Communicanda II - 2003-2009

 



Communicanda
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A REDEnçÃo

4 de junho de 2006
Solenidade de Pentecostes

Introdução

Meus caros Confrades:

Porque no SENHOR está a misericórdia, e com ele há copiosa redenção! (Sl 130, 7).

1.    É um considerável desafio partilhar com Vocês estas reflexões sobre o tema da redenção. Digo isto não simplesmente porque ele é difícil e exigente. A empresa é assustadora porque falar ou escrever sobre redenção é tocar o próprio coração de nossa fé cristã e, obviamente, o centro vivificante da própria Congregação. Durante o ano passado, muitos confrades partilharam suas reflexões sobre este tema e me ofereceram uma riqueza de notas e sugestões. Os membros do Conselho Geral trabalharam com muito afinco e por longo tempo para elaborar sua contribuição pessoal, e me pediram para escrever a versão final. A todos, a minha gratidão: a Vocês pertence o mérito da profundidade e da sabedoria teológica deste documento. Mas, afinal, assumo a responsabilidade de reunir todo o conjunto partindo da perspectiva pastoral do meu ofício. Isto significa também que assumo a responsabilidade por qualquer debilitação das contribuições originais e pelas outras deficiências que nele se possam encontrar.

A Urgência sentida no XXIII Capítulo Geral

2.    O mandato para esta Communicanda foi dado no XXIII Capítulo Geral em outubro de 2003. Na ocasião, fiquei impressionado com o senso de urgência expresso pelos Capitulares quando consideravam os desafios que os Redentoristas enfrentam na vivência do nosso carisma no mundo inteiro. Eles ressaltaram a necessidade de refletirmos sobre as dimensões vitais de nossa vocação missionária, para respondermos fielmente a esses desafios. Como estão lembrados, eles urgiam a Congregação a dedicar uma atenção particular à qualidade da nossa consagração apostólica ao Redentor. A fé em Jesus nosso Redentor é a frase decisiva que se tornou a principal razão para a nossa escolha [do tema do sexênio]. A convicção fundamental deles foi afirmada vigorosamente: Sabemos por experiência que, se mantivermos nossos olhos fixos em Jesus, quaisquer que sejam as tempestades ao redor de nós, não pereceremos. [1] O tema do sexênio, Dar a vida pela Copiosa Redenção, obtém desta perspectiva um sério significado, já que a situação mundial requer de nós maior dedicação e convicção. A qualidade de nossa consagração apostólica ao Redentor determina como vamos viver o carisma a nós confiado.

3.    Os membros do Capítulo detectaram uma necessidade urgente para nós de aprofundarmos nossa compreensão da redenção para fortalecer o próprio fundamento de nosso compromisso religioso como também o caráter dinâmico de nossa resposta missionária aos desafios do mundo. Penso que havia entre os Capitulares uma percepção de que os Redentoristas podem não estar conscientes de como mudou nossa compreensão da redenção. Com efeito, pode ser que estejamos tão ocupados ou distraídos de outra forma que não pensamos profundamente – ou não pensamos mesmo – em como Deus age no mundo. Sem essa reflexão, o Evangelho que pregamos corre o risco de se tornar nem “notícia” nem “boa”! Assim os Capitulares solicitaram que fosse escrita uma Communicanda sobre a redenção. Essa tarefa torna-se urgente já que os dados da antropologia moderna e os novos modos de entender o mundo e a nossa fé requerem uma explicitação do conceito e do seu conteúdo. Essa Communicanda deve oferecer aos Redentoristas os elementos necessários para discernir o seu significado e para revitalizar a vida apostólica. [2]

4.    A revitalização de nossa vida apostólica como objetivo da reflexão é um elemento-chave da decisão do Capítulo. Os Capitulares estão nos recordando a compreensão fundamental da vida redentorista como vita apostolica, expressão técnica que tem um significado preciso em nossas Constituições: nossa vida compreende, a um só tempo, a vida especialmente dedicada a Deus e a obra missionária dos Redentoristas (Const. 1). Longe de uma espécie de dualismo, o carisma de nossa Congregação nos chama a uma unidade fundamental entre o que somos e o que fazemos. A espiritualidade, a vida comunitária e o trabalho pastoral não são componentes separados de nossa vocação. Igualmente o estudo e a reflexão teológica fazem parte desse todo dinâmico. Cada dimensão de nossa vida é entretecida harmoniosamente, representando em seu todo a nossa missão única na Igreja. É claro que toda reflexão sobre redenção é parte desse processo e deve aprofundar e fortalecer nossa vida toda.

5.    Obviamente, um tratado sistemático da redenção extrapola a natureza e o objetivo de uma Communicanda. Portanto, esse documento não pretende ser uma apresentação abrangente. Nem sequer deseja tratar todas as questões cruciais envolvidas. A reflexão sobre um tema tão fundamental como a redenção deve ser um processo contínuo que é partilhado pela Congregação inteira e envolve outros membros da Família Redentorista. É uma tarefa que devemos assumir como parte de nossa vida pessoal e comunitária. Mais ainda: a meu ver cada Unidade e cada Região são chamadas a contemplar a noção de redenção a partir de seu contexto histórico e das expressões culturais particulares.

