos a fora.
Obviamente, esta busca espiritual não pode deter-se
no passado ou, o que seria mais danoso, procurar
transportar de modo acrítico o passado para
o presente. [6]
20. O Conselho Geral sente-se
encorajado ao ver o reaparecimento dos retiros
comuns em muitas Províncias, como também o interesse
em publicações, seminários e cursos sobre os
elementos essenciais da espiritualidade redentorista.
Bom número de (Vice-) Províncias programou eventos
especiais durante o ano de reflexão sobre a
vida apostólica redentorista. Muitas vezes a
atração dos leigos pelo nosso patrimônio espiritual
estimulou os confrades a um estudo mais profundo
e a um maior apreço por nossa herança.
21. Embora eu veja muitos exemplos de vitalidade em nossa vida apostólica
hoje, a nossa Congregação, como a Igreja, passa
por diferentes estágios na longa peregrinação
da história. Não somos extraterrestres, isentos
das mesmas forças que estão mudando profundamente
as sociedades individuais e suas instituições,
bem como o mundo como um todo. Algumas dessas
forças podem obscurecer os sinais de vitalidade
em nossa vida apostólica ou até mesmo levar-nos
a deslocar a missão da Congregação da sua origem
divina e reduzi-la simpesmente a tendências
estatísticas, demográficas e culturais. Permitam-me
apresentar algumas das mais inquietantes características
desse problema.
As
consequências de uma rápida diminuição
nos números no Ocidente
22. Há um amplo testemunho para
pôr à prova o otimismo dos Redentoristas hoje.
Nas últimas cinco décadas, a nossa Congregação,
como a maioria das grandes Ordens e Congregações
masculinas, sofreu um drástico declínio no número
de membros, especialmente na Europa Ocidental,
América do Norte e Oceania. As razões deste
fenômeno são muitas e complexas. Para os objetivos
dessa reflexão, proponho ressaltar alguns resultados
desse declínio, em vez de indagar suas possíveis
causas.
23. As Unidades mais afetadas
por esse declínio têm exercido um longo e notável
papel na missão da Congregação. Não apenas exerceram
grande influência na história da Igreja local
da sua região particular, mas também implantaram
a Congregação por todo o hemisfério sul. Um
pequeno número destas Províncias continua assumindo
grande parte do financiamento de projetos comuns
da Congregação, como o Fundo de Solidariedade,
a Academia Alfonsiana e o Governo Geral, ao
mesmo tempo que discretamente oferece apoio
direto a Unidades carentes no mundo inteiro.
O número decrescente dos confrades e sua idade
avançada inevitavelmente reduzem o alcance das
possibilidades dessas Unidades, e o custo crescente
do atendimento médico aos idosos limitou a soma
do apoio financeiro que essas Unidades podem
oferecer à Congregação. Mais ainda, essas Unidades
têm obtido valiosas intuições sobre a complicada
relação entre fé, religião e uma sociedade secularizada.
O declínio da Congregação nessas regiões empobrece
a vida da Igreja.
24. Além dessas consequências
imediatas, porém, a visível falta de atrativo
de nosso modo de vida entre os jovens do Ocidente
tem produzido sérias dúvidas entre alguns bispos,
leigos e até entre Redentoristas quanto ao futuro
da Congregação e da própria vida consagrada.
No seu governo rotineiro como também no planejamento
para o futuro, muitas Unidades sentem-se obrigadas
a cuidar mais da manutenção do que da missão
e um vocabulário de contenção e diminuição tem
substituído a linguagem de abundância que tradicionalmente
estava associada com a vida consagrada [7]
.
25. Postos perante um horizonte de possibilidades muito mais estreito, os
confrades com freqüência exprimem uma tristonha
resignação, até mesmo tristeza, ao relembrar
a “idade de ouro” de sua Unidade. Não é exagero
observar que a Congregação no Ocidente pode
ser vítima de seu passado sucesso, ao recordarem
os confrades aquele período histórico em que
um número extraordinariamente elevado de candidatos
se apresentavam, desencadeando assim a energia
que possibilitou uma dramática expansão do ministério.
Passagem
do legalismo para ... ???
26. A Congregação ainda está
vivendo as conseqüências da passagem da Regra
para as Constituições e Estatutos revisados.
Desde o princípio, os Redentoristas codificaram
certas normas destinadas a salvaguardar os valores
mais apreciados do nosso modo de seguir a Cristo.
Essas normas serviram para guiar a Congregação
nas suas mais importantes decisões, ao mesmo
tempo que transmitiam às sucessivas gerações
a experiência espiritual da vida apostólica.
Durante a maior parte de nossa história, o objetivo
dos Redentoristas foi viver as prescrições da
Regra como um caminho para a santidade e assim
realizar a obra da Congregação. A observância
era o valor fundamental. A Regra governava o
nosso ministério e a vida da comunidade a tal
ponto que, como se diz, podia-se ir a qualquer
casa nossa em todo o mundo, que se encontravam
grandes semelhanças no estilo de vida, até mesmo
na mobília do quarto de cada confrade.
27. À luz da renovação iniciada
com o decreto Perfectae Caritatis, a
observância dos preceitos da Regra foi vista
como uma ênfase exagerada na lei e em práticas
ascéticas ultrapassadas, e também uma preferência
pela letra da lei em detrimento do seu espírito.
28. Por sua vez, as Constituições
e Estatutos revisados oferecem um rico conteúdo
teológico e também uma real flexibilidade que
permite sua “acomodação à diversidade de cada
missão, salvo, porém, o carisma da Congregação”
(Const. 96). Quando se examinam as Constituições
e Estatutos à luz dos critérios indicados pelo
n. 2 do decreto Perfectae Caritatis,
não se pode duvidar de que eles “nos conectam
com o espírito original do Instituto” e promovem
“a adaptação desse espírito às novas condições
do nosso tempo”. Contudo, deve-se perguntar
se na realidade as Constituições estão se mostrando
capazes de transmitir a vida redentorista? Refiro-me,
naturalmente, ao papel visivelmente menor que
as Constituições exercem na reflexão, nas decisões
e na vida diária de muitas Unidades da Congregação.
