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Communicanda
III
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DESCOBRINDO O MELHOR VINHO, NO FINAL
Reflexões sobre a terceira idade
COMMUNICANDA
N° 3
Roma, 8 de dezembro de 2000
Prot. N° 0000 0265/99
Caros
confrades:
1. Saúdo fraternalmente
cada um de vocês, em Cristo Jesus. Os membros
do Conselho Geral unem-se a mim para estender
os mais profundos desejos de bênçãos abundantes
nesse Novo Ano. Que a graça de nosso Senhor
Jesus Cristo esteja sempre com todos vocês.
Na segunda Communicanda deste Conselho Geral, Ai de mim se eu não
anunciar o Evangelho (14 de janeiro de 1999),
manifestei minha intenção de dedicar uma futura
carta à questão das “exigências espirituais
pertinentes à terceira idade” (n° 41). A presente
reflexão é uma tentativa de cumprir esse compromisso.
2. Inicialmente,
explico o que entendo por terceira idade. Se
é verdade que a primeira idade na vida de uma
pessoa é o período de educação e a segunda,
marcada pela produção e uma vida de trabalho,
a terceira é freqüentemente usada para referir-se
àquele tempo em que o trabalho central da pessoa
já está encerrado. Embora eu esteja pensando
em você, que já começou a viver a terceira idade,
escrevo esta mensagem a cada confrade na Congregação.
Independente da idade, como a constituição 55
nos lembra, somos todos irmãos na mesma família
e partilhamos da mesma vocação: cada um de nós
é um missionário e continuamos a ser missionários
a vida toda. Em cada estágio de nossa vida e
em qualquer que sejam as circunstâncias nas
quais nos encontramos, devemos procurar viver
mais intensamente nossa consagração religiosa.
Além disso, viver em comunidade e por meio da
comunidade realizar o trabalho apostólico é
uma lei essencial para nós (Constituição 21).
Esta mesma Constituição nos diz que “a comunidade
não é somente a convivência material dos congregados,
mas, ao mesmo tempo, comunhão de espírito e
de fraternidade”. Devemos pôr em comum nossas
forças e fraquezas, nossos dons e limitações,
por amor à Missão ou Carisma, que conferem um
significado às nossas vidas. Cada comunidade,
portanto, deve encarar a questão do envelhecimento
e suas conseqüências aos missionários redentoristas.
Por que devemos
refletir sobre esta questão?
3. Assim como diversas
sociedades, a Congregação está enfrentando
uma nova realidade: o número de confrades
idosos está crescendo rapidamente. Neste momento
em que lhes escrevo, dentre os 5.569 membros
professos na Congregação, 520 ultrapassam
os 80 anos e 948 já estão na casa dos setenta.
Isso significa que 26% dos membros da Congregação
estão acima dos 70 anos. É verdade que temos
sido abençoados com muitos membros jovens:
há mais redentoristas professos nos seus 20
anos que aqueles com mais de 80, e mais nos
seus 30 anos que aqueles com mais de 70. Mas
a Congregação nunca antes teve tão grande
grupo de anciães entre seus membros. É um
fato que não podemos ignorar, porque nos apresenta
um desafio, que devemos encarar para que possamos
amadurecer conjunta e fielmente, como uma
comunidade, enviada a pregar e ser testemunha
da Boa-Nova do Reino.
4. Os redentoristas
estão não só vivendo mais longamente, mas
muitos confrades chegam aos 70 e 80 anos de
vida em melhores condições de saúde do que
no passado. Ao mesmo tempo, há um significativo
aumento da necessidade de seguros de saúde
para redentoristas seriamente enfermos. Mas,
o desafio mais profundo para os redentoristas
idosos não se refere aos problemas de saúde,
mas sim ao como viverem sua consagração religiosa,
especialmente quando estão no limite, ou freqüentemente,
incapacitados de exercerem atividades pastorais.
Nessa etapa da vida, redefinir ou reformar
sua identidade concreta como missionário,
pode até ameaçar a própria autoconfiança e
auto-estima.
