Communicanda 1 - 2003-2009

  

 


Chamados a Dar a Vida
Pela Copiosa Redenção

 

Communicanda 1
Prot. N° 0000 110/04
Roma, 8 de abril de 2004
Quinta-feira, In coena Domini

 

Introdução

1.            Caríssimos Confrades,

a Vós todos, chamados junto conosco a dar a vida pela copiosa redenção, a nossa mais cordial saudação.

2.            Mais de cinco meses são passados desde o encerramento do XXIII Capítulo Geral. Com esta Communicanda queremos tratar dois pontos importantes, que o Capítulo definiu, confiando sua execução ao Conselho Geral e às outras estruturas de governo da Congregação, isto é, o tema para o sexênio, e em segundo lugar o processo de reestruturação da Congregação. É nossa intenção que aos outros temas importantes solicitados pelo Capítulo, como p. ex. a redenção [1] , sejam dedicadas no decurso do sexênio outras Communicanda.

3.            Como recordou a carta enviada à Congregação no dia 2 de fevereiro p.p., “o tema Dar a vida pela copiosa redenção é um chamado à conversão, um apelo a cada um de nós para mudar de mentalidade a respeito de Deus e de nossas vidas; ao mesmo tempo, para considerar como as estruturas da nossa Congregação precisam ser transformadas para se tornarem mais fiéis, criativas e audaciosas no desempenho da missão a nós confiada.” [2]

4.      A muitos pode parecer forçada e talvez arbitrária a relação entre “dar a vida” e a transformação das estruturas [3] . Em comum, entre a primeira e a segunda parte do texto acima citado, há somente a urgência de mudar as nossas idéias sobre Deus e sobre a nossa vida de uma parte, e as estruturas de outra. Por sua vez, o Capítulo Geral não falou muito para comprovar essa ligação, que no entanto a nosso ver tem dois motivos sobre os quais fundamentar-se:

·   De um lado encontramos a caminhada feita pela Congregação no pós-Concílio, que ultimamente levou os Redentoristas a se perguntar honestamente qual o lugar que dão a Cristo na sua vida. O apelo a dar a vida quer levar o tema da espiritualidade a ulteriores conseqüências, colocando em discussão a totalidade da nossa dedicação à missão e por conseguinte também as estruturas nas quais e pelas quais a realizamos;

·   De outro lado, somos conscientes da extrema rapidez com que o mundo evolui, e do fato que as nossas estruturas acompanham com dificuldade essa mudança. Se as estruturas que a Congregação criou para si serviram à realização da sua missão em precedentes fases da nossa história, hoje, perante um mundo em mudança, devemos verificar até que ponto têm razão de existir. “Dar a vida pela redenção” não pode limitar-se a um ato de espiritualidade intimista, mas deve levar em conta os desafios que o mundo de hoje nos apresenta.

5.      À luz desses motivos, queremos fazer duas ulteriores aclarações:

·   ligando o “dar a vida” com a mudança de estruturas, não estamos partindo do zero. Os últimos Capítulos Gerais já trataram alguns dos temas espirituais abordados nesta Communicanda, e se interrogaram sobre a validade das nossas estruturas. Consideramos tudo isto como parte da nossa memória histórica e como ulterior impulso a mudar, justamente para dar um ponto de chegada ao itinerário percorrido até aqui;

·    o objetivo desta Communicanda é sobretudo animar, estimulando uma reflexão. Por exemplo, os temas da espiritualidade e da missão delineados na primeira e na segunda parte não são tratados com preocupação dogmática nem aprofundados de modo exaustivo; pretendem apenas preparar a sucessiva reflexão sobre as estruturas, e a partir desta promover na Congregação um gradual processo de transformação. Para este fim, a terceira parte encontra neste texto uma explanação maior, e deve ser considerada como a contribuição específica que esta Communicanda deseja oferecer à missão redentorista hoje.

I.  Dar a Vida Hoje

Um tema corajoso

6.      Certamente o que o Capítulo Geral confiou a todos nós para os próximos seis anos não é um tema fácil. Dar a vida pela copiosa redenção é um programa ambicioso e na contra-mão, não de acordo com uma tendência hoje geralmente difusa, que olha com suspeita quem se dá totalmente e sem reserva.

7.            Enquanto hoje vem a ser tão difícil comprometer-se o tempo todo e definitivamente, em qualquer vocação, o Capítulo nos estimula a dar a vida, e isto não pode ser feito senão “para sempre”. Quando muitos vêem no uso desregrado da liberdade pessoal um critério para se dizer que uma vida é bem sucedida, o Capítulo nos convida a fazer das nossas existências um dom. Numa época em que a salvação corre o risco de passar de locus theologicus a tema de economia e política, o Capítulo repropõe a copiosa redenção como algo pelo qual vale a pena gastar nossos dias.