Os Capítulos Gerais anteriores nos ajudaram a entrelaçar os temas da identidade, espiritualidade e missão. Faz um grande bem a gente aceitar voltar a essas propostas. Pode-se também tirar algum proveito dando mais uma olhada nas Communicandas precedentes que tratam dos temas da nossa espiritualidade, do testemunho de nossa vida comunitária, da solidariedade e do apostolado. Esses documentos oferecem um pano de fundo e um contexto para esta reflexão sobre o tema da redenção. [3]

O papel essencial da metáfora

6.    Antes de entrarmos numa reflexão sobre redenção, temos de considerar o tipo de linguagem que vamos usar. Na Palavra de Deus e no decorrer da história da Igreja certo número de metáforas foram usadas para falar da redenção. Esse fato tem importantes implicações. Metáfora é uma figura de linguagem, na qual uma palavra ou frase, que literalmente denota um tipo de objeto ou idéia, é usado em lugar de outra coisa, para sugerir uma semelhança ou analogia entre elas. As metáforas são essencialmente símbolos e surge uma séria confusão quando são entendidas de modo literal ou independente. A metáfora não pode ser tomada como uma afirmação exaustiva de determinada verdade. Além disso, no falar ou na reflexão as metáforas podem exprimir uma ou várias dimensões de uma realidade e de uma verdade teológica. Todavia, uma metáfora em si mesma não pode abarcar a totalidade daquela realidade ou verdade. O uso de muitas metáforas para falar da redenção está a ilustrar como nenhuma metáfora individual é totalmente adequada.

7.    Mais ainda: não podemos perder de vista o fato de que o modo como a Bíblia fala da redenção está condicionado por diferentes contextos culturais, sociais e religiosos. As várias expressões usadas não devem ser consideradas em competição ou em oposição, mas como um esforço para tornar compreensível a verdade de fé. Por exemplo, em São Paulo encontramos o uso das categorias hebraicas de culpa e expiação. Lucas e as Cartas Pastorais, por outro lado, utilizam um tipo helenístico de pensamento. O objetivo original dos textos bíblicos era proclamar o mistério de Jesus Cristo e o mistério da redenção, de um modo que fosse compreensível para comunidades específicas. Uma respeitosa abordagem da Palavra de Deus revelada deve nos encorajar a não poupar esforço algum para tornar compreensível a mensagem da redenção nos muitos contextos culturais e históricos nos quais a Congregação evangeliza hoje.

8.    Alguns modos de falar sobre a redenção, que são fortemente influenciados por uma piedade entusiasta porém inadequada, podem nos desorientar ou até nos impedir de dar uma resposta adequada aos problemas hodiernos. Nossa própria prática pastoral e nossa pregação nos tornam cônscios da insuficiência de algumas interpretações e abordagens. Pode acontecer que tenhamos de destinar boa parte de nosso serviço missionário para a correção de certas perspectivas teológicas, que têm desorientado ou até escravizado o povo de Deus.

9.    Esta Communicanda não pretende ser um comentário teológico que vai esclarecer todas as questões. Para começo de conversa, é suficiente recordar que a história da teologia como também a da evangelização é marcada pela busca de uma linguagem que nos ajude a falar sobre a redenção. Essa busca tem levado os missionários a meditar constantemente sobre o mistério da redenção, ao procurarem metáforas que possam servir para a proclamação dessa Boa Nova. Seria maravilhoso para a Congregação ter um fórum no qual os membros da Família Redentorista pudessem partilhar essa contínua reflexão, dando assim oportunidade de mútuo enriquecimento, com os modos de ver das diversas regiões.

I.  Bebendo de nosso próprio poço

10.  Nós Redentoristas possuímos um modo instintivo e pastoral de entender e anunciar a redenção, não obstante as diferenças teológicas e culturais entre nós. Essa compreensão, que nos vem de Santo Afonso, pode ser encontrada no seio de nossa tradição espiritual e pastoral. Não poupamos esforço algum para ajudar as pessoas a entenderem que a redenção é sempre iniciativa de Deus, que nos ama de maneiras tais que a imaginação humana certamente não consegue conceber, e deseja em troca o nosso amor. Em nosso ministério, a redenção é proclamada como libertação do pecado e também como chamado de Deus para vivermos numa relação de amor com ele. Geralmente, somos conhecidos por sermos próximos do povo, em particular dos pobres mais abandonados. A misericórdia generosa, o perdão e a reconciliação são notas características de nosso ministério. Assim como Jesus convidava as pessoas a mudar seus corações e mentes, a nossa pregação tradicionalmente inclui um insistente apelo à conversão. O apostolado do confessionário é estimado por nós porque a celebração desse sacramento oferece ao povo uma tangível experiência da redenção. A maioria dos Redentoristas faz uma conexão fundamental entre a redenção e as exigências da justiça social, o respeito pelos direitos humanos e um apreço pela integridade da criação.