29. Nas últimas décadas, enquanto
as tradições e normas vão perdendo sua importância,
atribui-se um valor crítico à experiência pessoal
e à capacidade de cada indivíduo encontrar a
Deus. Quando são filtradas por critérios subjetivos,
as práticas e fórmulas antigas não mais favorecem
uma experiência de Deus pessoalmente válida. [8]
Isto pode ajudar a explicar a luta
que as comunidades locais enfrentam para estabelecer
uma vida regular de oração comunitária. Dezoito
anos atrás, o XXI Capítulo Geral notou um desafio
que persiste ainda hoje: “Ao deixarmos as práticas
consideradas inautênticas ou inadequadas ao
dia de hoje, não surgem novas práticas capazes
de preencher o vazio que se criou”.
[9]
30. A falta de familiaridade
com as Constituições e sua notável irrelevância
em boa parte da vida da Congregação priva os
Redentoristas de uma linguagem comum como também
de princípios com os quais podemos confrontar
nossas vidas e fundamentar nossas decisões.
31. Quando uma Província tem que tomar decisões sobre métodos pastorais,
desenvolver projetos de vida comunitária ou
refletir sobre o início ou abandono de fundações,
o debate é governado por convicções, atitudes
ou opiniões que nem sempre têm muita conexão
com os valores expressos nas Constituições.
Continuam aparecendo dicotomias inúteis, embora
em novas formas. Ouve-se falar menos de “Cartuxos
em casa e apóstolos fora” e mais sobre “ser”
versus “fazer”, “ativismo” versus “contemplação”,
“missões” versus “paróquias”. Penso que esses
e semelhantes exemplos de justaposição refletem
uma fundamental desconexão com a espiritualidade
das Constituições e Estatutos.
Clericalismo
32. Devemos perguntar-nos se
está havendo ou não na Congregação o surgimento
de um tipo de clericalismo que nos distancia
da verdade da Constituição 54, a qual nos recorda
que é a profissão religiosa (e não a ordenação)
o ato que define toda a vida missionária dos
Redentoristas. O clericalismo está enraizado
na idéia de que em tudo o que se refere à religião,
é direito e responsabilidade dos clérigos tomar
as decisões e dar ordens, e o ofício dos leigos
é executá-las. Esta espécie de clericalismo
não está medrando na Congregação. Porém, pode
haver um sutil mas real aumento de uma cultura
clericalista, isto é, em ambiente no qual a
vocação redentorista é reduzida à ordenação
sacerdotal e a nossa missão é pensada em termos
de ministérios de culto que são reservados aos
sacerdotes. Dois fenômenos apontam para essa
possibilidade mais profunda.
33. Primeiro, o número dos Irmãos
Redentoristas continua a diminuir em praticamente
todas as Unidades da Congregação. Há muitas
razões por detrás desse fato, mas o que me preocupa
são as Unidades que já não promovem mais a vocação
para Irmão. Isto é particularmente inquietante
nas Províncias ou Vice-Províncias que possuem
um número saudável de estudantes clérigos, mas
alegam que razões culturais explicam a ausência
de Irmãos. Dizem que o povo considera o Irmão
como “inferior” ao Padre – uma espécie de clérigo
incompleto! Se o povo realmente pensa assim,
então a Congregação tem uma oportunidade de
desafiar esse sério equívoco com um exemplo
de fraternidade no qual todos os missionários,
por virtude de sua profissão (Const. 55), e
todos os membros são iguais, cada qual à sua
maneira tomando parte na vivência da vida e
no exercício da missão à qual se dedicaram (Const.
35).
34. Um outro sinal inquietante
é a notória facilidade com a qual confrades
ordenados abandonam a Congregação para serem
incardinados numa diocese. Essa passagem muitas
vezes acontece no início da vida sacerdotal
redentorista, vendo-se a incardinação como uma
solução atraente para uma crise pessoal. Infelizmente,
há bispos que parecem ansiosos por aceitar um
sacerdote religioso, especialmente se ele é
jovem ou tem formação especializada. O sacerdócio
diocesano é uma valiosa vocação, mas é fundamentalmente
distinta de nosso modo de discipulado. Quando
um confrade é incardinado numa diocese, tenho
ouvido dizer muitas vezes: “Pelo menos salvou-se
o seu sacerdócio!” Que significa exaltar o sacerdócio
e colocar em segundo plano a vida na qual ele
é exercido, ou seja, a Congregação ou a diocese?
35. Além do clericalismo, pode haver muitas outras castas que dividem a
Congregação. Um valor exagerado do “profissionalismo,”
acompanhado de um modo peculiar de falar e de
vestir, ou uma divisão em linhas ideológicas
que caracterizam um confronto entre opiniões
opostas sobre determinada questão teológica
ou política, enfraquecem o testemunho global
da Província. Diferenças étnicas, nacionais
ou regionais criam embaraçosas barreiras entre
os confrades. Como o clericalismo, essas fontes
de fragmentação sugerem que para certo número
de confrades, existem mais poderosos pontos
de identificação do que a nossa comum profissão
como Redentoristas.
A
questão da dimensão profética
36. Atualmente muitos confrades
comentam a diminuição do testemunho de nosso
modo de vida: a dimensão profética de nossa
vocação é fraca, ou mesmo ausente. Esta preocupação
apareceu com força este ano em várias reuniões
regionais, especialmente na da América Latina.
Ainda que os confrades de outras regiões possam
não exprimir essa preocupação com tanta ênfase,
eu me pergunto se não existe um desconforto
geral entre os Redentoristas, um sentimento
aflitivo de que permitimos que a natureza radical
da nossa vocação ficasse comprometida por um
estilo de vida mais burguês, no qual o testemunho
comunitário é neutralizado pela preferência
pessoal. Sentimos que a vida redentorista nunca
foi imaginada como uma carreira bem ponderada
com horário regular, clara descrição de tarefas
e toda sorte de garantias. Porém, muitas vezes
não temos certeza sobre que tipo de testemunho
dar: o que proclamar… o que denunciar?
