Communicanda IV

  

UM SÓ CORAÇÃO E UMA SÓ ALMA
(Atos 4, 32)
Reflexão sobre a solidariedade na Congregação

 

Communicanda Nº 4
Prot. N° 0000 292/01
Roma, 31 de março de 2002
Ressurreição do Senhor

 

Caros confrades,

Com alegria ofereço à Congregação esta primeira Communicanda do novo milênio. Peço-lhes que reflitam comigo sobre um sinal de esperança que nela percebo. Embora existam vários motivos para contemplar o futuro com confiança, nesta carta fixar-me-ei apenas em um que apresento à sua consideração: vejo um crescente espírito de solidariedade na Congregação. Ou seja, uma crescente unanimidade de pensamento e de sentimento, assim como o fortalecimento dos vínculos que unem a família redentorista do mundo todo e que nos leva a uma ação missionária mais eficaz.

Por que esta Carta?

Esta solidariedade é, por sua vez, o resultado da renovação que se deu na Congregação durante os últimos quarenta anos e é também fruto das forças de globalização que estão dando forma ao nosso mundo. Penso que devemos reconhecer os elementos positivos do desenvolvimento hoje presente na vida da Congregação e juntos olhar para o futuro num esforço em discernir o que Deus quer de nosso Instituto.

Uma reflexão sobre a solidariedade deve, além do mais, provocar nosso interesse em continuar trabalhando o tema deste sexênio. Nossa espiritualidade ajuda-nos a responder às ‘básicas’ e muitas vezes inquietantes perguntas: Quem somos nós? Para que existimos? Como devemos viver? (Communicanda 2, janeiro de 1999, n. 8). Penso ainda que uma reflexão sobre a solidariedade nos levará a questionar nosso modo de relacionamento mútuo dentro da Congregação e nossa reação, levando-nos em conta, diante dos acontecimentos de nosso mundo. Ou a fazer perguntas como estas: Fomos chamados a uma Congregação internacional ou a uma federação de (vice)províncias? Sentimo-nos incomodados diante dum modelo de economia global que divide e fomenta a discriminação em nosso mundo? Todas estas perguntas são de ordem espiritual. Elas levam-nos a refletir sobre quem somos, o que valorizamos e como vivemos.

Enfim, vejo esta carta em conexão com um projeto decisivo e já em marcha na Congregação: a preparação do próximo Capítulo Geral. Espero que esta Communicanda contribua para a reflexão que está preparando a Congregação para um momento excepcional de solidariedade: o XXIII Capítulo Geral, que acontecerá em 2003.

A preparação deste texto

As reuniões regionais na metade do sexênio

Permitam-me logo dizer como nasceu esta carta. Em 1999 o Conselho Geral preparou a agenda para as seis reuniões regionais da Congregação que aconteceriam na metade deste sexênio. Num período de doze meses, de janeiro de 2000 a janeiro de 2001, os superiores maiores de todas as regiões reuniram-se com os membros do Conselho Geral primeiramente em Madagascar, depois nos Estados Unidos, Brasil, Filipinas, Itália e Polônia.

O Conselho Geral, seguindo a recomendação do último Capítulo Geral, pediu aos superiores maiores que abordassem os mesmos temas em todos os encontros regionais. No programa incluía-se o tema do sexênio sobre a espiritualidade, a vocação do Irmão na Congregação e os temas relacionados com a preparação do próximo Capítulo Geral. Dedicou-se também um tempo a temas de interesse particular de cada região.

Além destes temas, apresentei pessoalmente a solidariedade como um sinal especial de esperança que vejo na Congregação e que, previamente, já tivera oportunidade de discutir com os superiores maiores, enquanto “sinal dos tempos”. Pensava, inclusive, na possibilidade de publicar a mensagem em forma de Communicanda para comprometer todos os confrades em sua reflexão. Em cada um dos seis encontros regionais foi apresentado o mesmo esboço do texto e os superiores trouxeram-lhe sugestões muito úteis. Com entusiasmo, concordaram em continuar o estudo do tema da solidariedade e me animaram a publicar uma Communicanda sobre o assunto.