11.  De um modo geral, os Redentoristas entendem a redenção na linha da proclamação que Jesus fez da Boa Nova. Essa proclamação oferece a salvação a todos, com uma opção preferencial pelos pobres. Entre os pronunciamentos do Magistério sobre a redenção, talvez o Papa Paulo VI, em sua Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, resume o conteúdo da pregação de Jesus de um modo que fala aos corações dos Redentoristas, precisamente por causa da sua perspectiva pastoral, sobretudo por sua ênfase na necessidade da conversão:

Cristo anuncia a salvação, esse grande dom de Deus que é libertação de tudo aquilo que oprime o homem; e que é libertação sobretudo do pecado e do Maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser por ele conhecido, de o ver e de se entregar a ele. Tudo isto começa durante a vida do mesmo Cristo e é definitivamente alcançado pela sua morte e ressurreição; mas deve ser prosseguido, pacientemente, no decorrer da história, para vir a ser plenamente realizado no dia da última vinda de Cristo, que ninguém, a não ser o Pai, sabe quando se verificará.

Este reino e esta salvação, palavras-chave da evangelização de Jesus Cristo, todos os homens os podem receber como graça e misericórdia; e no entanto, cada um dos homens deve conquistar pela força, os violentos apoderam-se dele, diz o Senhor, pelo trabalho e pelo sofrimento, por uma vida em conformidade com o Evangelho, pela renúncia e pela cruz, enfim pelo espírito das bem-aventuranças. Mas, antes de mais nada, cada um dos homens os conquistará mediante uma total transformação do seu interior, que o Evangelho designa com a palavra metanoia; uma conversão radical, uma mudança profunda dos modos de ver e do coração. [4]

12.  Um modo redentorista de entender a redenção começa com Santo Afonso. Não diferentemente de nossa própria época, a sociedade na qual Deus chamou Afonso de Ligório para proclamar a copiosa redenção apresentava enormes desafios. Ele vivia numa momentosa mudança de época, no ponto crítico de transição da sociedade medieval para o novo e audaz mundo do Iluminismo. Afonso tomou conhecimento dos pobres mais abandonados, que muitíssimas vezes eram esquecidos nas prioridades políticas, econômicas e culturais do seu tempo. Ao mesmo tempo, estava consciente de sua própria necessidade de conversão, se quisesse responder fielmente ao chamado de Deus.

Muitos de seus contemporâneos achavam-se afastados de Deus por causa das imagens inadequadas de Deus que lhes eram apresentadas e devido a um legalismo opressor na espiritualidade e na moral. Afonso combateu essas distorções do Evangelho com uma robusta prática pastoral, imbuída de um espírito clarividente de oração e contemplação. Sua pregação da redenção tocou os corações das pessoas que tinham chegado ao ponto de imaginar a Deus quando muito como remoto e indiferente, e no pior dos casos, como um tirano cruel.

13.  Para Afonso a totalidade da vida cristã está centrada em Jesus e sua obra da redenção. Se queremos entender a intuição espiritual de nosso Fundador, então creio que o enfoque crucial não é na redenção como categoria abstrata, mas antes na pessoa do Redentor. Para Afonso, uma abordagem cristológica é indispensável, pois é o Redentor que revela a redenção. O Redentor representa o verdadeiro caráter de Deus em toda a sua plenitude. Quem é Deus? O que Deus pensa dos seres humanos? Afonso une sua voz a Jesus no Evangelho de João: “Pois de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que não morra quem nele crê, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não mandou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que por meio dele o mundo seja salvo” (Jo 3, 16-17).

O Redentor é ele próprio amor, que deseja tocar e transformar cada ser humano, de modo que todos possam encontrar felicidade e plenitude verdadeiras. Jesus veio para que todos “tenham vida e a tenham em maior abundância” (Jo 10, 10). Todavia, não poupando nenhum esforço para amar e ser amado, o Redentor “esvaziou-se a si mesmo”, primeiro na encarnação e depois na morte, e até mesmo “morte numa cruz”. A opção do Redentor pelo caminho da kenosis absoluta visa desacreditar toda imagem falsa de Deus, ao mesmo tempo que derruba o muro do orgulho e da suspeita humanos sobre Deus e sobre seu plano a nosso respeito.

O mistério da redenção não consiste em que nós nos tornemos dignos de Deus, mas antes em que, em Cristo Jesus, Deus nos faz dignos dele (Cl 1, 12-14; Ef 1, 3-14). Essa compreensão do desejo de Deus de transformar os seres humanos pelo amor é um elemento importante da visão de Afonso. A redenção torna-se a entrega livre de alguém na admiração e na gratidão pelo amor de Deus que é dado em Cristo Jesus por meio do Espírito.

14.  A compreensão do Redentor como sendo a compaixão de Deus que se exprime em kenosis matiza a promoção por Afonso das devoções tradicionais de seu tempo. Presépio, Cruz, Eucaristia e Maria são juntamente expressões das profundezas do mistério do Redentor. A Encarnação demonstra o compromisso compassivo de Deus com a humanidade no amor que é dado livremente e incondicionalmente. Na Cruz contemplamos um amor que não conhece limites na doação de si mesmo ou em sua capacidade de perdoar. Na Eucaristia, a humanidade recebe o supremo dom do amor: o Senhor ressuscitado que decide permanecer para sempre entre seus amados como fonte de graça transformadora e como a força para a comunhão. Maria é amada por Afonso enquanto o canal através do qual corre o rio da graça que é querido pelo Pai no Redentor.