8.      Se – como dissemos acima – “dar a vida” chama em causa as próprias estruturas com que realizamos a nossa missão, também nesse caso a escolha do Capítulo se nos mostra como uma corajosa resposta aos desafios do nosso tempo. Sempre mais tomamos consciência de que o nosso mundo é um mundo globalizado, no qual os problemas de uma região repercutem imediatamente nas outras, e onde uma cultura pode assumir a hegemonia em relação às outras (basta pensar no uso da internet). Este mundo, no qual a comunicação e a rapidez dos deslocamentos estão na base de uma nova antropologia, onde as migrações de massa e de etnias deixam entrever cenários novos de coabitação e de confronto cultural, é para o Capítulo um desafio a repensar as nossas estruturas e a referi-las aos novos desafios da missão. Num tempo em que a queda das ideologias deixa aos pobres cada vez menos esperança de um futuro melhor e cria uma distância sempre mais nítida entre eles e os ricos, numa época em que a exploração da mão-de-obra dos países pobres para vantagem das multinacionais das nações mais ricas atinge dimensões escandalosas, o Capítulo nos impele a tomar posição, e a dar a vida, não só uma parte de nós, aos mais abandonados.

Que missão justifica estruturas novas?

9.      No seio de um mundo que muda tão rapidamente, a muitos de nós deve ter ocorrido perguntar-se se a missão redentorista tem ainda um sentido que a justifique profundamente, a serviço da verdadeira redenção do homem, e sobretudo se ela tem perspectivas de futuro. Às vezes nos assalta a dúvida, se a intuição espiritual, missionária e teológico-moral de Santo Afonso, com toda a tradição que dela se originou, tem ainda direito de cidadania neste mundo. Bem sabemos que da resposta a essas perguntas depende tudo: da pastoral vocacional à formação que damos aos nossos jovens, da pregação missionária aos projetos de promoção social e ao nosso compromisso pela justiça e a paz, e até a assistência que proporcionamos aos nossos idosos. Só uma resposta convincente e positiva a essas perguntas pode justificar uma ulterior mudança das nossas estruturas, com o penoso trabalho que isto comporta.

10.    Pode ser que muitos esperam da nossa parte uma resposta exaustiva, o que não constitui o objetivo principal desta Communicanda. Outros talvez gostariam de encontrar aqui uma declaração cegamente otimista. Somos bem conscientes de estarmos todos vivendo ainda uma fase de busca, de êxodo árduo e muitas vezes árido, no qual custa a delinear-se um futuro crível para a nossa missão, se não para a vida religiosa mais em geral e para a própria Igreja. Todavia, não podemos deixar de relembrar nestas páginas, ainda que brevemente, alguns traços de uma investigação que precisa ser continuada, seja por parte dos nossos teólogos, seja pelos confrades empenhados mais diretamente na pastoral. Na realidade, mais que traços, nos parece entrever sulcos nos quais esses traços deveriam ser recalcados. São os espaços vazios criados pelas contradições do mundo, que são afinal as mesmas contradições nossas; são dicotomias que de qualquer forma elevam ao céu um grito de socorro que exige uma resposta.

11.    Pensamos, por exemplo, no espaço sempre maior que os direitos do individuo vão conquistando hoje: é possível imaginar – e até quando – um mundo semelhante? E em que medida esses direitos individuais correm o risco de solapar progressivamente o terreno próprio da solidariedade, o único que pode dar esperança de um futuro?

Se – sobretudo nos países mais ricos – são o consumo e o prazer a ditar a única razão de viver, vem a pergunta: tem ainda lugar a piedade no coração do homem do nosso tempo?

Pensamos também no campo moral, onde hoje o senso de culpa tornou-se quase nulo devido a um mal entendido direito à liberdade pessoal: todavia, quando está em jogo o bem comum, emerge prepotente uma necessidade de ética, de retidão política e transparência nos interesses. Como conciliar liberdade individual e salvaguarda do bem comum? E diante do pecado consumado e denunciado, em que medida a pessoa é capaz de misericórdia, que confiança se mostra no pecador e na sua regeneração? E se se concede perdão e possibilidade de recuperação, isto não é considerado um atalho para a impunidade?

12.    Olhando agora a complexidade do mundo de hoje e o fato de que doravante se deve conviver com o constante medo do terrorismo: como conjugar a premente necessidade de paz, de um lado, com o direito à justiça, do outro?

Se passamos ao campo da comunicação, também aqui há um proliferar de contradições: na medida em que se multiplicam os meios de comunicação social, não é muitas vezes a partilha profunda que falta, dando lugar – em muitos casos – a uma comunicação pobre e fria? Ademais, quantas existências solitárias e problemáticas se escondem por detrás dos que usam uma sala de bate-papo (chat), uma rede, um celular? Para além deste culto da comunicação, não vislumbramos a necessidade de um amor maior, capaz de dar sentido a tudo o que existe? E tudo isto não nos chama a anunciar de modo novo o Deus-Amor, para além dos medos com os quais muitos pensam nele e das falsas imagens que com freqüência lhe são atribuídas?

Cristo Redentor, única resposta às muitas perguntas

13.    Sabemos que simplesmente colocamos perguntas, porque também entendemos que uma resposta se encontra somente numa pessoa, Cristo. Sabemos ainda que com demasiada freqüência não conseguimos decifrar nem as perguntas nem a resposta: as primeiras pela rapidez da mudança em andamento, a segunda talvez pela nossa falta de fé. Mas ao mesmo tempo estamos cônscios de que somente Cristo “revela plenamente o homem ao homem e o faz conhecer sua altíssima vocação”. [4]

14.    Para a nossa missão de hoje e de amanhã, sempre Ele, o Cristo, não cessa de ser o rasto sobre o qual caminhar, ou melhor, o Caminho obrigatório quanto necessário: deixá-lo de lado, dar-lhe menos que a nossa vida para o serviço da redenção seria cometer uma traição ao próprio homem de hoje. Disto, com efeito, devemos tomar consciência: o que está exposto a séria ameaça é a própria vocação do homem, o seu código genético, a imagem e semelhança para a qual ele foi pensado. E diante desta ameaça, a nossa missão encontra a sua razão de ser hoje e as suas perspectivas para o amanhã. Justamente diante dos cenários de hoje, encontramos uma urgência mais forte para a nossa missão, e com ela o direito de convidar jovens e leigos a compartilhar da nossa própria vocação.