5. Diferentes culturas
têm atitudes diversas quanto ao envelhecimento
e à terceira idade. Algumas reverenciam seus anciães; o
simples fato de ter alcançado certa idade
confere à pessoa uma dignidade que exige respeito
na comunidade. O que me preocupa é um mundo cultural emergente que idolatra
a juventude, a energia e a flexibilidade,
enquanto ignora ou tenta “esconder” o ancião.
Essa perspectiva cultural causa tanta
ansiedade, que muitas pessoas fazem de tudo
para “permanecer” jovem. O idoso é encorajado
a sair do caminho, a deixar o fórum político,
a transformar-se em um ser pacífico e tranquilo,
a não ser levado a sério e a não ser desafiado
a contribuir com a sua sociedade. Para o ser
humano, o trabalho e a dignidade estão a tal
ponto relacionados que, a incapacidade de
trabalhar, o deixa com a vida sem sentido.
E por fim, o fato da morte ter-se tornado um tabu: não deve
ser discutida em círculos educados e não deve
ser considerada uma passagem para a qual devemos
conscientemente nos preparar.
As circunstâncias da Congregação
6. Devemos reconhecer
que a Congregação está sendo influenciada
por essa ambivalência etária. Em algumas partes do mundo, a “aposentadoria”,
na noção secularizada, tem afetado acentuadamente
a vida dos redentoristas. É assumido como
natural que um confrade deve maneirar suas
atividades, quando atinge certa idade. Em alguns casos, não esperamos do
redentorista idoso assumir responsabilidades
pesadas na comunidade, independente de seu
estado de saúde física ou mental. Alguns redentoristas visualizam
a aposentadoria como um direito adquirido
e portanto, quando chegam a esta idade, esperam
ficar livres de suas obrigações na comunidade,
para dedicar-se a seus próprios interesses.
Há (V)Províncias no primeiro mundo, onde os
recebimentos de aposentadoria tornam-se um
grande problema, porque o confrade considera
este recebimento, como uma posse pessoal.
Vezes há, em que o cuidado aos confrades idosos
concentra-se quase que exclusivamente aos
problemas de saúde, negligenciando as necessidades
espirituais específicas dessa idade.
7. Em nossas visitas às (V)Províncias, eu e os membros
do Conselho Geral somos freqüentemente edificados
por confrades idosos, que intensificam sua
identidade missionária, na medida em que os
anos passam e que têm a habilidade de partilhar
com os outros, especialmente com os jovens,
a sabedoria que eles têm adquirido. A cada
ano, recebo cartas de nossos jubilares: irmãos
e padres que celebram cinqüenta ou mais anos
de vida na Congregação. Essas cartas resplandecem
de gratidão, humildade e zelo. Freqüentemente,
sou levado a partilhar esses testemunhos com
os membros do Governo Geral.
8. Infelizmente, a velhice não
é algo que automaticamente garanta esses sentimentos.
Durante as visitas, também encontramos redentoristas
desapontados, desiludidos e até amargurados.
Em situação mais grave estão os confrades
angustiados, devido às mudanças rápidas pelas
quais passaram tanto na Igreja como em nosso
Instituto. Alguns deles fazem o julgamento
de que a Congregação tornou-se infiel a seu
Carisma e Missão na Igreja e concluem que
Deus tem retirado sua bênção da Congregação.
9. Essas são algumas das situações
e preocupações que me levam a escrever esta
carta. Gostaria de lhes apresentar algumas
reflexões, a partir da perspectiva do último
Capítulo Geral, que nos incentivou a considerar
a espiritualidade como “o prisma através do
qual vejamos todas as dimensões de nossa vida”
(Mensagem Final, 5). Minha intenção
é convidar cada um de vocês a refletir o “como
nutrimos e manifestamos nossa relação de fé
com Jesus” (Mensagem Final, 3), também
como uma comunidade sob o aspecto da velhice
e do desafio para uma conversão, para que
possamos seguir Jesus mais de perto, em qualquer
que seja a etapa de nossa vida missionária.