Reflexão da União dos Superiores Gerais

No final de 2000, junto com outros superiores gerais de congregações masculinas, participei de uma reflexão sobre o futuro da vida religiosa num mundo globalizado. Foi por ocasião da reunião que semestralmente celebra a União dos Superiores Gerais (22-25 de novembro de 2000), onde estudamos um documento de trabalho preparado pela comissão teológica internacional da União. À primeira vista diríamos que seria necessário um dicionário teológico para entendê-lo. O documento trazia como título: “Da Globalização a uma comunhão descentralizada e intercultural. Implicações eclesiológicas para uma administração de nossos Institutos” (publicado em 8 de dezembro de 2000). Representava o fruto de três anos de diálogo entre os teólogos e os superiores gerais sobre as rápidas mudanças no horizonte em que se move a vida religiosa hoje. O texto oferece uma valiosa perspectiva ao situar temas como o da inculturação do carisma e o da descentralização em um novo contexto de fenômenos sociológicos, culturais e econômicos. O debate, ao menos, me mostrou que a maioria dos responsáveis pelas ordens e congregações internacionais trata de enfrentar temas tais como: “Como pensar de forma global e atuar de forma local?”

O mundo no ano 2002

Os informativos que comunicam o que ocorre no mundo levam muitos a pensar no relacionamento estreito que une todos os povos da terra entre si, num tipo de vínculo absolutamente novo. Sem que importe a riqueza e o poder que possua, nenhum estado pode pretender viver em paz, se permanecer em isolamento completo. Pode se construir a prosperidade de um país sobre a miséria de muitos outros. Decisões tomadas em uma nação têm sério impacto sobre outras distantes. Podem ser terríveis as conseqüências, se não acertamos em globalizar a solidariedade entre os cidadãos do mundo.

Um motivo de esperança

Dois anos se passaram desde que o primeiro esboço desta carta foi discutido na primeira reunião regional, em janeiro de 2000. Desde então muitos acontecimentos se sucederam no mundo e pode ser que alguns deles engendraram em nossos dias uma dúvida real e um presságio nada bom sobre nosso futuro como missionários e, por suposto, como cidadãos do mundo. Ainda assim a preocupação central desta mensagem segue sendo a esperança e o esforço em expor os motivos de esperança que nos acompanham. Tarefa nada fácil como assinalamos em nossa primeira Communicanda deste sexênio (Communicanda 1, 25 de fevereiro de 1998, n.17). Como ousamos hoje esperar? Com o apóstolo das gentes, os missionários redentoristas continuam trabalhando e esforçando-se porque “temos colocado a esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os povos, principalmente dos crentes” (1 Tm 4, 10). A razão pela qual não arredamos pé diante das dificuldades ou decepções é que estamos firmemente arraigados na convicção de que recebemos uma missão e que seu doador é digno de confiança, Deus, que em Jesus Cristo, se uniu a nós para sempre. Pode dar-se um ato mais dramático de solidariedade do que a nossa redenção?

Quanto mais nos aprofundamos na missão concreta que foi dada à nossa Congregação, mais profundos são os desejos de muito confrades de trabalharem juntos. Estes desejos se traduzem numa forma de vida que podemos chamar de solidariedade: unanimidade nos objetivos e no mútuo entendimento dentro da global família redentorista que conduz a uma ação missionária mais eficaz. No que percebo este espírito que de fato já se dá entre nós?

Sinais de solidariedade

A maioria dos redentoristas quer saber o que se passa em nossa Congregação nos diversos países onde vivemos e atuamos. Os membros do Conselho Geral estão de acordo que um dos momentos culminantes de cada visita é quando, em cada comunidade local, conversamos sobre a situação de nossa missão global. Quase sem exceção, os confrades estão sedentos em ouvir, de forma detalhada, o relato das luzes e das sombras que hoje existem na Congregação. A possibilidade de partilhar esta informação se dá também por outros caminhos: reuniões internacionais, boletins informativos publicados pelo Departamento de Comunicações, as visitas cada vez mais freqüentes às diversas (vice)províncias e através da comunicação que a Internet permite. Tudo isto contribui para aumentar o conhecimento dos esforços que os confrades realizam em situações bem diferentes entre si, e também para diminuir a aparente indiferença ou falta de entendimento que, às vezes, existiu entre as províncias e regiões, principalmente porque nós, redentoristas, simplesmente sabíamos pouco uns dos outros.