II.  DEIXAR-SE SEDUZIR PELO AMOR DE DEUS EM CRISTO

Valorizar a nossa caminhada mais recente

15.    Os últimos decênios têm sido para toda a Congregação uma ocasião de rever e aprofundar o próprio carisma. Muito se tem falado sobre os fundamentos bíblicos e a riqueza teológica da copiosa redemptio. Textos mais ou menos volumosos, artigos de revistas de história e de teologia, teses de doutorado e de licenciatura têm sido dedicados ao específico da nossa missão.

16.    Consideramos toda essa caminhada como fundamento da nossa identidade. Não pretendemos retomar tudo aqui, e menos ainda colocá-lo em discussão, levando em conta também algumas divergências de leitura que ainda restam entre os nossos especialistas. Talvez de todo esse trabalho será necessário, mais cedo ou mais tarde, fazer um balanço ou uma síntese, mas também sobre esse intento não queremos nos deter aqui mais do que o necessário.

17.    Mas precisamente as últimas etapas da nossa caminhada impõem à nossa atenção um tema que não podemos ignorar, e que a nosso ver – como já recordamos no início desta Communicanda – deve inspirar a própria re-estruturação na Congregação. Já o Capítulo Geral de 1997 nos havia convocado a verificar “o modo como alimentamos e exprimimos a nossa relação com Jesus Cristo”. [5] Por seu turno, a carta enviada à Congregação no início deste sexênio sublinhava a nossa “necessidade de nos deixar seduzir sempre de novo pela total generosidade do amor salvífico de Deus que nos é concedido em Jesus Cristo Redentor”. [6]

18.    Com outras palavras, se “Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8), o que muda é a nossa relação com ele, as “idéias” que nos fazemos de Deus e conseqüentemente da nossa própria vida [7] , e cuja revisão está na base de toda transformação, talvez também das nossas próprias estruturas.

A pergunta que, portanto, se torna crucial é: em que ponto está a nossa busca do rosto de Cristo? Que idéias nos fazemos dele? Por acaso deixamos de tentar compreendê-lo? Convivemos com ele como com um ilustre desconhecido, ou – na melhor das hipóteses – conforme imagens construídas por outros?

Nosso itinerário para a descoberta do rosto de Cristo

19.    Também Afonso de Ligório precisou rever mais de uma vez suas idéias sobre Cristo e, em conseqüência, mudar sua relação com ele. Sua formação quando jovem o fez adaptar-se às idéias religiosas próprias da sua época: um Deus juiz severo de um lado, e do outro, um Cristo mais próximo ao homem que ao Pai. Era Cristo que reconciliava a humanidade com Deus e acalmava a sua indignação, graças ao seu sofrimento expiatório, o mesmo Cristo dilacerado que vemos no quadro pintado por Afonso em 1719.

A partir de 1723, ano que marca a sua “conversão”, Afonso começa a sentir a sua vida como um chamado ao amor, e portanto como apelo ao dom de si. Começa a descobrir a importância do coração na sua relação com Cristo, e depois – sobretudo em decorrência das primeiras experiências pastorais e missionárias – o papel da esperança e da alegria. Quando, mais tarde, decide fundar o nosso Instituto, depois de mil consultas e entre dilacerantes dúvidas, uma só coisa lhe ficou clara: ele deve “fazer da cidade de Nápoles um sacrifício total a Jesus Cristo”. [8] Mas o seu itinerário espiritual não termina nas montanhas de Scala: as missões, depois o ensino da teologia moral a seus estudantes, a elaboração de obras como as Visitas ao Santíssimo Sacramento (1745) e posteriormente da Prática do Amor a Jesus Cristo (1768) o levarão ainda a uma síntese cristológica madura e biblicamente fundamentada. Uma síntese que pode ser assim definida: o amor do Pai encontra sua expressão máxima no dom de seu Filho, que por sua vez é o retrato fiel do Deus-Amor. E são os mistérios da Encarnação, do nascimento, da paixão e morte, e da Eucaristia as passagens obrigatórias para se entender a infinita ternura de Deus, sem omitir totalmente outros traços do rosto de Cristo caros à teologia do tempo, como o da vítima sacrifical.

20.    Tudo isso pode parecer-nos pacífico e conquistado no plano teológico, e em todo caso faz parte do conhecimento que temos do nosso Fundador. O que nos é difícil imaginar é o percurso histórico, existencial e espiritual que Afonso realizou no decurso de sua longa vida. Diante do Cristo que ele vai descobrindo de um modo sempre novo, ele não se coloca na atitude do teólogo especulativo. Seu objetivo é antes de tudo pastoral. Ele escuta, lê, recolhe textos, reflete e sobretudo reza o que vai descobrindo: mas tudo tende a levar este Cristo que vai descobrindo àqueles que dele mais precisam, ou seja, os abandonados, os excluídos dos círculos teológicos, dos salões dos letrados, da pastoral ordinária oferecida pela Igreja, da pregação erudita. E antes de tudo partilha este mesmo Cristo com a sua comunidade redentorista, porque é a comunidade o primeiro sinal da copiosa redenção, é a comunidade o lugar ao qual os pobres podem livremente acorrer para desfrutar dessa descoberta.