37. Na primeira seção dessa
carta, convidei vocês a pensar sobre o que o
Espírito Santo pode estar nos dizendo sobre
o nosso modo particular de discipulado, a vita
apostolica. Examinando alguns aspectos da
Congregação hoje, tentei indicar sinais de vitalidade
e também razões para nos preocuparmos com nosso
tipo de discipulado. Partindo de sua experiência
pessoal, vocês provavelmente pensaram em outros
exemplos de vigor e de declínio. Gostaria de
iluminar a realidade da Congregação, considerando
aquele que julgo ser o voto que pode dar uma
crucial contribuição para a vida apostólica
dos Redentoristas hoje: o voto de obediência.
Antes que alguém se irrite e comece a ver fantasmas
de autoritarismo e centralização, permitam que
eu me explique.
II.
JULGAR
Tende entre vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus… (Fl 2,5)
Os
votos hoje
38. A profissão religiosa é
o ato que define toda a vida missionária dos
Redentoristas (Const. 54). A força dessa profissão
não é simplesmente um compromisso de viver as
consequências dos três votos, junto com o voto
e juramento de perseverança. Mais que a aceitação
de obrigações, a profissão religiosa representa
um impulso do Espírito Santo, que leva os Redentoristas
a não poupar nenhum esforço para chegar ao dom
total de si mesmos como uma resposta
ao Senhor que os amou primeiro (Const. 56).
Os votos são certamente de grande conseqüência
no processo diuturno da autodoação, mas isto
ocorre também com o compromisso de levar “uma
vida fraterna cheia de caridade apostólica”,
conforme esclarece a nossa fórmula da profissão.
39. Para os Redentoristas, os
votos devem ser vividos à luz da missão recebida
pela Congregação e têm tanto a ver com a comunidade
quanto com os confrades individualmente. No
nível individual, os votos podem ser considerados
uma determinação sobre como os Redentoristas
lidam com a ordem social, com a sexualidade
e com a propriedade. Juntos, os votos representam
um compromisso público e livremente assumido
de viver uma vida de autodoação, modelada segundo
o exemplo do amor de Cristo por Sua Igreja.
Como o Seu, nosso dom é total e irreversível.
[10]
40. Pode ser útil, então, destacar
um voto como tendo um valor único para a vita
apostolica na primeira década do século
XXI? Se este é o caso, qual deles? Quando se
considera o testemunho evangélico dos votos
no contexto dos acontecimentos atuais, pode-se
alegar que a castidade religiosa oferece um
testemunho singular diante dos escândalos públicos
causados pelos abusos sexuais de clérigos e
religiosos e diante da redução da expressão
sexual a um impulso biológico necessário. Por
outro lado, dada a nossa preferência pelos abandonados
e entre eles, pelos pobres, certamente queremos
entender melhor e viver com maior coerência
o conselho evangélico da pobreza. Todavia, vou
mostrar como a obediência tem uma função particularmente
decisiva na vida apostólica hoje.
41. É praticamente um chavão
afirmar que vivemos no meio de um mundo, de
uma Igreja e de uma Congregação em rápida mudança.
Nossa era é chamada de tempo de transição marcado
por “grandes avanços na ciência e na tecnologia
e também por poderosos meios de comunicação
que às vezes colonizam o espírito”. [11]
Temos a ambígua experiência da globalização
que nos torna interdependentes ao mesmo tempo
que solapa as identidades culturais particulares.
Mas nossos dias também apresentam “momentos
de kairos nos quais temos surpresas e
percebemos que o Deus que fala é o Senhor da
história”. Sentimos “uma sede e uma crise de
significado que nos apresenta milhares de propostas
e promessas”. [12]
42. Mesmo no “intervalo” da
hora presente, a Congregação deve fazer escolhas.
Não tem liberdade para ser volúvel nem pode
determinar os critérios para suas opções apenas
com suas próprias luzes. No meio de uma cacofonia
de vozes que procuram “colonizar” seu espírito,
a Congregação precisa distinguir a voz d’Aquele
que nos chamou para sermos “colaboradores, companheiros
e ministros na grande obra da Redenção pregando
aos pobres a Palavra da salvação” (Const. 2).
Porque os Redentoristas somos chamados a responder
a situações de real necessidade pastoral (Const.
5), nossas escolhas precisam ser avaliadas regularmente,
para que não nos permitamos “instalar-nos em
condições ou estruturas nas quais [nossa] atuação
já não seria missionária” (Const. 15).
43. A agitada experiência de
mudança em nosso Instituto nas cinco últimas
décadas como também o fluxo do mundo hodierno
exigem que os Redentoristas tenham corações
que ouvem e discernem, livres para seguir as
inspirações do Espírito Santo. Assim, proponho
que demos particular atenção ao voto de obediência
como um compromisso em vista de uma corresponsável
busca da vontade de Deus conforme o carisma
da Congregação.
44. Embora uma consideração completa do voto deva incluir a função da autoridade
na vida apostólica como também a obrigação dos
religiosos de obedecer às legítimas determinações
de seus superiores, nesta reflexão gostaria
de pensar sobre o nosso voto no contexto radical
descrito por Paulo VI: “Mais ainda que uma obediência
puramente formal e legalista à lei da Igreja
ou submissão à autoridade eclesiástica, [a obediência]
é uma penetração e aceitação do mistério de
Cristo, o qual, pela obediência, nos salvou.
É uma continuação do Seu gesto fundamental:
dizer Sim à vontade do Pai.” [13]
A obediência neste sentido fundamental
está em sintonia com a Palavra de Deus e com
o rico patrimônio espiritual da Congregação
e nos ajudará a distinguir a voz de nosso Mestre
e a reconhecer o kairos dentro do caos
de nossos tempos.
Uma
pergunta e uma resposta
45. Os Evangelhos apresentam
certo número de “histórias de vocação,” relatos
que contam como Jesus faz um chamado que é aceito
ou rejeitado por Seus ouvintes. Minha “história”
favorita é todo o Evangelho de João, que começa
com uma pergunta e termina com um convite. As
primeiras palavras de Jesus são “Que estais
procurando?” (Jo 1,38); o Evangelho termina
com Suas palavras a Pedro “Segue-me” (Jo 21,22).