A solidariedade é mais do que simples interesse ou o conhecimento da situação das demais. O conhecimento mútuo deve traduzir-se em ação concreta. Assinalo, com prazer, alguns “acontecimentos” de nossa irmandade em nível internacional. É digno de menção o fato de que muitas de nossas mais recentes missões ad gentes foram projetadas e sustentadas com a colaboração de diversas unidades da Congregação. Nossa presença missionária na Nigéria, Sibéria, Coréia e Bolívia, são exemplos desta colaboração. Quando, em 1999, visitei o arcebispo de Seul, ele me observou que o êxito que os redentoristas estavam tendo, atraindo novos membros, devia-se ao fato de que dávamos aos jovens a imagem de uma comunidade de “rosto internacional”, ou seja, uma comunidade de irmãos procedentes de diferentes nações e culturas, unidos efetivamente pelo amor mútuo e zelo missionário. A missão da Coréia começou com uma expressão de solidariedade entre as unidades da Ásia e Oceania, muitas das quais contribuíram com fundos e pessoal para que nosso carisma fosse levado à referida nação. Sinto-me feliz em ver continuado este espírito do fundador. Hoje, os redentoristas coreanos, tailandeses, filipinos, vivem e trabalham juntos, anunciando assim ao povo coreano uma mensagem de irmandade.

Evidentemente, também em muitas outras unidades há uma larga tradição de redentoristas de diversas nacionalidades que dão claro testemunho de comunhão entre povos, raças e culturas diferentes. Um testemunho que é tanto mais significativo quanto se dá num tempo caracterizado pela globalização dos problemas e pelo retorno dos ídolos de nacionalismo exagerado, do racismo, da xenofobia (cf. Vita Consecrata, 51). Nas muitas famílias religiosas da Igreja, este tipo de testemunho é a melhor contribuição que podem dar as congregações internacionais como a nossa.

Os últimos anos têm sido testemunhas de novas experiências de solidariedade na formação dos missionários redentoristas. Podemos encontrar esta cooperação tanto em nível da formação inicial como em nível da responsabilidade compartilhada na elaborarão de programas conjuntos de formação contínua ou permanente. Algumas unidades trabalham conjuntamente em uma etapa concreta de formação, como é o noviciado compartilhado, enquanto outras acolhem em seus programas de formação candidatos de outras (vice)províncias. Algumas regiões patrocinam programas para a formação contínua dos redentoristas.

Algumas unidades estão desejosas de compartilhar a abundância de membros jovens que têm a fim de apoiar o ministério de (vice)províncias envelhecidas, fazendo assim levar a cabo iniciativas totalmente novas. Recursos econômicos também são repartidos entre os redentoristas. Sem dúvida alguma, acontecem ainda na Congregação dramáticas diferenças no estilo e no nível de vida, ao persistir ainda nela padrões muito distintos neste sentido. Não podemos, porém, ignorar a louvável generosidade que um bom número de unidades com maiores recursos econômicos pratica. Algumas destas contribuem regularmente para o Fundo de Solidariedade e ajudam também, de forma discreta, a seus irmãos redentoristas em terras distantes. Sempre que solicitadas pelo Governo Geral para ajudar uma província ou vice-província em dificuldades econômicas, a resposta quase sempre tem sido positiva e magnânima. Muitas (vice)províncias têm dado generosas contribuições a projetos tais como a reestruturação da casa geral, a Academia Alfonsiana e, mais recentemente, um considerável esforço em aumentar o patrimônio do Governo Geral (cf. Capítulo Geral, Postulado 9.5). De fato, precisamos descobrir ainda meios mais eficazes para levar a cabo a chamada “solidariedade voltada para o desenvolvimento”, pedida pelo último Capítulo Geral (Postulado 9.7).

Um tríptico dos Atos dos Apóstolos

A Palavra de Deus mostra-nos que a solidariedade é uma qualidade essencial para a vida apostólica. Podemos encontrar uma rica fonte de reflexão nos Atos dos Apóstolos, sobretudo na sua descrição da comunidade apostólica. Permitam-me propor três cenas dos Atos, como numa espécie de tríptico, que sirvam para nossa meditação. Num painel à esquerda veríamos os Apóstolos e Maria, em oração ( At 1, 12-14). No painel central, a vinda do Espírito Santo (At 2,1ss) e, finalmente, no painel à direita, a vida em comum dos primeiros cristãos (At 4, 32-35). O que podemos observar nessas imagens?