21.    Portanto, não é por acaso que o Capítulo Geral quis antes de tudo que a Congregação vivesse o tema Dar a vida pela copiosa redenção em continuidade com o tema da espiritualidade, do sexênio anterior. [9] E não é por acaso que – além da reestruturação – fosse a profissão religiosa e o nosso modo de vivê-la hoje [10] a outra grande preocupação do Capítulo. Alguém poderia mencionar ainda a solidariedade, mas segundo a nossa opinião – amadurecida também lendo os próprios documentos do Capítulo Geral – a solidariedade representa uma das dimensões e das razões que deveriam guiar a Congregação à reestruturação, mais do que uma preocupação que seja fim em si mesma.

Quanto à profissão religiosa, se trata de um outro tema ao qual queremos retornar durante o sexênio, graças também à colaboração do Centro de Espiritualidade Redentorista. O que, porém, desejamos desenvolver aqui é o tema da reestruturação, um processo do qual cada congregado precisa compartilhar, fazendo-o brotar de uma relação sua sempre renovada com o Cristo, de um seu interrogar constante: como dar hoje a vida pela copiosa redenção?

III.  A REESTRUTURAÇÃO A SERVIÇO DA MISSÃO

Chamados à conversão

22.        Somos chamados à conversão. Somos chamados a reexaminar o caminho percorrido até aqui, a rediscutir a nossa resposta às exigências atuais da missão redentorista, a rever o nosso estilo de vida, a nossa mentalidade e o nosso modo de nos organizar. Somos convidados a responder com fidelidade criativa aos desafios da missão no mundo de hoje. Somos chamados a sermos fiéis ao carisma da Congregação e ao espírito do Fundador. Somos convidados a aprofundar a busca de novas maneiras de responder às exigências do anúncio do Evangelho, do anúncio da “copiosa redemptio” que encontramos em Jesus Cristo, não apenas com uma abordagem nova, ou com uma linguagem nova, mas com um testemunho de vida renovada.

23.        A partir do Concílio Vaticano II a nossa Congregação, e com ela toda a vida religiosa, entrou nesse processo. Fizemos a revisão de nossas Constituições e Estatutos; esforçamo-nos por estabelecer as prioridades e procuramos, com a graça de Deus, encontrar o caminho da coerência entre a nossa profissão de fé e a nossa vida, entre a profissão religiosa e a vida comunitária dedicada à caridade apostólica. Procuramos responder com caridade apostólica às exigências da nossa vocação comunitária.

Um impulso que vem de longe

24.        Já o decreto Perfectae Caritatis (1965) dizia com muita clareza: “A renovação adequada da vida religiosa comporta ao mesmo tempo a contínua volta às fontes de toda vida cristã e à inspiração primordial dos Institutos, e a adaptação dos Institutos às mudadas condições dos tempos”. [11] Mas com igual clareza advertia: “as melhores adaptações às exigências atuais só terão êxito se forem animadas de uma renovação espiritual, à qual se deve dar sempre o primeiro lugar, também no desenvolvimento das obras externas”. [12] Salientava que “uma eficaz renovação e uma adaptação somente podem ser alcançadas com a colaboração de todos os membros do Instituto” [13] e que “o modo de viver, de rezar e de agir seja convenientemente adaptado às hodiernas condições físicas e psíquicas dos membros, como também, na medida em que o exige o caráter de cada Instituto, às necessidades do apostolado, às exigências da cultura, às situações sociais e econômicas, e isto em toda parte, mas especialmente nos lugares de missão. Também o modo de governo dos Institutos seja submetido a exame segundo os mesmos critérios”. [14]

25.        Nos decênios sucessivos ao Concílio, as circunstâncias, a cultura, a mentalidade e a consciência dos seres humanos mudaram muito e ainda continuam mudando. Estão num processo de mudança permanente. Tudo isto nos obriga a não nos determos nos passos já dados. O seguimento de Jesus Cristo e a fidelidade ao carisma da Congregação requerem de nós hoje um novo exame do nosso estilo de vida, das respostas missionárias que estamos dando e do modo como nos organizamos. As estruturas que tivemos desde o início e as que temos hoje são simples meios, que nos ajudam a realizar melhor as finalidades da missão.