À diferença do chamado dos apóstolos nos Sinóticos,
as primeiras palavras de Jesus a André e ao
outro discípulo são um apelo a seu desejo, seus
sonhos, seus ideais: “Que estais procurando?”
O Evangelho é a história do surpreendente encontro
entre o Deus que “tanto amou o mundo”, e a fome
mais intensa do coração humano. O chamado a
seguir vem depois da revelação do mistério pascal,
no qual o plano salvífico do Pai é plenamente
manifestado.
46. A procura de Deus sempre
foi o programa de toda e qualquer existência
sequiosa de absoluto e de eterno. [14]
As grandes tradições religiosas
espelham essa procura, como também as sociedades
secularizadas, nas quais homens e mulheres procuram
algum tipo de sentido na vida, na morte, no
amor e no sofrimento sem referência a uma fé
revelada. Como Paulo no Areópago, se prestamos
atenção nos “santuários” que essas sociedades
constroem, podemos discernir muitos altares
ao Agnostos Theos (cf. At 17,23).
47. Para os Redentoristas, a
pergunta sobre o significado último encontra
a resposta definitiva em Jesus Cristo. Junto
com nossos irmãos e irmãs na fé, confessamos:
“Mestre, a quem iremos? Tu tens as palavras
de vida terna. Nós acreditamos e sabemos que
és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Porém, mesmo
quando chegamos à alegre certeza de que encontramos
o que estávamos buscando (cf. Jo 1,41), a busca
continua.
48. A nossa profissão é “o ato que define a nossa vida missionária” (Const.
54), mas é também a continuação da procura.
Penso na imagem de Jesus que está na capela
da Cúria Geral, que o representa em perfil de
três-quartos. Permanece sempre um lado oculto
do Mestre, de modo que a nossa oração continua
sendo: “Vossa face, Senhor, eu procuro” (Sl
27,8).
A
obediência é devida somente a Deus
49. O ponto de partida necessário
para considerar a obediência é a fé, nossa resposta
à mais fundamental vocação que recebemos no
batismo. No seu sentido teológico, a obediência
é devida somente a Deus. Qualquer outra manifestação
de obediência religiosa é uma mediação, um meio
para um fim, dirigido para a única genuinamente
importante e decisiva vontade na vida de um
cristão e, portanto, de um Redentorista. [15]
50. A obediência reconhece a primazia de Deus sobre tudo e sobre todos. [16]
Assim, em suas mais fundamentais
identidades, a Congregação e a Igreja não estão
estruturadas em duas classes, os que mandam
e os que obedecem. A todos os Seus discípulos,
Jesus diz: “Não tendes senão um Mestre, e todos
sois irmãos” (Mt 23,8). Na Igreja cada qual
deve buscar a vontade de Deus e todos são chamados
a serem obedientes, pois quem faz a vontade
do Pai é “irmão, irmã e mãe” para Jesus Cristo
(Mt 12,50).
Cristo
é o modelo da obediência
51. As Constituições reconhecem
que aos Redentoristas foi dado um modelo visível
de como devemos buscar e viver a vontade de
Deus na história. A primeira constituição sobre
o voto de obediência começa com as palavras:
“A exemplo de Cristo, que veio para fazer a
vontade do Pai, e dar a vida para a redenção
de muitos … ” (Const. 71). A obediência à vontade
de Deus não era algo acrescentado à personalidade
de Cristo, mas sim sua plena expressão: “Meu
alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou”
(Jo 4,34). [17]
Como Seus “colaboradores, companheiros
e ministros na grande obra da Redenção”, nós
também somos chamados a uma obediência que continua
a missão dada a Cristo pelo Pai.
52. Então, quando nós Redentoristas
falamos sobre a “missão” da Congregação, estamos
falando de obediência, não de slogans surrados
ou de respostas pré-fabricadas. Por este voto,
estamos “buscando o Reino de Deus e participando
intimamente do mistério pascal de Cristo, que
é mistério de obediência” (Const. 71).
53. O ponto de referência é Cristo e o mistério de Sua kenosis. A
expressão concreta da missão na história não
é sempre evidente por si; por isso buscamos
vontade de Deus num espírito de fé e de amor.
Santo Afonso nos exorta a continuar esta busca,
ensinando que a nossa verdadeira realização
vem do Deus-Amor, que tanto merece nosso amor,
mas a perfeição do amor de Deus consiste em
unir nossa vontade com a Sua. [18]
O
que é «Vontade de Deus»?
54. O que é esta “vontade” do
Pai que devemos buscar e – como Cristo – procurar
realizar dentro da estrutura de tempo e circunstâncias
em que a Congregação se encontra? A resposta
pode ser encontrada nas primeiras palavras da
oração que Jesus nos deu: agir de tal modo que
o Pai seja reconhecido como o único Santo, que
seu Reino histórico e escatológico venha e que
Sua vontade seja feita assim na terra como no
céu (cf. Mt. 6,9-10) [19]
. A Vontade Divina começa a ser feita
quando cremos no Filho enviado pelo Pai por
amor ao mundo (Jo 3,16s) a fim de que ninguém
pereça (cf. Jo 6,40). O ponto invisível de referência
para a vontade de Deus é o extravagante amor
do Pai (Mt 5,42-48); seu ponto de referência
visível é a atitude de Cristo para com os que
Ele amou (cf. Jo 15,9-17). [20]
55. São Paulo faz uma lista
de ações visivelmente exemplares que finalmente
são inúteis, se são feitas sem amor (1Cor 13,1-3).