A solidariedade na oração

O primeiro painel revela a importância da oração na comunidade apostólica. A missão que os apóstolos vão empreender não foi inventada por eles. Jesus lhes disse: “Recebereis a força do Espírito Santo, que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até nos confins da terra” (At 1, 8). Desde o início a missão dos apóstolos é internacional e intercultural. Ela é maior que eles mesmos. Devem, assim, estar atentos e esperar a vinda do Espírito, o Dom do Senhor ressuscitado que lhes dará poder e os guiará para a verdade plena (cf. Jo 16, 13). Junto com a mãe do Senhor e outras mulheres, os apóstolos eram “constantes na oração” (At 1,14).

A primeira solidariedade entre os discípulos é a oração. Pode-se imaginar uma comunidade verdadeiramente apostólica onde a oração esteja ausente, ou seja, somente uma rotina? Sem a oração constante arriscamo-nos a reduzir a Missão a pequenas atividades que se correspondem exclusivamente com o que queremos fazer ou com o que pensamos que podemos fazer. Até que ponto dependemos do Espírito para nos certificarmos onde devemos testemunhar o Senhor Ressuscitado e poder realizar, assim, nossa missão? Maria acompanha-nos em nossa oração? Nossa oração comunitária está aberta a outros discípulos, aos nossos colaboradores?

A solidariedade na Missão

O painel central do tríptico mostra o dia de Pentecostes, quando o vento e o fogo do Espírito Santo impulsionam os discípulos, restritos à segurança do Cenáculo, a abraçar uma missão universal. Os apóstolos falam uma linguagem que pode ser entendida por todos e, desde o início, fica claro que a Igreja não é um bem de domínio privado de uma só raça ou nação. Ou melhor, o Espírito Santo “globaliza” o Evangelho e, através dos apóstolos, põe a salvação ao alcance de todos.

Uma enorme diversidade de situações sociais, econômicas, políticas e eclesiais conformam a realidade da Congregação hoje. É razoável promover uma espécie de “cultura” redentorista em meio a tal diversidade? Creio que seja possível e que, de fato, podemos descobrir as características comuns que se dão na vida dos redentoristas do mundo inteiro. No sexênio anterior o padre Lasso assinalou algumas delas em sua segunda Communicanda “Unidade na diversidade” (14 de janeiro de 1994; cf. especialmente os n.n. 32-36). A fonte desta unidade é o próprio Espírito Santo, o mesmo que une a multidão de pessoas que ouvem o Evangelho no dia de Pentecostes (Atos 2,7-12). O texto, todavia, não sugere que todas estas pessoas sacrificaram sua cultura no momento do batismo. As diferentes raças e línguas das primeiras comunidades cristãs revelam melhor uma força de unidade que as liga entre si e as enriquece: o Espírito Santo. Este mesmo Espírito ajuda os membros de nossa Congregação a ser “de um mesmo pensar e de um mesmo sentir”.

Solidariedade no que se possui

O terceiro e último painel do tríptico representa a descrição idílica da comunidade cristã primitiva onde todos os membros compartilham suas posses e permanecem unidos em oração e na fração do pão (At 2, 42-47; 4, 32-35). Devemos reconhecer que a descrição que se faz da unidade desfrutada pela comunidade de Jerusalém pode ser também um tanto romântico e que o livro dos Atos dos Apóstolos é bastante honesto em recordar os momentos mais dolorosos quando a comunidade se encontra dividida em setores étnicos (cf. At 6, 1ss) ou quando Pedro e Paulo se enfrentam no começo do Concílio de Jerusalém (Gl 2, 11-14). Tais incompreensões não contradizem a verdade de que a comunidade desfruta de uma notável unidade, claramente atribuível à ação do Espírito Santo.