O caminho proposto pelos últimos Capítulos Gerais

26.        Já a partir de 1979 os Capítulos Gerais nos têm chamado com insistência à conversão, ligando sempre mais temas de natureza espiritual e a necessidade de coerência com a avaliação das estruturas com as quais realizamos a nossa missão. Pode-se dizer que esses Capítulos representaram para a Congregação uma busca sempre nova de identidade, e um modo de pôr em prática algo que já encontramos prescrito nas nossas Constituições, isto é, que “não podemos deixar-nos prender por condições e estruturas nas quais nossa atuação já não seria missionária”. [15]

27.        Se quisermos enfocar apenas o decênio passado, bata-nos recordar o Capítulo Geral de 1991, que pedia ao Governo Geral que começasse um processo de reestruturação, visando sobretudo a: a)ajudar as Unidades que quanto ao pessoal são inferiores ao que é requerido pelo Estatuto Geral 088, como também aos grupos de Unidades que dão sérios sinais de declínio quanto ao pessoal; b)facilitar iniciativas pastorais renovadas que uma só Unidade não consegue facilmente promover”. [16]

28.        O XXII Capítulo Geral (1997) afirmava: “Confirmamos o nosso compromisso de Congregação em continuidade com os temas dos recentes Capítulos Gerais. Trata-se de um processo que está se realizando gradualmente entre os Redentoristas. […] Entendemos que a implementação deste tema exige de nós um olhar contemplativo sobre a vida, que nos ajude a ler os sinais dos tempos. Não é fácil alcançá-lo, e ele requer uma conversão, que é dom do Espírito. Pedimos, por isso, que os Redentoristas centrem a sua atenção na espiritualidade como num fundamento, de modo que a Nova Evangelização seja edificada sobre uma rocha e não sobre a areia”. [17] Para explicar o sentido desta opção, o documento final recomendava: “A Congregação assuma a espiritualidade como tema para o próximo sexênio. […] Os Congregados, atentos à indigência espiritual de tantas pessoas na nossa sociedade, procurem meios novos e criativos para compartilhar com os outros sua própria herança espiritual”. [18] Também este Capítulo pedia com insistência ao Governo Geral que continuasse o processo de reestruturação iniciado em 1991. [19]

29.        O XXIII Capítulo Geral (2003) assumiu como tema do sexênio Dar a vida pela copiosa redenção. [20] A mensagem final diz: “Vemos este tema em continuidade com o tema da espiritualidade assumido pelo último Capítulo Geral […]. Cremos que não há espiritualidade redentorista que não seja missionária e que não há uma missão redentorista que não seja enraizada nas ‘profundezas de Deus’”. [21] E insiste: “Gostaríamos de chamar vossa atenção para algumas conseqüências e desafios que comporta o Dar a vida pela copiosa redenção”. [22] Confirma-se também a necessidade de submeter a exame o nosso estilo de vida, a nossa vida comunitária, o testemunho que damos e de rever as nossas estruturas, verificando como elas servem à nossa missão: “À medida que o Capítulo caminhava, tornou-se claro para todos que a Congregação deve enfrentar o desafio da reestruturação para o bem da nossa missão. A solidariedade pode suscitar muitas estruturas novas e criativas em todos os níveis da vida da nossa Congregação, especialmente no campo da formação e das iniciativas pastorais. Pe. Geral apresentou-nos o desafio de pensarmos na linha de novas comunidades internacionais e de novas formas de governo regional. O Dar a vida pela copiosa redenção vai colocar para todos nós exigências inesperadas”. [23]

A necessidade de rever nossas estruturas atuais

30.        Historicamente, as estruturas da Congregação foram criadas para responder a uma determinada expressão concreta da missão redentorista. Pela sua natureza, à diferença das estruturas monásticas, as nossas são dinâmicas, nascem para mudar e para entrar periodicamente em discussão. Hoje todos nós constatamos que as exigências da missão são totalmente novas e, portanto, nos perguntamos se as estruturas atuais correspondem à missão de hoje. Foi essa a pergunta colocada durante o último Capítulo Geral, que identificou vários desafios novos e quis dar a eles uma resposta. Na decisão referente à reestruturação, o Capítulo disse: “As estruturas administrativas da Congregação não são um fim em si mesmas, porém estão a serviço da missão. Hoje em dia existe entre os Redentoristas um consenso quanto ao fato de que as estruturas da Congregação impedem às vezes uma resposta criativa e eficaz às necessidades pastorais do tempo presente”. [24] O Capítulo, portanto, dá ao Conselho Geral “o mandato de continuar a reestruturar a Congregação”. [25] Agora estamos na fase de reflexão, de análise, de abertura, e de busca em vista das decisões a tomar.

O que entendemos por “reestruturação”?

31.        Não é nossa pretensão defini-la de modo exaustivo. Aqui propomos apenas uma descrição, ou uma nossa visão a respeito. Pensamos que a reflexão sobre a reestruturação e o empenho pela sua implementação sejam tarefa de todos os Redentoristas. Vemos a reestruturação como um processo, uma dinâmica de transformação pessoal e comunitária, que examina a realidade atual, pondera as estruturas que temos, e se dispõe a mudá-las se necessário para que sejamos fiéis ao carisma, ao serviço da missão. Consiste fundamentalmente em encontrar novas maneiras de nos organizar, estabelecendo novas estruturas, quando necessárias, para poder responder com maior fidelidade ao carisma da Congregação. Requer uma nova sensibilidade diante dos desafios atuais. Postula uma nova mentalidade, um novo modo de anunciar o Evangelho, um novo modo de testemunhar a “copiosa redemptio”. Obviamente em todo este processo devemos considerar também o clima de fraternidade que deve caracterizar as nossas estruturas, o fato que elas sejam “habitáveis” e não apenas um ponto de chegada e de partida para a missão. Devemos avaliar nossos modos de nos relacionar e as dinâmicas de animação das próprias comunidades, temos de redescobrir um substrato antropológico para as nossas estruturas, que estão sempre a serviço da pessoa e do seu desejo de vida. Em todo caso não se pode pensar em reestruturação, senão a partir de um discernimento sério que se põe em atitude de conversão, de busca profunda da vontade de Deus.