Do mesmo modo, Santo Afonso ensina que não basta
fazer coisas louváveis, se nosso comportamento
não está em conformidade com a vontade de Deus. [21]
Assim, também, nem toda opção pastoral
assumida por um confrade, uma comunidade local
ou uma Província pode ser julgada consentânea
com o carisma da Congregação, se a escolha não
é feita em harmonia com a vontade de Deus. Santo
Agostinho sucintamente observou: Martyres
non facit poena sed causa – não é a pena
mas a causa que faz os mártires. [22]
56. Contudo, a autêntica experiência
de Deus sempre permanece a experiência de alteridade [23]
Como nos recorda o Papa Bento XVI
em sua segunda encíclica, “Por grande que seja
a semelhança verificada entre o Criador e a
criatura, sempre maior é a diferença entre ambos.” [24]
O profeta convida a “procurar o
Senhor enquanto pode ser encontrado, invocá-lo
enquanto está perto” (Is 55,6) e imediatamente
adverte contra toda falsa intimidade ou fácil
familiaridade: “Pois meus pensamentos não são
vossos pensamentos, e vossos caminhos não são
meus caminhos, diz o Senhor. Porque quanto o
céu se eleva sobre a terra, tanto meus caminhos
se elevam sobre vossos caminhos, e meus pensamentos
sobre vossos pensamentos” (Is 55,8-9).
57. A sublime “alteridade” de
Deus significa que devemos buscar sua vontade
através de meios coerentes com a Sua revelação.
Primeiro e acima de tudo, a real obediência
de todo discípulo e “aderir à Palavra com a
qual Deus se revela e comunica”. [25]
O seguimento de Cristo conforme
apresentado no Evangelho é a norma fundamental
da vida religiosa e deve ser considerado como
a regra suprema na Congregação. [26]
58. Uma outra mediação da vontade
de Deus é o ofício magisterial da Igreja, que
tem a tarefa de dar uma interpretação autêntica
da Palavra de Deus, ensinando com autoridade
em nome de Jesus Cristo. No entanto, esse Magistério
não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao
seu serviço [27]
. Pode ensinar somente o que lhe
foi transmitido. Por mandato divino, com a assistência
do Espírito Santo, piamente ausculta aquela
Palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe. [28]
59. Existem outras mediações
da vontade de Deus que são específicas da vocação
de cada um na vida. Os religiosos e as religiosas
são chamados a seguir o Cristo obediente dentro
de um “projeto evangélico ou carismático, inspirado
pelo Espírito e autenticado pela Igreja.” [29]
Em sua exortação apostólica Vita
Consecrata, o Papa João Paulo II indicou
uma urgente necessidade atual de que cada Instituto
retorne à sua Regra, “pois nela e nas Constituições
se encerra um itinerário de seguimento, qualificado
por um carisma específico e autenticado pela
Igreja.” [30]
60. A força de nossas próprias
normas está claramente afirmada na Constituição
74: “As Constituições, Estatutos e os decretos
legítimos devem ser observados pelos superiores
junto com os confrades, em comunhão de Espírito,
como válido instrumento, pelo qual os confrades
e as comunidades sempre se conformem à vontade
de Deus e cumpram a missão de Cristo, como Ele
disse de Si mesmo: ‘Desci do céu, não para fazer
minha vontade, mas a vontade daquele que me
enviou’ (Jo 6,38).” Ignorar as Constituições
e Estatutos ou relegá-los à periferia da vida
de uma província ou da Congregação toda claramente
coloca em risco a fidelidade de seus membros.
61. Finalmente, uma mediação
específica da vontade de Deus para a Congregação
é a voz dos pobres abandonados. Pensamos no
decisivo encontro de Afonso com os pastores
e cabreiros nas montanhas acima de Scala. O
que ele “ouviu” lá levou-o a entender e aceitar
a vontade de Deus: que ele deixasse para trás
os pobres das vielas de Nápoles e passasse o
resto da vida entre o povo abandonado do interior.
62. Como estamos lembrados,
sempre que Afonso queria descrever seu Instituto
para as autoridades eclesiásticas ou civis,
enfatizava como característica essencial o fato
de que suas comunidades deviam estar localizadas
no meio do pobres abandonados do interior. Este
particular distinguia os Redentoristas dos Pii
Operai e dos outros grupos missionários
que continuavam morando nas cidades enquanto
faziam uma ocasional incursão no mundo dos abandonados.
63. A meu ver, Afonso insistia
nessa característica não simplesmente por razões
pastorais, ou seja, para permitir aos abandonados
mais acesso a nossas casas e dar aos missionários
mais facilidade para percorrer diferentes dioceses.
Conhecendo o papel decisivo que a voz dos pobres
abandonados exerceu em seu próprio discernimento,
creio que Afonso quis seus companheiros sempre
próximos do tipo de pessoas pelas quais o próprio
Jesus manifestou uma clara preferência. Assim,
a voz delas continuaria a revelar para os Redentoristas
a originalidade da sua vocação. Como ele escreveu
às comunidades de Scifelli e Frosinone em 1778:
“Atender as almas, mas especialmente
os pobres, os camponeses e os mais abandonados.
Lembrem-se de que Deus evangelizare pauperibus
misit nos nestes nossos dias. Gravem isto
firmemente em seus corações e busquem somente
a Deus entre os pobres abandonados se quiserem
agradar a Jesus Cristo.” [31]
64. Nossas Constituições nos
convidam a descobrir o Senhor nas pessoas que
nos interpelam de modo especial: os “abandonados”
(Const. 3), com especial atenção para com “os
pobres, os fracos e os oprimidos” (Const. 4)
e uma preferência pelas “condições de necessidade
pastoral” (Const. 5). Buscamos a Deus nas circunstâncias
concretas da vida, esforçando-nos por “ir ao
encontro do Senhor onde Ele já está presente
e atua com seu modo misterioso” (Const. 7) e
deixando que as circunstâncias específicas de
uma determinada situação pastoral nos ensinem
o tipo de resposta que devemos dar (Const. 8).
O dom do Espírito Santo nos permite reconhecer
Deus atuando nas circunstâncias ordinárias da
vida (Const. 24) mas especialmente nos “ansiosos
questionamentos” dos homens e mulheres de nosso
tempo (Const. 19).
65. Em resumo, a obediência
é uma atitude fundamental de todo fiel, não
a prerrogativa exclusiva de um pequeno grupo
de pessoas que a professam como conselho evangélico.