A comunidade primitiva pôde compartilhar o que tinham porque eram “de um mesmo pensar e de um mesmo sentir”(At 4, 32). Os membros não foram forçados a serem generosos. Fizeram-se generosos livremente porque tinham unanimidade de objetivos (“um mesmo pensar”) e união de corações (“um mesmo sentir”). Esta unidade, realizada pelo Espírito Santo, produziu uma caridade que foi suficiente para satisfazer às necessidades da comunidade (At 4, 34). Esta solidariedade efetiva não é simplesmente um imperativo moral. Os apóstolos oraram muito enquanto esperavam (no cenáculo) o Espírito Santo e ele lhes foi dado e conduziu-os à sua missão (Pentecostes). Entregar seus bens e suas próprias vidas é uma resposta necessária aos dons do Espírito e está intimamente ligada à missão apostólica.

Não é verdade que quando permitimos ao Espírito fazer que sejamos “de um mesmo pensar e de um mesmo sentir”, tanto mais ficamos desejosos de compartilhar o que temos? Não obstante as enormes diferenças de situações culturais em que hoje se encontra a Congregação, o Espírito nos oferece um estímulo para a unidade. É a vocação comum da qual todos participamos: “continuar o exemplo de Cristo pela vida apostólica que compreende a um só tempo a vida especialmente dedicada a Deus e a obra missionária dos redentoristas”(Constituição 1).” A aceitação deste princípio fundamental de unidade, cujo valor as demais Constituições e Estatutos revelarão e ressaltarão, faz com que a verdadeira solidariedade seja possível entre os redentoristas.

Orientações para o futuro

A efusão do Espírito Santo e a pregação dos apóstolos levam as multidões nas ruas de Jerusalém a uma pergunta: “Que devemos fazer, irmãos?” (At 2, 37). A rapidez com que muda a face de nosso mundo, o mesmo mundo onde devemos proclamar o Evangelho, deve levar-nos a fazer uns aos outros a mesma pergunta: “Irmãos, que devemos fazer?” Se a resposta for: “faremos o que sempre temos feito”, estaremos nos equivocando de forma trágica.

Solidariedade dentro da (vice)província

O desafio consiste em globalizar a solidariedade dentro da Congregação em função de nossa Missão mundial. Quando, nas reuniões regionais de 2000-2001, partilhei o primeiro esboço deste texto, um bom número de superiores maiores pediu-me que não pensasse na solidariedade apenas em termos mundiais. A unanimidade no pensar e sentir deve caracterizar a vida dos redentoristas dentro de cada província e vice-província. Infelizmente, há unidades onde o diálogo e o discernimento não fazem parte da vida da Congregação. Nestes casos, em geral, faltam nelas uma visão compartilhada sobre o futuro e o sentido de corresponsabilidade que são princípio essencial de nosso governo (Constituição 92). O resultado é sua fragmentação junto a um arrefecimento do zelo missionário. É lógico pensar que haja sentido de solidariedade com os redentoristas que trabalham em outras unidades, se nós mesmos, na prática, sentimos pouca responsabilidade pelo futuro de nossa (vice)província?

Solidariedade na formação

Existe uma crescente necessidade de maior solidariedade na formação inicial dos missionários redentoristas. Como já observei antes, cresceu entre algumas (vice)províncias tal colaboração. Isto se manifestou através de uma distribuição de responsabilidades entre as diferentes unidades ao compartilhar uma mesma casa ou programa de formação. Penso, no entanto, que devemos caminhar mais nesta direção. O último Capítulo Geral reconheceu a necessidade de oferecer aos responsáveis pela formação uma preparação adequada (Orientações, 5.2), cursos sobre nossa história e espiritualidade (ibid. 5.3), e que se dê especial atenção à etapa de transição da formação inicial para as comunidades apostólicas (5.6), assim como se estimulem os encontros interprovinciais de formadores e o intercâmbio de pessoal acadêmico. Estas expectativas exigem uma maior colaboração entre as (vice)províncias assim como a ajuda do Governo Geral.