32.        A reestruturação não pode ser apenas uma reação a situações que se nos apresentam, e diante das quais devemos tomar posição e agir. A reestruturação deve nascer de uma atitude positiva. Não teria sentido fazer uma reestruturação à maneira de uma solução administrativa. A sua urgência não está ligada ao reduzido número de vocações, ou a incerteza perante o futuro; não é motivada pelo fato de que há sempre menos Redentoristas em algumas Regiões enquanto aumentam em outras, ou porque exista o medo de que uma Unidade se extinga, ou só para continuar a subsistir, a sobreviver, sem preocupação alguma com as exigências atuais da missão. A reestruturação não é feita para salvar uma casa ou uma obra à qual estamos particularmente ligados, pedindo que uma outra Unidade resolva o nosso problema mandando algum confrade. Ela não é um antídoto aos nossos medos ou um modo de adaptar-nos ao que nos é mais cômodo. Tampouco é uma simples re-distribuição do pessoal.

33.        A reestruturação é um processo a implementar na Congregação, para que ela possa responder melhor aos desafios do mundo atual. Para entrar nesse processo é necessário perguntar-se seriamente: nossas atuais estruturas estão efetivamente e eficazmente a serviço da missão redentorista? Como funcionam essas estruturas? Ajudam-nos realmente a cumprir as exigências do carisma e a responder às urgências pastorais do mundo de hoje? A quais urgências pastorais é chamada a responder hoje a Congregação? De quais estruturas precisamos para podermos responder melhor a essas urgências? Que critérios temos para identificar o nosso compromisso com os mais pobres e abandonados? O que nos ajuda a discernir as verdadeiras urgências pastorais?

34.        Se essas perguntas podem parecer-nos abstratas ou distantes das nossas normais preocupações, oferecemos aqui alguns exemplos que nos fazem entender a urgência da reestruturação. Pensamos na formação inicial, que continua sendo uma das preocupações prioritárias do Governo Geral e de toda a Congregação. Já a última Ratio Formationis C.Ss.R. aplicou oportunamente à formação um princípio estabelecido já pelas nossas Constituições, ou seja, a colaboração com outras (Vice-) Províncias, [26] para assegurar a indispensável qualidade neste campo: “Se uma Unidade não conta com o pessoal requerido para as comunidades de formação ou com as estruturas convenientes para garantir a formação em todos os seus elementos essenciais, deve buscar a ajuda de outras Unidades”. [27] Como fazer entrar esta urgência no processo de reestruturação?

35.        Pensamos também nos novos cenários representados pela migração dos povos. Etnias provenientes do Sul ou do Leste do mundo se instalam com sempre mais freqüência em países do Norte e do Oeste, em geral sem a necessária assistência pastoral. Pensamos também no destino a que se acha exposto hoje o continente africano, não só do ponto de vista econômico-social do mundo, mas também eclesial e redentorista. Algumas Unidades nossas, que lá trabalharam generosamente no passado, são por diversas razões constrangidas a limitar ou a retirar o seu apoio. Tudo isto não se torna para nós um grito de socorro que nos interpela? Em que medida nos mostramos herdeiros da generosidade e da inventividade dos Redentoristas dos séculos passados?

36.        Mais: existem Unidades redentoristas no Norte do mundo que há anos não registram a chegada de novos candidatos, ou – se os têm – eles são em número cada vez mais reduzido. Algumas delas se resignaram a desaparecer. Há outras que fazem da sua situação o critério para decretar a morte da vida religiosa e da Congregação nessas regiões. Não há o perigo de conformar-se com esta sensação de derrota e de considerar impossível uma missão redentorista nos países com maior bem-estar? Não nos provoca tudo isto a buscar novas modalidades de presença e de anúncio?

37.        Enfim, um exemplo que encontramos na desigualdade que a Congregação constata entre os 77 países nos quais ela realiza hoje a sua missão. Há Unidades que não têm nenhum problema econômico e outras que são obrigadas a recusar novos candidatos, não tendo os recursos necessários para encarar o futuro com confiança. Não é esta situação um apelo a inventarmos novas estruturas de partilha, para tornar efetiva e permanente a solidariedade entre nós?

Alguns critérios para a reestruturação

38.        Parece-nos decisivo determinar com a maior clareza possível estes critérios para avaliar a nossa fidelidade ao carisma. Esta não se define a partir de nossos talentos, ou de nossos interesses pessoais, ou da nossa capacidade ou habilidade para este ou aquele tipo de ministério. Não é o sucesso pessoal e comunitário, não é o “brilhantismo” daquilo que fazemos e, menos ainda, o gosto pessoal ou o que é mais cômodo para a comunidade, a tornar-nos fiéis. O critério de fidelidade da Congregação é o seguimento de Cristo na evangelização dos mais pobres e abandonados. Portanto nos perguntamos: estamos lá onde deveríamos estar? Estamos onde se encontram as maiores urgências pastorais?

39.        Ademais, importa interrogar-nos: concretamente, o que significa “reestruturação” para cada Unidade, para cada Região da Congregação? Que estruturas podem favorecer mais a relação entre o Governo Geral e as Unidades da Congregação? São necessárias novas estruturas intermédias entre as (Vice-) Províncias e o Governo Geral?