Os Redentoristas, como quaisquer outros na Igreja,
são chamados a obedecer, seguindo o exemplo
de Jesus, que veio não para fazer a Sua vontade,
mas a do Pai (Jo 6,38). A diferença é que cada
membro da Igreja vive essa obediência a Deus
conforme seu carisma e vocação. A vontade de
Deus não existe anteriormente à vocação; é pela
específica vocação que Deus manifesta Sua vontade
ao indivíduo. [32]
Assim, pelo nosso voto nos comprometemos
a obedecer num estilo redentorista: buscando
a vontade de Deus que se revela por Sua Palavra,
pelas normas de nosso projeto carismático e
pela voz dos pobres abandonados.
III.
AGIR
Eis que faço uma coisa nova! Ela já desponta, não a
percebeis?
(Is 43,19)
66. Repito a asserção feita
antes nesta carta: que a obediência é o voto
axial para os Redentoristas num tempo de mudança.
No passado, este voto foi considerado principalmente
em termos pessoais e legalistas. Embora as nossas
Constituições ainda entendam o voto como obrigando
os confrades a obedecer às legítimas ordens
dos superiores (Const. 71), há uma necessidade
urgente de considerar este voto como um apelo
a criar “comunidades obedientes” em todo nível
da Congregação. Os votos são sempre dos indivíduos
e da comunidade. Seria um sério erro separar
essas duas dimensões e reduzi-los simplesmente
a obrigações individuais.
67. Sem uma comunidade comprometida
a buscar de maneira obediente a vontade de Deus,
é difícil, se não impossível, para os indivíduos
permanecer obedientes. É claro que nenhum de
nós pode viver plenamente e com alegria a liberdade
do voto de obediência sem a força de uma comunidade
obediente, já que a obediência de cada indivíduo
ao Pai tem lugar dentro da estrutura da comunidade
eclesial. Não é só a relação fundamental e pessoal
entre a consciência da pessoa e Deus que é significativa;
a relação com nossos irmãos é igualmente importante.
De fato, a vitalidade de uma comunidade está
intimamente ligada à qualidade de sua obediência
como comunidade. [33]
68. Como podemos assegurar que nossas comunidades – locais, provinciais
ou a própria Congregação, [34]
permaneçam obedientes? Creio que
precisamos distinguir entre as muitas vozes
que procuram colonizar nosso espírito, intensificando
a nossa atenção à Palavra de Deus, ao projeto
carismático da Congregação e à voz dos pobres
abandonados.
Lâmpada
para nossos pés … Luz para nosso caminho
69. A Palavra de Deus é a fonte
da nossa vocação, nosso sustento diário e o
conteúdo de nossa obra missionária. Precisamos
proclamar, meditar, partilhar e rezar em obediência
à Palavra e esforçar-nos por fazer da Palavra
o nosso “primeiro livro de espiritualidade” [35]
. Devido ao papel absolutamente vital
que a Palavra exerce para os discípulos, a Congregação
deve dar maior valor à escuta, que não é, primeiramente
e sobretudo, uma técnica de dinâmica de grupo
mas uma busca contínua do que o Pai quer.
70. Como judeu piedoso, Jesus
devia começar sua oração diária repetindo as
palavras do Deuteronômio: “Ouve, ó Israel! O
Senhor é nosso Deus, o Senhor somente! Portanto,
amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração,
com toda a tua alma e com todas as tuas forças”
(Dt 6,4-5). Diz ele a seus discípulos: “Todo
aquele que é de Deus ouve as palavras de Deus”
(Jo 8,47). Como podem as nossas comunidades
demonstrar esta atenção diária à Palavra de
Deus?
71. O ritmo da vida comunitária
deve ajudar os membros a ouvir atentamente a
Palavra. A leitura diária e períodos de meditação
em comum nos ajudarão a ouvir a palavra enquanto
comunidade e a pedir a luz do Espírito Santo
para compreendê-la. Muitas comunidades locais
têm toda semana um tempo de partilha em preparação
da homilia dominical ou outros momentos de proclamação
extraordinária. Devemos encorajar-nos mutuamente
a deixar que a Palavra de Deus transforme nossos
corações e dar maior valor à recepção do Sacramento
da Reconciliação e à direção espiritual.
72. Se concordamos com São Jerônimo em que “ignorar as Escrituras é ignorar
Jesus Cristo,” [36]
então a dificuldade em descobrir
a dimensão profética da nossa vocação pode estar
enraizada na falta de familiaridade com a Palavra
de Deus. Afinal, Jesus comissiona seus apóstolos
dizendo: “Sereis minhas testemunhas”
(At 1,8); é a ele e a seu Reino que damos testemunho.
São João Crisóstomo observa que os apóstolos
desceram do monte na Galiléia, onde haviam encontrado
o Senhor ressuscitado, sem tábuas de pedra escritas
como as que Moisés recebera: as vidas deles
se tornariam evangelho vivo, daquela hora em
diante. [37]
No
coração da comunidade… está o próprio Redentor
e seu Espírito de Amor
73. Parece-me que precisamos
aceitar que não é arbitrário seguirmos a Cristo
de um modo ou de outro. Em matéria de vocação
não existe nada arbitrário. Cada cristão deve
procurar sua vocação, ou seja, a vontade de
Deus no seu caso individual e, uma vez encontrada,
como o negociante da parábola de Jesus, “se
alegra e vende tudo o que tem” para viver na
fidelidade ao chamado do Senhor (Mt 13,44).
Para papai e mamãe, a vocação deles como esposos
e pais é superior a todas as outras porque é
a vocação deles, isto é, aquela à qual
foram chamados. Para mim, ser Redentorista é
o modo melhor de viver porque é aquele ao qual
Deus me convidou.
74. Pela nossa profissão, respondemos
ao Senhor com o dom total de nós mesmos e nos
comprometemos a buscar a vontade de Deus dentro
de uma comunidade eclesial concreta, a Congregação.
A nossa obediência a Deus, algo invisível, tem
lugar dentro da estrutura de nossa comunidade
visível.