15.  Para apreciarmos a sua compreensão da redenção, a perspectiva a partir da qual devemos ler Santo Afonso é a dos “abandonados”, aqueles que são constrangidos pela sociedade ou até mesmo pela Igreja a viver à margem. É este o ponto de vista que matiza as estratégias pastorais de Afonso e também condiciona indelevelmente sua reflexão teológica. Sua visão para a Congregação é tão grande quanto alguém poderia fazê-la, já que seu ponto de referência é toda a missão de Jesus. Por que Deus se fez homem em Jesus Cristo? Na resposta a essa pergunta, Afonso encontra também a raison d’être (razão de ser) do seu Instituto. Descobre no quarto capítulo do Evangelho de Lucas uma espécie de “carta magna da missão” de Jesus, um resumo do sentido e do significado de toda a sua vida. A perspectiva teológica de Afonso aqui é profundamente pastoral e missionária:

Aquele que é chamado à Congregação do Santíssimo Redentor jamais será um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo e jamais se tornará santo, se ele não tender para o objetivo de sua vocação e não tiver o Espírito do Instituto, que consiste em salvar almas, as almas mais destituídas de assistência espiritual, tais como os pobres do interior. Foi esta a verdadeira razão para a vinda do Redentor, que disse de si mesmo: O Espírito do Senhor... ungiu-me para levar a Boa Nova aos pobres. [5]

Afonso estabelece uma clara ligação entre a pessoa de Jesus e a Congregação: ela se encontra na razão para a vinda do Redentor.

A missão dos Redentoristas é levar as pessoas ao ponto crucial da vida cristã: o amor de Deus que é poderosamente revelado em Jesus Cristo. No centro da vida e do ministério da Congregação está o próprio mistério da redenção. Nós Redentoristas nascemos no coração de um ardoroso discípulo de Jesus, que ardia de zelo pela redenção de todos, com especial preferência pelos pobres abandonados.

16.  Por meio de Jesus o amor redentor do Pai atinge cada pessoa individualmente. Na perspectiva de Afonso, o amor de Deus não é anunciado abstratamente, mas por meio de histórias que ilustram o amor pessoal de Deus a cada pessoa e espera de cada qual uma resposta de conversão. A transformação do mundo se realiza por uma mudança pessoal do coração e pela obediência ao plano de Deus como foi revelado em Jesus. Como seres humanos, nós também temos uma necessidade básica de pertença, de sermos parte de um projeto mais amplo que nos conduza para além de nossos pequenos mundos pessoais. O amor redentor de Deus produz uma mudança em nossas relações, unindo-nos como comunidades na Igreja (Const. 12), a qual nos confia a missão de comunicar aos outros o amor que experimentamos no Redentor.

17.  Afonso discerniu como sua a vocação de continuar a obra de Jesus Redentor pregando a Boa Nova aos pobres mais abandonados. Sua missão era viver em permanente solidariedade com eles. Sua experiência pessoal de Deus estava intimamente ligada com essa compreensão. Ele escreveu às comunidades de Scifelli e Frosinone em 1774:

Atendei às almas, mas especialmente aos pobres, aos camponeses e aos mais abandonados. Lembrai-vos de que Deus evangelizare pauperibus misit nos (Deus mandou-nos para evangelizar os pobres) nesses nossos dias. Gravai isto firmemente em vossos corações e buscai somente a Deus entre os pobres abandonados, se quiserdes agradar a Jesus Cristo. [6]

18.  Afonso não se empenhou para levar os abandonados de volta à Igreja. Ao invés, ele levou a Igreja a essas pessoas que ela havia abandonado. Santo Afonso enfatizava repetidas vezes que seu Instituto optou conscientemente por estabelecer suas casas no meio do povo pobre. Suponho que essa opção não foi simplesmente para possibilitar ao povo pobre valer-se de nosso atendimento. Afonso sabia que o estar entre os pobres haveria de modificar seus companheiros, como os cabreiros e pastores o modificaram para sempre.

II.  Penetrar o mistério hoje

19.  Na primeira parte dessa carta, tentei ressaltar alguns elementos que considero significativos numa abordagem redentorista da redenção. Esses pontos podem nos enraizar solidamente na tradição que continua a alimentar nossa vocação missionária. Mas essas raízes hoje devem afundar num novo solo. Poder-se-ia dizer que nos encontramos na conclusão do período histórico que estava assumindo uma forma concreta justamente durante o tempo da vida de Afonso. O final de uma era e o começo de uma outra apresentam problemas novos, novas preocupações, novas questões e oportunidades novas.

20.  Se a nossa reflexão sobre a redenção não deve exaurir-se num mero exercício teórico, é essencial olharmos para o mundo em que vivemos e trabalhamos. Somente se estivermos dispostos a manter essa atitude atenta para a realidade, seremos capazes de discernir as angustiosas interrogações das pessoas e descobrir nelas como Deus está se revelando realmente e tornando conhecido seu plano (cf. Const. 19). Esta mesma Constituição, inspirando-se na audaciosa doutrina do Concílio Vaticano II, incumbe os Redentoristas de revelar a “obra da redenção em sua totalidade”. [7] Para uma grande porção do mundo, redenção é uma categoria sem sentido. Na verdade, a multiforme crise do Cristianismo pode – e provavelmente deve – ser reduzida a um denominador comum de natureza soteriológica, a perda de sua relevância salvífica. O Cristianismo vê diminuído seu potencial para significar a salvação. E a Igreja não é mais a Igreja, se não pode comunicar a salvação. Poder-se-ia inverter o axioma de São Cipriano: extra salutem nullus Christianismus (fora da salvação não há Cristianismo). [8]