10. Há também razões pessoais, que
motivam esta carta. Tive o privilégio e a
graça de ter passado meus primeiros anos na
Congregação com um bom número de confrades
maravilhosos, já na terceira idade. Suas palavras
e exemplos ainda hoje continuam a me influenciar.
Esses redentoristas partilharam comigo seus
segredos na pregação da Palavra, ensinaram-me
a amar a Congregação e a ter esperança no
futuro. Muitos deles já morreram e, eu espero,
estão agora saboreando plenamente as doçuras
de Deus. Com profunda gratidão, dedico esta
carta a todas essas testemunhas fiéis, esperando
que estas reflexões me ajudem a me preparar
para ser um bom redentorista idoso em meus
anos futuros, quando eu também poderei ajudar
jovens confrades no início de sua própria
peregrinação.
A Vida como uma peregrinação
11. Peregrinação é uma experiência
sagrada encontrada nas grandes religiões e
em muitas culturas. É muito interessante que
a noção de peregrinação persiste em algumas
sociedades, onde o resto das expressões religiosas
já foi dissipado por influência da secularização.
Talvez isso aconteça porque a peregrinação
é um tipo de paradigma da própria experiência
humana. Pensamos, ou pelo menos esperamos,
que nossas vidas não devam ser entendidas
simplesmente como produtos de colisões casuais
de átomos, como um destino cego ou como uma
necessidade biológica. Pensamos que nossas vidas começaram num determinado lugar e prosseguem
para outro. Justamente como peregrinos, movemo-nos em direção a um santuário invisível e
procuramos encontrar significado à jornada
de nossas vidas “caminhando” em direção ao
lugar ou a Pessoa, que freqüentemente apenas
visualizamos “como em espelho e de maneira
confusa” (1Cor 13, 12).
12. A sacralidade da peregrinação
não deve ser vivenciada apenas na chegada
ao objetivo desejado. A vocação do peregrino
é vivida a cada dia, a cada hora e a cada
minuto da jornada: em cada passo dado na fé.
Ao caminharmos pela jornada da vida, estamos
conscientes de um paradoxo: mudamos radicalmente
ao longo da caminhada e ao mesmo tempo permanecemos
o mesmo. Podemos traçar estágios importantes
ou segmentos identificáveis através dos quais
passamos, enquanto o cerne de nossa identidade
misteriosamente permanece imutável. Uma metáfora
simples desse paradoxo é o “dia”, que tem
uma manhã, um meio-dia, uma tarde e uma noite,
todos entendidos distintamente e no entanto,
fundidos numa só unidade. Embora unidas, cada
uma das fases da vida tem um valor autônomo,
que deve ser apreciada em si e não simplesmente
como uma preparação à próxima etapa.
13. Às vezes acontece que circunstâncias
impelem uma pessoa a avançar prematuramente
ao próximo segmento da vida. Penso na realidade
que parte o coração: as crianças que são obrigadas
pela pobreza a assumir responsabilidades de
adultos, como providenciar alimento à família,
ou cuidar de seus pais doentes. Consideramos uma tragédia
quando uma vida humana encerra-se prematuramente,
antes que a pessoa tenha tido a oportunidade
de se desenvolver e “viver” verdadeiramente.
E também é possível resistirmos
à passagem de um estágio ao outro na jornada,
como aquele adulto que deseja permanecer adolescente
para sempre. Tal luta é inútil e frustrante,
porque na realidade estamos constantemente
sendo confrontados pela evidência de que,
queiramos ou não, sucessivamente passamos
de um estágio para o outro. Em outras palavras,
somos sempre lembrados de que estamos envelhecendo.
14. Uma consciência do envelhecimento
tem influenciado vários escritores espirituais,
como por exemplo, o Apóstolo Paulo e o Papa
João Paulo II. Paulo usou a metáfora do
crescimento humano ou o envelhecimento para
descrever o crescimento do discípulo (e.g.