40.        Estamos conscientes de haver posto também aqui muitas perguntas, mas com igual certeza sabemos que refletir sobre os passos deste processo compete a todos os Redentoristas: em cada Unidade, em cada Região, em toda a Congregação. A reestruturação é uma conseqüência do processo de conversão, mas é também um caminho para a conversão e expressão concreta da conversão comunitária. E este processo não pode ser imposto de fora. Deve ser o resultado de uma nova mística missionária, de um novo modo de testemunhar o amor de Cristo.

41.        O último Capítulo Geral disse que “o objetivo geral desta reestruturação é estimular positivamente, num espírito de solidariedade, o dinamismo apostólico da Congregação no cumprimento da sua missão na Igreja. A Congregação existe para a missão e deve adaptar a ela as suas estruturas”. [28] Com a reestruturação visa-se um funcionamento mais eficaz das nossas estruturas atuais, no nível geral, (vice-) provincial e regional; busca-se uma solidariedade mais forte entre as Unidades, no apostolado, na formação inicial e permanente; busca-se um intercâmbio mais eficaz de pessoal entre as Unidades da Congregação, precisamente para responder às exigências da missão e às urgências pastorais; procura-se uma coordenação melhor dos recursos econômicos; e pretende-se dar apoio às (Vice-) Províncias que enfrentam dificuldades particulares de qualquer tipo. [29] Outras propostas surgidas antes do Capítulo ou durante o mesmo deverão ser tomadas em consideração no tempo oportuno, como: os novos critérios de representação no Capítulo Geral, o número dos Conselheiros Gerais e o tipo de sua relação com as Regiões, uma nova divisão das Regiões, etc.

Uma mudança mais profunda

42.        Neste sentido evidentemente a reestruturação exige uma mudança de mentalidade, uma mudança de atitudes, uma mudança do próprio quadro de referência. Não podemos permanecer para sempre ligados às estruturas atuais. Por muitos anos, no início da história da Congregação não houve Províncias. Muito esforço foi empregado na constituição de comunidades internacionais. A seguir, foram criadas Províncias e elas foram se desenvolvendo sempre mais. Surgiram Vice-Províncias e Missões como expressão do espírito missionário das Províncias. Nos últimos anos, estamos trabalhando muito com as Regiões, como estrutura intermediária entre o Governo Geral e as Províncias. Não podemos cair na armadilha do “provincialismo” exclusivista. Tampouco podemos considerar a Congregação como uma simples confederação de Províncias. Constituímos um corpo missionário internacional, uma grande comunidade missionária, cujo fim é “continuar o exemplo de Jesus Cristo Salvador, pregando aos pobres a Palavra de Deus, como disse Ele de si mesmo: Enviou-me para evangelizar os pobres” [...], uma comunidade que “atende, com dinamismo missionário, às urgências pastorais e se esforça por evangelizar os mais abandonados, principalmente os pobres”. [30]

43.        É óbvio que toda novidade, todo apelo à mudança, produz em nós um certo medo, uma certa insegurança. Afinal é muito mais fácil conviver com os nossos costumes estabelecidos, é sempre preferível não pôr em discussão uma mentalidade, para cuja criação – conscientemente ou não – dedicamos grande parte da nossa vida. Não devemos negar os nossos medos, mas tampouco devemos nos deixar paralisar por eles. Somos chamados a dialogar com confiança e esperança. Ver-se convidados a pensar na reestruturação é na realidade receber um convite para nos convertermos à copiosa redenção. É crescer na solidariedade interna para exprimir solidariedade externa na caridade apostólica e assim testemunhar o amor de Deus e a copiosa redenção.

Um processo que envolve a todos

44.        Pensamos que toda a Congregação, isto é, cada Região, cada Província e Vice-Província, cada comunidade, deve entrar neste processo de reestruturação. Em muitos casos se trata de valorizar aquelas estruturas que permanecem ainda válidas e pôr em funcionamento aqueles processos decisórios já previstos pelas Constituições e Estatutos e que muitas vezes não fazemos funcionar (o princípio de subsidiaridade, revisão e também programação, etc.). Além disso devemos discernir, refletir, aprofundar, descobrir pistas de encaminhamento, individuar desafios, delinear os passos que devemos dar nesta caminhada de conversão pessoal e comunitária. É um processo que nos envolve a todos. Cada uma das Regiões deve deslanchar um processo para identificar quais são os desafios pastorais mais urgentes, e quais os obstáculos que impedem uma resposta ágil e generosa a estes desafios.

45.        O processo de reestruturação é ao mesmo tempo global e local. No processo de discernimento é preciso estar muito atento para responder aos critérios globais; é preciso prestar atenção nas grandes mudanças que atravessam o mundo e desenham as grandes perspectivas do futuro. Mas a missão redentorista deve ser sempre inculturada, uma resposta que tenha consciência da realidade local, que a considere e influa sobre ela na medida do possível, em conformidade com o que dizem as Constituições 8-9; 17; 19. Da mesma forma, a procura de maiores urgências no nível planetário, não deve fazer esquecer as necessidades pastorais mais prementes no nível de cada Região.