21.  Assim, essa reflexão é uma tarefa fundamental – mas nunca fácil – porque o nosso mundo está continuamente mudando. Hoje em dia existe uma percepção de que a mudança cultural é acelerada e profunda, levando alguns a observar que vivemos numa mudança de era, não simplesmente numa era de mudanças. As categorias de pensamento e de interpretação comprovadas pelo tempo são limitadas na sua capacidade de ajudar-nos a entender o que está acontecendo. As pessoas se perguntam se de fato existem pontos fixos de referência ou valores absolutos. Embora o capitalismo conserve um grande poder de atração, a decepção com as atuais instituições, o colapso das ideologias e a falta de esperança no futuro melhor prometido pela modernidade parecem se alastrar. Aumenta a capacidade destrutiva da humanidade, levando muitos a perguntar: “Qual é o sentido de tudo isto? Quem nos salvará de nós mesmos?”

A busca de sentido e a fome de espiritualidade

22.  Em algumas partes do mundo moderno, as pessoas, embora rejeitando a pertença a qualquer denominação, mesmo assim utilizam a linguagem religiosa para expressar uma busca de sentido na vida. Um sociólogo contemporâneo descreve a situação da Europa Ocidental como um “acreditar sem pertencer”. [9] Pode-se perceber um anseio por algo mais na vida, uma busca de sabedoria, um interesse por novas formas de espiritualidade, uma paixão pela justiça, um apreço pela beleza e pelo valor essencial das relações interpessoais. Os confrades que estudam as tendências contemporâneas na literatura, no cinema, na arte e na música vislumbram nessas expressões culturais uma persistente busca de uma experiência de algo parecido com a redenção. Diversas expressões de religiosidade popular manifestam um anseio e uma busca semelhantes.

23.  A fome de redenção se exprime também em mudos clamores e em anseios inconfessados. Podemos ouvi-los no desamparo e na frustração dos marginalizados, dos excluídos e dos assim chamados “novos pobres”. Uma percepção muito difusa da fragmentação da vida moderna, na qual os vários aspectos da vida parecem tão desconexos um do outro, também provocam um real mal-estar e uma tímida esperança de alívio. As pessoas angustiadas, solitárias e sofredoras de todos os tipos têm a vaga sensação de que “está faltando alguma coisa”; de que deve haver um modo melhor de se viver.

24.  O anseio por “algo mais” pode ser anestesiado ou até sufocado. Alguns conseguem viver com um confortável senso de auto-suficiência, sem sentir nenhuma necessidade premente de mudar de algum modo. É de se estranhar por quanto tempo uma existência estéril, isolada e manifestamente centrada em si mesma pode satisfazer o coração humano faminto.

25.  Não obstante seja verdade que muitas pessoas possam sentir fome de alguma espécie de redenção, essa necessidade não leva obrigatoriamente à busca de um Redentor. Com freqüência a resposta é procurada num tipo de auto-redenção, como se comprova pela variedade de programas de auto-ajuda que não estão ligados a um Redentor. Procura-se alívio para as ansiedades da vida moderna também mediante o recurso ao folclore, à magia ou à superstição.

A realidade do pecado e do mal

26.  A experiência do mal é muito forte na história humana. Os nossos confrades na Índia, Sri Lanka, Tailândia, Nova Orleans e, mais recentemente, na Indonésia, podem testemunhar a dramática destruição que resulta de um mal impessoal que pode ser desencadeado pelas forças da natureza e diante do qual a humanidade se curva desamparada. Por outro lado, todos estamos familiarizados demais com a malícia do pecado pessoal, que ameaça nos separar de Deus e dos outros, e portanto tem sérias repercussões em nossas comunidades e na sociedade. Além das escolhas erradas dos indivíduos, também reconhecemos a crueldade que é produzida pelas estruturas sociais que geram injustiça e morte, mesmo quando pessoas bem intencionadas as governam. O luxo de algumas nações exige de um modo muito real o empobrecimento de outras. A guerra é feita com uma nova motivação, quer como um instrumento do terrorismo, quer como um ataque preventivo em nome da paz.

27.  As conseqüências da globalização em todos os níveis (econômico, social, político, cultural e tecnológico) são ambíguas. Por um lado, há a promessa de um novo mundo com oportunidades sem número. Por outro, o preço é uma crescente desigualdade entre as nações, bem como novas categorias de pobreza. As pessoas, as comunidades e nações inteiras são impotentes diante das estruturas globais de injustiça. Eu me lembro do que me dizia um bispo redentorista: que o seu país, entregue a si próprio, tinha pouca esperança. Com seus recursos naturais esgotados pelo colonialismo e pela má administração, o país então não tinha nada para produzir para o novo mercado global e sua própria sobrevivência dependia principalmente de uma solidariedade mais intensa entre as nações.