A formação inicial dos redentoristas comporta outros desafios que podemos enfrentar melhor mediante alguma forma de solidariedade. Por exemplo: algumas unidades carregam o peso de levar adiante um grande número de futuros redentoristas enquanto muitas outras (vice)províncias têm apenas um punhado de candidatos. As duas situações preocupam-me, de modo especial a última. É normal continuar com um programa de formação no qual os estudantes têm um contato muito limitado com outros redentoristas de sua mesma idade? E não esqueçamos o fenômeno de imigrantes e refugiados que estão criando sociedade multiculturais, freqüentemente em situação de grandes urgências pastorais. Num mundo onde uma em cada quarenta e cinco pessoas é refugiado ou imigrante, há necessidade urgente de missionários que possam exercer seu ministério em circunstâncias culturais diferentes daquelas em que nasceram. O programa de formação inicial deve preparar nossos jovens para estas novas situações. Creio que o futuro da Congregação estará mais garantido se formos capazes de encontrar novas formas de colaboração na primeira formação dos missionários redentoristas.

Estruturas da Congregação

Estou convencido que a Missão da Congregação exigirá no futuro a descoberta de novas estruturas internas. Enquanto o atual sistema de províncias, vice-províncias e regiões nos foi de muita valia durante aproximadamente um século e meio, pergunto-me se estas mesmas estruturas serão adequadas para o futuro. Não deveremos descobrir novos modelos de governo que reforcem nossa mobilidade e flexibilidade? Hoje em dia há certos casos na Congregação onde a manutenção de uma estrutura existente, como uma província ou vice-província, exige um custo tremendo em pessoal e em recursos materiais. Não poderíamos pensar uma forma diferente de organizar o Governo Geral a fim de que sirva melhor à unidade e pluralidade da Congregação? Deixando agora o sistema de (vice)províncias à parte, não necessitamos de alguma forma de estrutura intermédia que coordene o trabalho missionário dos redentoristas numa mesma região geográfica? Uma unidade de objetivos juntamente com a comunhão de vida com os redentoristas que vivem fora dos limites da própria unidade particular nos ajudaria a descobrir novas estruturas que sustentariam nossa Missão no vigésimo primeiro século.

As prioridades regionais

As unidades de algumas regiões já começaram a olhar mais além de seus próprios limites individuais para reconhecer o valor de um apostolado que responda a uma situação de urgência pastoral e que só poderá ser empreendido se várias (vive)províncias assumirem juntas. Estas unidades começam a fazer frente a prioridades regionais mediante confrades da região que se comprometem levar a cabo trabalhos pastorais que, originariamente, faziam parte do projeto de uma única unidade, ou a colaborar em iniciativa completamente nova da Região. Os responsáveis das (vice)províncias da América do Norte e da Europa Norte já começaram a dialogar sobre a validade de prioridades conjuntas de suas respectivas regiões.

Comunidades internacionais

O último Capítulo Geral expressou seu apoio no estabelecimento de comunidades internacionais de Redentoristas a serviço de nossa Missão (Postulado 3.2). Ainda que não se trate de uma panacéia ou solução universal a problemas como o envelhecimento das províncias que têm poucas vocações, creio firmemente que as comunidades internacionais são uma potente expressão de nosso carisma num mundo de globalização. Não deveríamos buscar novas formas de solidariedade, incluindo as comunidades internacionais, a fim de pregar o Evangelho a comunidades hispânicas e asiáticas da América do Norte? Podemos garantir que nosso carisma contribuirá à nova evangelização da Europa. A vida em uma comunidade internacional nem sempre está isenta de dificuldades, mas pode ser muito enriquecedora. Eu sei. Tenho o privilégio de viver numa.

Conclusão

A nova situação do mundo e de nossa Igreja convida todos os Redentoristas a olhar mais além das fronteiras das próprias unidades individuais e a considerar as mais vastas urgências de nossa Missão. Creio que já existam na Congregação exemplos prometedores de solidariedade e que são uma base para futuros esforços. Nossa confiança está no Espírito de Cristo que nos permite “clamar Abbá” àquele que continua nos enviando a pregar a Boa Nova e que nos faz sabedores da necessidade que temos uns dos outros para levar a cabo a Missão que nos confiou.

Com a imagem de Maria e dos Apóstolos no Cenáculo diante de nossos olhos, convido-os a aprofundar nossa solidariedade na oração. Assim confiamos que o Senhor nos abrirá ainda mais à ação do Espírito de forma que possamos ser de “um mesmo pensar e de um mesmo sentir”, na palavra e na obra, para o bem de nossa Missão.

Em nome do Governo Geral,

Joseph W. Tobin, C.Ss.R.
Superior Geral

(O texto original é em inglês.)