46.        Uma mudança de mentalidade requer um certo tempo, mas pensamos que alguns projetos devem ser postos em prática já desde agora. Convidamos a todos a seguir os passos indicados pelo XXIII Capítulo Geral. Temos de repensar as estruturas da formação inicial e comunitária; devemos dispor-nos a conhecer e a aprender as línguas mais faladas na Congregação; crescer em solidariedade; fazer esforços sérios para a criação de comunidades internacionais. Pensamos que cada Região deve empenhar-se ao menos por uma comunidade internacional neste sexênio. Pensamos que é mister crescer na solidariedade econômica, tornar-se disponíveis às urgências pastorais no nível internacional. Evitem-se “acordos simplesmente bilaterais ou exclusivamente entre Unidades”; pensemos de modo mais global, colocando os recursos a serviço de uma colaboração internacional a partir de uma visão comum mais ampla. O que propomos não é uma “centralização”. Tampouco queremos cair no extremo de uma “descentralização”, premissa para a dispersão. O que propomos é um caminho de partilha, diálogo, solidariedade, de evangelização inculturada, de testemunho comunitário profético e libertador, sem esquecer que já agora a nossa atual unidade na diversidade é um testemunho importante aos olhos do mundo.

Como dar continuidade ao processo de reestruturação?

47.        O Capítulo Geral indicou um caminho. Diz que “o Conselho Geral nomeará uma comissão que apresentará modelos e estratégias para melhorar e readaptar as atuais estruturas da Congregação”. [31] Foram também definidos critérios para o trabalho da Comissão, sobre o modo de compô-la, sobre o diálogo constante e a estreita colaboração com o Governo Geral, sobre a dinâmica da consulta aos confrades, sobre o dever de contatar outras Congregações para levar em conta as suas experiências, sobre os relatórios a serem apresentados, sobre a possibilidade concreta de criar, enquanto isso, estruturas ad experimentum. [32]

48.        Há muitas coisas para serem ainda esclarecidas, como por exemplo as tarefas concretas da Comissão e suas relações com os eventuais “delegados do Superior Geral para as Regiões e Sub-regiões”. [33] É preciso definir os limites de responsabilidade e os vários prazos do processo de reestruturação, e o modo como envolver as diversas Regiões. Pensamos incluir todos esses aspectos mais concretos num projeto particular, que vos será comunicado até julho de 2004.

49.        Diante de um desafio imenso como a reestruturação, o risco é do desânimo, se não o de uma resistência à mudança. Mas é bom recordar que a primeira grande reestruturação foi a redenção, e neste nosso processo é o mesmo Cristo que participa, ele que veio fazer de nós uma só família, e dar um sentido de salvação às estruturas com que trabalhamos. Junto com ele conseguiremos olhar com mais confiança para os novos horizontes que a história nos abre e identificar a estrada para nos pormos a caminho em direção a eles. Com ele e por ele conseguiremos também nós dar a vida, para que o mundo tenha vida plenamente (Jo 10,10).

Conclusão

50.        Renovamos-vos nossas mais cordiais saudações, extensivas às Monjas do Santíssimo Redentor, aos Religiosos e Religiosas mais próximas da nossa espiritualidade, aos jovens que se sentem chamados ao nosso Instituto, aos leigos que colaboram mais de perto na nossa missão, ao Povo de Deus e sobretudo aos mais pobres e abandonados.

Em nome do Conselho Geral
No Cristo Redentor

Joseph W. Tobin, C.Ss.R.
Superior Geral

(O texto original é o italiano.)


[1] XXIII Capítulo Geral 2003, Orientações, 7.3.

[2] Tobin, Joseph W., Superior Geral, Carta à Congregação (Prot. 0000 010/04), 2 de fevereiro de 2004.

[3] Com o termo “estruturas” entendemos a organização geral que a Congregação deu a si mesma através dos tempos para cumprir sua missão e para uma coordenação melhor de seus recursos: isto é, a distinção em Províncias, Vice-Províncias, Regiões, Missões, etc. Num sentido mais amplo, incluímos também a maior ou menor centralização de tal organização; por exemplo, parece fora de dúvida que a nossa Congregação está entre as mais “descentralizadas” na Igreja atual, tendo favorecido no decurso da sua história – e sobretudo depois do Concílio Vaticano II – uma sempre maior autonomia das realidades locais.

[4] Concílio Ecumênico Vaticano II, Gaudium et spes, 22.

[5] XXII Capítulo Geral 1997, Mensagem, 3.

[6] Tobin, Joseph W., Superior Geral, Carta à Congregação (Prot. 0000 010/04), 2 de fevereiro de 2004.

[7] Ibidem.

[8] Tannoia, Antonio Maria, Della vita ed istituto del venerabile servo di Dio, Alfonso Maria Liguori, Nápoles 1798, I, 66.

[9] XXIII Capítulo Geral 2003, Mensagem, 3.

[10] XXIII Capítulo Geral 2003, Mensagem, 4.

[11] Concílio Vaticano II, Perfectae Caritatis, 2.

[12] Ibidem.

[13] Ibidem, 4.

[14] Ibidem, 3.

[15] Cfr. Constituições C.Ss.R., 15; ver, entre outros e a título de exemplo o XXI Capítulo Geral 1991, Documento Final, 11.

[16] Ibidem, 62.

[17] XXII Capítulo Geral 1997, Orientações sobre o tema da espiritualidade; Introdução.