28.  Durante sua recente visita ao campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, o Papa Bento XVI fez um esforço para falar de modo coerente a respeito do mal perpetrado naquele lugar e o próprio Santo Padre se questionou sobre o “silêncio de Deus.” [10] Uma reflexão profunda sobre o problema do mal e do pecado certamente ultrapassa os objetivos dessa Communicanda. O que quero dizer é que o mistério do mal deve ser enfrentado em nossa reflexão e também em nossa pregação, se quisermos ser fiéis à revelação e credíveis para o povo. Uma análise lúcida de nós mesmos e do mundo, quando aliada a um aprofundamento cheio de gratidão e de fé da revelação de Deus em Jesus nos leva a maravilhar-nos com São Paulo: “Onde o pecado se multiplicou, a graça superabundou!” (Rm 5, 20). Talvez a proclamação mais primordial do Evangelho é anunciar com convicção que Deus está vivo, mesmo num tempo como o nosso.

Sinais e testemunhas do Reino

29.  Este mundo, dividido, fragmentado e ferido, em que milhões de pessoas devem suportar sofrimentos horríveis, é ainda o mundo que Deus ama, o mundo ao qual e para o qual mandou Seu Filho. Dois milênios após a morte e a ressurreição de Jesus podemos perguntar se a missão dele fez uma diferença real. Confrontados com o mistério do pecado e do mal, mas conscientes da iniciativa de Deus, somos chamados à contemplação, num esforço que procura ver como Deus vê para podermos agir como Deus age.

30.  O Instrumentum Laboris para o XXIII Capítulo Geral apresenta uma lista de desafios, chamando-os de sinais da presença do Reino e sinais da ausência do Reino. O documento destaca especificamente os desafios para a evangelização que são postos pelo secularismo, pela pós-modernidade e pela globalização. Resume bem a situação que a Congregação enfrenta em todo o mundo e a necessidade de descobrirmos os meios mais eficazes para nos tornarmos testemunhas da copiosa redenção. [11]

31.  Um olhar contemplativo sobre o nosso mundo nos leva a entrever as forças que lutam contra o Reino de Deus, tais como uma cultura de morte que privilegia o poder, o prazer e o ter, chegando até à desumanização, à escravização e à remoção geral de inteiras sociedades. A proclamação da copiosa redenção é um apelo para vermos esse mundo arruinado a partir de uma perspectiva contemplativa que nos permita descobrir os caminhos do Espírito. Aprendemos a reconhecer a presença dos sinais da redenção que nos possibilita prosseguir com esperança e determinação. Se temos a ousadia de perguntar se a missão de Jesus faz diferença em nosso mundo, então precisamos também ter a coragem de assumir uma atitude contemplativa e permitir que o Espírito prometido por Jesus nos guie à verdade completa (Jo 16, 13).

III.  “Colaboradores, companheiros e ministros
       de Jesus Cristo na grande obra…”

32.  Permitam-me tentar resumir a reflexão feita até aqui. Nossa análise começou com a afirmação de que os Redentoristas têm um modo particular de entender a ação salvífica de Deus em Jesus Cristo. Esta visão se baseia na experiência de Deus que animava a prática pastoral de Afonso de Ligório. Não tentamos falar dos modos tradicionais de a teologia dogmática apresentar a redenção, não porque esse debate seja sem importância, mas porque o Capítulo Geral esperava que a presente Communicanda servisse como um instrumento de discernimento e contribuísse para revitalizar a vida apostólica da Congregação. [12] Para este fim, tentei ancorar a reflexão na experiência de nosso Fundador, que deu energia e urgência à sua pregação, a seus escritos e até mesmo à decisão de fundar a Congregação. Afonso entendeu o Redentor como a revelação da ilimitada compaixão de Deus para com a humanidade. Este amor compassivo leva Deus à kenosis, ao esvaziamento que ele faz de si mesmo para a vida do mundo, com uma especial referência aos pobres. A lógica de Afonso é a mesma lógica da Carta aos Filipenses: Deus não poupa esforço algum para ganhar nossos corações (Fl 2, 5-11).

Levamos a intuição espiritual de Afonso para a nossa missão de proclamar a copiosa redenção ao mundo de hoje. Essa missão requer de nós um olhar contemplativo ao tentarmos entrever as forças que combatem contra o Reino de Deus e discernir os sinais da redenção que nos permitem continuar com esperança e determinação a nossa missão, que inclui a luta contra tudo o que possa escravizar homens e mulheres.

Como Afonso, somos chamados à conversão, que nos permite participar do dinamismo da compaixão e da kenosis de Deus. “Dar a vida pela copiosa redenção” é entrar de modo íntimo e permanente na missão de Jesus Cristo, que é a “grande obra da redenção” a fim de pregarmos aos pobres a Palavra da salvação (cf. Const. 2). Nesta seção final da Communicanda, gostaria de indicar algumas conseqüências para a Congregação hoje.