75. Assim como não podemos afirmar
que amamos a Deus que não vemos, se desprezamos
o irmão que vemos (cf. 1Jo 4,20-21), os Redentoristas
não podem afirmar que estão buscando a vontade
de Deus, a não ser que esta busca tenha lugar
dentro da comunidade visível da Congregação.
Assim, as normas para guiar o discernimento
e a tomada de decisões são de crucial importância
para evitar o perigo de reduzir a missão da
Congregação a um ofício ou uma carreira que
é abraçada principalmente para a sua própria
vantagem e então é administrada mais ou menos
pelo próprio indivíduo. [38]
As nossas Constituições propõem
que a busca da vontade de Deus é uma tarefa
pela qual cada membro da Congregação é corresponsável.
76. Nenhum Redentorista pode
eximir-se de ajudar a criar uma comunidade obediente,
já que a cada um é dada a manifestação do Espírito
em vista do bem comum (Const. 92; cf. 1Cor.
12,7; Const. 72). Por isso, um serviço crucial
para os que exercem autoridade é encorajar a
comunidade em seu esforço de escutar, discernir
e executar a vontade de Deus, “levando os confrades
a cooperar com obediência ativa e responsável
no desempenhar encargos e no assumir iniciativas.”
(Const. 72).
77. Um instrumento importante
no exercício da obediência corresponsável é
o diálogo, designado por Paulo VI como um novo
nome da caridade [39]
e para o qual a vida consagrada
deve oferecer uma experiência privilegiada. [40]
Ainda que o discernimento comunitário
não seja um substituto para o serviço da autoridade
na comunidade, os que exercem autoridade devem
sempre ter em mente que a comunidade é o melhor
lugar no qual reconhecer e aceitar a vontade
de Deus. [41]
78. As nossas Constituições
e Estatutos, bem como os decretos dos recentes
Capítulos Gerais, propõem alguns modos pelos
quais a comunidade busca a vontade de Deus.
As assembléias e capítulos provinciais são momentos
privilegiados para ouvir, discernir a vontade
de Deus e dar uma resposta efetiva. Todos os
membros da (Vice-)Província devem ter oportunidade
de contribuir generosamente para a reflexão
do Capítulo, ou pela participação num processo
de preparação bem articulado, ou como membros
eleitos. Para este fim, os membros da Unidade
devem ser bem informados sobre as questões que
serão examinadas pelo Capítulo e ter oportunidade
de expressar sua opinião.
79. O princípio da corresponsabilidade
não significa que cada um deve estar fisicamente
presente no Capítulo. Com efeito, o Conselho
Geral tem sérios questionamentos sobre a eficácia
de grandes Capítulos, especialmente como expressão
ordinária de governo em Unidades maiores. Entre
os muitos problemas desta forma de governo,
temos visto que esses organismos produzem determinações
que são muitas vezes tão vagas e expressas numa
linguagem tão genérica, que o governo provincial
recebe pouca orientação eficaz para o exercício
de seu mandato. A falta de uma clara direção
para uma Província é um convite a todo tipo
de exagerado individualismo que prejudica certo
número de Unidades hoje em dia. Faltando um
discernimento obediente e colegial de suas prioridades,
os membros da Unidade são encorajados a “buscar
alguma coisa para fazer”, acelerando assim a
fragmentação da comunidade.
80. Em nossa Congregação, as
eleições não são simplesmente uma questão de
depositar votos e contá-los; muito menos a procura
de alguém que não vai incomodar os confrades
na realização de seus projetos individuais.
Ao invés, as eleições devem ser um importante
exercício do voto de obediência da parte da
comunidade provincial, que é caracterizado por
uma humilde e corresponsável busca da vontade
de Deus. Já que o processo eleitoral deve ser
realizado numa atmosfera orante, esperando-se
que conduza a uma convergência de vistas, a
Congregação deve examinar com visão crítica
certos processos, mais ou menos democráticos
ainda que privatizados, tais como votar pelo
correio. É difícil ver como esse sistema favorece
o diálogo e o discernimento entre os confrades
da Unidade. A finalidade apostólica da Congregação
deve penetrar e inspirar o discernimento e a
seleção dos líderes.
81. O XXII Capítulo Geral (1997)
recomendou à Congregação o uso do projeto de
vida comunitária. Algumas Províncias fazem uso
regular desse instrumento e nele têm encontrado
um meio poderoso para a busca da vontade de
Deus na situação concreta da comunidade local.
A preparação do plano provoca um frutuoso diálogo
que visa inserir os dons pessoais de cada confrade
num projeto comum. Uma avaliação periódica do
projeto pode ocasionar uma proveitosa revisão
de vida pelos membros e abrir a porta para a
conversão contínua.
82. Finalmente, dada a função particular do superior local no discernimento
da comunidade (cf. por exemplo Const. 72, 136;
Est. geral 037), uma importante estrutura para
promover a corresponsabilidade são as reuniões
periódicas dos superiores, destinadas à sua
formação contínua naquilo que deles se espera
conforme o projeto carismático da Congregação.
O
Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me consagrou com a unção …
83. Junto com a obediência à
Palavra de Deus e a adesão às Constituições
e Estatutos, a nossa atenção obediente à voz
dos pobres abandonados ajuda-nos a garantir
nossa fidelidade à vontade de Deus. Nesses anos
tenho meditado muitas vezes sobre o encontro
do diácono Filipe com o oficial de Candace,
rainha da Etiópia, narrado nos Atos dos Apóstolos
(At 8,27ss). Enquanto voltava de Jerusalém,
o eunuco fazia uma leitura atenta do Livro do
Profeta Isaías. Porém, por mais que se esforçasse,
simplesmente não conseguia entender o texto.
Quando Filipe entrou em seu carro e explicou-lhe
a Palavra, o oficial não apenas entendeu mas
foi convertido para o Senhor. Sua vida tomou
uma nova direção e ele pediu para ser batizado.