Centralidade de Jesus Cristo:
com ele há copiosa redenção

33.  Para darmos testemunho da copiosa redenção dentro da inspiração carismática de Afonso de Ligório, não temos outra escolha senão fortalecer nossa vida com o Redentor. Já que o nosso Fundador uniu fundamentalmente nossa própria raison d’être com a missão de Jesus Cristo, a missão de Jesus é o modelo segundo o qual julgamos a nossa. Devemos estar convencidos de que crer em Jesus Cristo é esperar como ele esperou; que seguir a Jesus Cristo é continuar e prolongar na história a sua missão e amar como ele amou a ponto de dar nossas vidas; que segui-lo é permitir que sejamos cativados por ele e pela causa de sua vida. [13] Afonso nos convida a redescobrir o Deus de Jesus Cristo, um Deus que está apaixonadamente enamorado da humanidade; um Deus que ouve os clamores dos pobres e que não fica indiferente perante a injustiça. Deus revelou-se a si mesmo como Boa Nova para os empobrecidos, dignando-se cumular da plenitude de Deus os seres humanos (Ef 3, 19) por causa do auto-esvaziamento solidário de Cristo (Fl 2, 5-11).

34.  Assim, a proclamação da copiosa redenção na tradição redentorista não é primeiramente nem principalmente a apresentação de fórmulas de fé ou de códigos de moral; é um convite a uma relação pessoal com um Deus apaixonado, um Deus de amor que em troca deve ser amado. Para Afonso é muito o que está em jogo. Uma de suas orações lamenta que o mundo está “cheio de pregadores que pregam a si mesmos [e não Jesus Cristo], ao passo que o inferno está cheio de almas.” [14] Todavia, com uma insistência que questiona a nossa antiga reputação de pregadores do “fogo e enxofre”, Afonso sustenta que as conversões baseadas no medo do castigo divino não são duradouras. Por isso, durante as missões o principal dever de cada pregador é acender em seus ouvintes o fogo do amor divino. [15] Embora não usemos mais a linguagem do enxofre para conquistar a atenção de nossos ouvintes, poderíamos porém nos perguntar se a nossa pregação tem se tornado insípida ou superficial quanto ao conteúdo. Usamos toda a criatividade e paixão à nossa disposição a fim de pregar Jesus Cristo Redentor numa linguagem que o povo, especialmente os pobres abandonados, é capaz de entender hoje?

35.  A missão da Congregação não é uma coisa que nós nos demos a nós mesmos. Nem pode ter uma explicação ou justificação interna, sociológica, psicológica ou antropológica, pois suas origens se encontram fora dela mesma. Deus é a própria origem e fonte da missão e da sua força. Este é o seu mistério mais íntimo, do qual a Congregação haure sua vida, força e visão. Logo que a missão começa a justificar sua raison d’être diferentemente, i.e., socio-politicamente ou culturalmente, perde sua autenticidade. Se a nossa missão perde seu centro em Jesus Cristo, sua luz se extinguirá e ela se tornará insípida; será como o sal que não serve para nada e tem de ser jogado fora.

36.  Creio que reconhecer a missão da Congregação no mistério de Jesus Cristo traz importantes conseqüências para nós. Essa identificação deve provocar uma real admiração e respeito pela nossa vocação de colaboradores, companheiros e ministros de Jesus Cristo na grande obra da redenção” (Const. 2), porque participamos de um impulso que encontra sua origem no mistério da Santíssima Trindade. O planejamento pastoral, que deve dar atenção a metas, objetivos, planos de ação e avaliação, deve também ser fruto de oração contemplativa, de meditação e lectio divina, pois aí estamos lidando com coisas sagradas, e não simplesmente utilizando princípios de gerenciamento.

37.  Ao procurarmos tornar mais evidente através do dom de nossas vidas o impulso divino para a humanidade inteira, jamais podemos cessar de buscar e questionar. Não há espaço para a auto-satisfação ou para a complacência burguesa em nossa vocação. Lembram-se da história que Afonso conta a respeito de um eremita que certo dia encontrou um príncipe na floresta? O príncipe lhe perguntou o que ele estava fazendo lá. O eremita respondeu com uma pergunta: “Senhor, o que estais fazendo neste lugar solitário?” Quando o príncipe lhe respondeu que estava caçando animais selvagens, o eremita replicou: “E eu estou caçando Deus,” e prosseguiu seu caminho. [16] Se é verdade que muitos de nossos contemporâneos estão em busca do divino ou, pelo menos, de algum sentido último em suas vidas, imaginem o vigoroso testemunho de nosso trabalho pastoral e da nossa vida comunitária como lugares onde as pessoas estão caçando Deus!

A conversão para a compaixão
que se manifesta em kenosis

38.  O bispo Dom Pedro Casaldáliga nos convida a pensar também com nossos pés. Quer dizer, eventualmente a nossa reflexão deve traduzir-se em ação que seja coerente com os nossos valores mais profundos. Se queremos compreender como Afonso entende o Redentor e sua obra salvífica, devemos sempre incluir os pobres, especialmente os pobres abandonados. Como vimos, nosso Fundador identifica sua Congregação com a missão de Jesus, que vem para anunciar a Boa Nova aos pobres. A Constituição 5 reapresenta essa relação, notando que “a evangelização propriamente dita e a opção em favor dos pobres constituem a própria raison d’être da Congregação na Igreja, e o distintivo de sua fidelidade à vocação recebida”.

39.  Afonso não teve uma intuição simplesmente teórica da ligação especial entre o Redentor e os abandonados. Seu primeiro biógrafo exprime em termos dramáticos como o nosso Fundador “pensou com seus pés” – mesmo se de fato estava montado num jumento! Numa descrição comovente de seu êxodo de Nápoles em 1732, ele descreve Afonso fazendo a Jesus o sacrifício total daquela cidade e da sua glória, a fim de viver e morrer no interior, rodeado de camponeses e pastores analfabetos. [17] Comentando o fato, Théodule Rey-Mermet escreve que o começo de nossa Congregação foi primeiramente e principalmente a morte e o renascimento de um homem: “o eminente cavaleiro napolitano já não existe, quem nasce é um pobre entre os pobres”. [18] A linguagem pascal para interpretar o êxodo de Afonso é instrutiva, especialmente quando recordamos o encontro que provocou a decisão de Afonso, como no começo do verão de 1730 a vista dos pobres abandonados nas alturas acima de Scala o mudou para sempre. Movido de compaixão, Afonso assumiu a mesma “mente” que Cristo Jesus e “esvaziou-se a si mesmo” (cf. Fl 2, 5b). Reconheceu sua própria vocação na compaixão e na kenosis do Filho de Deus. A história de Jesus tornou-se a história de Afonso.

40.  Desde 1732, milhares de Redentoristas têm entrado nessa dinâmica, permitindo que a história de Jesus se torne igualmente a sua. Confrades como o Beato Nicholas Mykolay Charnetskyi e o Beato Dominick Methodius Trčka viveram a kenosis no seu sentido último, “aceitando até mesmo a morte” por amor à missão. Embora menos dramáticas, não menos preciosas são as inúmeras histórias de amor desinteressado que têm marcado a história de nossa Congregação: missionários que, através de sua profissão religiosa, não pouparam esforço algum para chegarem à total doação de si (Const. 56).

41.  Creio que hoje a Congregação é chamada a exprimir a inspiração carismática de Afonso num dinâmico processo de solidariedade. Solidariedade é compaixão, pois ela nos compromete com a luta histórica dos pobres e fracos deste mundo e nos associa aos que estão abandonados e sem esperança. A solidariedade nos chama a dar “atenção especial aos pobres, aos mais fracos e oprimidos”, já que “a evangelização deles é sinal da obra messiânica” (Const. 4). Jesus não apenas escolheu identificar-se de modo especial com os marginalizados (Mt 25, 40) mas, em sua encarnação e no seu mistério pascal, Deus expressa solidariedade radical e irrevogável com os seres humanos.

42.  A solidariedade evangélica, que faz a Congregação comprometer-se com os pobres, os carentes e os oprimidos, encontra expressão concreta em nossa comunidade. Os últimos Capítulos Gerais enfatizaram que a comunidade redentorista é em si mesma uma proclamação da Boa Nova. Ela é a tenda que Deus arma entre os pobres abandonados a fim de comunicar sua compaixão. Mas nossa vida comum também exige kenosis. Pois “a comunidade não é somente a convivência material dos confrades, mas, ao mesmo tempo, comunhão de espírito e de fraternidade” (Const. 21).

43.  O convite do último Capítulo Geral para refletirmos sobre a reestruturação da Congregação é um apelo à conversão à copiosa redenção. [19] Não é difícil ver a reestruturação como uma espécie de auto-esvaziamento. A reflexão sobre essa questão é uma recusa de apegar-nos obstinadamente à glória do passado ou aceitar resignadamente as limitações do presente. Ao invés, estamos procurando novas formas de solidariedade, a fim de expressar a compaixão de Deus pelos pobres abandonados. Essa caminhada parece precária e requer o tipo de fé e de coragem que moveram Afonso a deixar para trás Nápoles e partir rumo a um futuro desconhecido, armado apenas da confiança de que Deus o estava guiando.

44.  Vamos continuar esta caminhada na esperança, uma esperança que não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5, 5). Muitos esperam de nós um sinal de esperança, como o Papa João Paulo II recordou aos Capitulares do XXIII Capítulo Geral: “Se anunciardes com alegria e coerência de vida a copiosa redenção, suscitareis ou fortalecereis a esperança evangélica no coração de muitas pessoas, especialmente entre aquelas que têm maior necessidade, porque marcadas pelo pecado e pelas suas nefastas conseqüências”. [20]

45.  Não podemos perder de vista o fato de que somos peregrinos que partilham uma promessa e um sonho. A solidariedade, que Deus estabeleceu no Redentor, já está agindo numa espécie de luta escatológica, e assim a nossa visão não é cerceada pelos limites do tempo presente, e nós rejeitamos o cinismo bem como a veleidade. Deus está fazendo novas todas as coisas e somos convocados para trabalharmos juntos enquanto mantemos nossos olhos fixos num novo céu e numa nova terra que é prometida através de Cristo.

Companheiros em nossa caminhada

46.  Maria, a Mãe do Redentor e nossa Mãe do Perpétuo Socorro, caminha conosco e fortalece nossa esperança. Ela é um modelo de compaixão e de amor desinteressado. Tomou parte na ansiosa oração dos apóstolos no nascimento da Igreja. Penso que devemos confiar na presença dela hoje no coração de nossa Congregação, quando procuramos entender e anunciar a palavra redentora de seu Filho.

47.  Que o exemplo de São Paulo e dos apóstolos e a dedicação de Afonso e de todos os nossos santos e beatos redentoristas inflamem o nosso zelo. Rezamos para que a fidelidade extraordinária dos confrades que nos precederam fortaleça nossa coragem ao lutarmos também para darmos a vida pela copiosa