84. Há uma lição para nós nesta
passagem dos Atos? Nós Redentoristas temos uma
“página” à nossa frente, seja ela a própria
Palavra de Deus, seja o momento presente da
história, e, não obstante nossos esforços, não
conseguimos “lê-la” – seu sentido nos escapa.
Assim como o Espírito conduziu Filipe para ajudar
o eunuco a entender o que ele estava lendo,
assim o Espírito deu à Congregação os pobres
abandonados como nossos tutores. Se não ouvirmos
sua voz, a página escrita da Escritura, as Constituições
e Estatutos e o mundo ao nosso redor permanecerá
amplamente indecifrável para nós.
85. Nós ouvimos os pobres abandonados,
primeiramente e sobretudo, por causa de Jesus
Cristo, que iniciou seu ministério público com
uma proclamação de esperança para os pobres,
os fracos e os oprimidos da terra: “O Espírito
do Senhor está sobre mim, pois me consagrou
com a unção para anunciar a boa-nova aos pobres.
Enviou-me a proclamar aos cativos a libertação
e aos cegos a recuperação da vista, para pôr
em liberdade os oprimidos e proclamar um ano
de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Afonso ligou
a missão da Congregação com a missão de Jesus
Cristo e usou essa passagem de Lucas para nos
ajudar a entender por que existimos na Igreja.
86. Não estamos apresentando
às pessoas um Deus distante e difidente, mas,
antes, ajudamos as pessoas a ver que Deus deu
o primeiro passo e já está entre elas. Escutamos
os pobres abandonados a fim de descobrir o Senhor
“onde já está presente e atua com seu modo misterioso”
(Const. 7) especialmente entre os marginalizados
pela Igreja ou pela sociedade. Deus nos confiou
a missão de testemunhar Sua própria kenosis
que o leva às profundezas de nosso mundo e de
volta ao céu, de contar essa história a outros
que de outra forma teriam pouca chance de ouvi-la
e oferecer-lhes plena participação na vida divina.
87. Escutar a voz dos pobres
abandonados não apenas nos convence de seu apelo
a nós; percebemos também que eles oferecem seus
próprios dons à Congregação. Por meio deles,
experimentamos o mistério da força de Deus que
se manifesta na fraqueza (2Cor 4,7-9), não só
entre as pessoas que servimos mas também na
fragilidade de nossos próprios recursos. Os
pobres nos ensinam que a força se encontra na
comunidade e no relacionamento, e assim nos
encorajam a procurar novas estruturas de cooperação
que vão sustentar nossa obra missionária. Finalmente,
os pobres abandonados nos convidam a uma missão
que é sempre uma resposta gratuita ao amor abundante
de Deus: “De graça recebestes; de graça deveis
dar” (Mt 10,8). É nossa própria experiência
da gratuita compaixão de Deus que nos impele
a fazer o dom total de nós mesmos.
88. Os pobres não precisam de
nós. Se escolhermos não ir até eles, Deus vai
encontrar outras pessoas, já que ele ouve o
clamor dos pobres. Meus irmãos, a questão é
que nós precisamos dos pobres, se quisermos
ser fiéis à missão que nos foi confiada. A obediência
à voz deles não é simplesmente “fazer coisas”
por eles, mas entrar num processo de conversão
que nos leve a esvaziar-nos de nós mesmos e
oferecer nossas vidas como um dom. Para tanto,
devemos reconhecer que os pobres abandonados
realmente existem: eles não são simplesmente
teorias ou estatísticas, mas têm nomes e rostos.
Nós vamos aonde a Igreja não pode ou não quer
ir, e escutamos as pessoas que lá encontramos.
Se ouvirmos sua voz, junto com a Palavra de
Deus e nossas Constituições e Estatutos, vamos
aprender o que nos cabe fazer.
CONCLUSÃO
Maria, porém, disse ao anjo: "Como será isto, se eu não vivo com um
homem?"… Respondeu Maria: "Eis aqui
a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a
tua palavra." (Lc 1,34.38)
89. O Congresso Internacional
sobre a Vida Consagrada, um evento sem precedentes
que reuniu em 2004 mais de 800 participantes
– a maioria Superiores Gerais de Congregações
masculinas e femininas, junto com presidentes
de praticamente todas as Conferências nacionais
de religiosos e certo número de teólogos – produziu
um Documento Final com certos pronunciamentos
audaciosos. Entre os mais fascinantes está este:
“De uns tempos para cá algo novo tem
surgido entre nós além de outras realidades
de morte (tradições e estilos obsoletos, instituições
que morrem). A agonia do que está morrendo e
a confiança no que está nascendo nos afetam.
Embora não vejamos ainda claramente o que o
Espírito está fazendo nascer na vida consagrada,
no entanto identificamos … novidades que brotam
…” [42]
90. Após dezoito anos de escuta
dos Redentoristas e dos irmãos e irmãs que nos
acompanham, como também dos membros de outros
institutos de vida consagrada, estou mais convencido
do que nunca de que algo novo está nascendo
em nossa Congregação. O nosso exercício do voto
de obediência nos ajudará a vislumbrar o que
o Espírito está fazendo surgir e nos dará corações
que sejam bastante livres para fazermos nossa
parte na grande obra da Redenção.
91. Devemos ser como Maria na anunciação: ela pergunta (Lc 1,34), reflete,
medita. Ela confia e se abandona a Deus. Sua
obediência é “crer mas interrogar;” [43]
ao mesmo tempo, “pronta na obediência”. [44]
Ela “conservava todas estas coisas
e as meditava em seu coração” (Lc 2,19), “encontrando
assim o laço profundo que unia eventos, gestos
e coisas aparentemente distintos no grande plano
divino.” [45]
Nela reconhecemos nossa Mãe, solícita
para nos ajudar a cada instante, mas também
nosso modelo nos caminhos da fé. [46]
Que ela nos ajude a escutar o Senhor
e a reconhecer a grandeza da nossa vocação.
Que ela nos leve a um amor sempre mais profundo
para com seu Filho, o Redentor do mundo.
Fraternalmente no Cristo Redentor,
Joseph W. Tobin, C.Ss.R.
Superior Geral