1Cor 3, 1-2; 13, 11). Em sua exortação apostólica
Vita Consecrata (1996), João Paulo
II encoraja os religiosos a reconhecerem os
estágios diferentes da vida e a nunca deixarem
de trabalhar pelo crescimento humano e como
pessoas consagradas, já que “em nenhuma fase
da vida se pode considerar tão segura e fervorosa
que exclua a conveniência de cuidados específicos
para garantir a perseverança na fidelidade,
tal como não existe idade que chegue ver consumada
a maturação da pessoa” (69).
15. O que significa ser um redentorista,
quando não mais exerce o tipo de apostolado
ou responsabilidade que tinha anteriormente?
Graças a Deus, uma resposta da Congregação
a essa situação não começa com esta presente
carta. Muitas (V)Províncias já têm uma política
especial para atender às necessidades físicas
e emocionais dos confrades que envelhecem.
É possível oferecer uma ampla bibliografia
de escritores espirituais contemporâneos,
inclusive redentoristas, que refletem sobre
os desafios especiais do confrade na terceira
idade. Espero que os confrades e Governos
(V)Provinciais estejam a par de tais fontes
e que façam uso delas. Talvez esta carta sirva
para estimular a considerar o número crescente
dos confrades que envelhecem na Congregação,
reconhecendo que suas necessidades vão além
do cuidado com a saúde e ocupações com passatempo,
já que eles não se aposentam da profissão
religiosa, o “ato que define toda a vida missionária
dos redentoristas” (Constituição 54).
16. Gostaria de delimitar o escopo
destas reflexões, sem pretender esgotar o
assunto sobre o que significa envelhecer.
Primeiro, concentrar-me-ei em um aspecto do
envelhecimento, isto é, o aspecto da perda,
e depois gostaria de refletir se essa experiência
seria ou não uma oportunidade para um crescimento
espiritual. O que segue poderia ser ampliado
e enriquecido por vocês, especialmente pelos
confrades idosos, visto que têm condições
de contemplar as experiências de vida à luz
de uma sabedoria, disponível somente na terceira
idade. Que a Congregação continue descobrindo
maneiras pelas quais possa ajudar redentoristas
na terceira idade a se aprofundarem no compromisso
com o Redentor, ao mesmo tempo em que tenha
um apreço pelo modo especial em que estes
confrades vivem nosso Carisma.
Ser conduzido aonde não quer ir
17. Entre os vários
encontros dos discípulos con o Senhor Ressuscitado,
o descrito no epílogo do Evangelho de João
é um dos mais comoventes. A
narrativa refere-se à aparição de Jesus na
praia de Tiberíades e conta detalhes cativantes:
a identificação errônea, a pesca milagrosa,
o mergulho impetuoso nas águas e uma refeição
à moda da casa. A narrativa continua com uma
tríplice profissão de amor de Pedro e o mandato
do Senhor para uma vida de caridade apostólica.
Então,
Jesus fala como aquela vida terminará, dando
glória a Deus:
Quando
você era mais moço,
você
colocava o cinto,
e
ia para onde queria.
Quando
você ficar mais velho,
estenderá
as suas mãos,
e
outro colocará o cinto em você,
e o levará para onde você não quer
ir. (Jo 21,18)
Quando medito sobre esse cenário, tento imaginar como Jesus transmitiu essas
últimas palavras a Pedro. Imagino o Senhor,
olhando nos olhos de seu amigo, enquanto lhe
falava com carinho e com calma e segurança.
O Pai tem um plano para Pedro:
não será fácil, mas sua vida terá sentido
e valor. É dado a Pedro um mandato para uma
vida de caridade pastoral, mas o que “glorificará
Deus” será sua morte. E as palavras finais
de Jesus a Pedro (Jo 21, 19, repetido no versículo
22) são as mesmas das primeiras palavras ditas
a ele nos Evangelhos (isto é, Mc 1, 17): Siga-me.
18. Nesta passagem há muitos elementos
específicos à etapa da vida, que estamos considerando
nesta reflexão. Fico imaginando se a descrição
profética da velhice de Pedro, quando você
ficar mais velho, estenderá as suas mãos e
outro colocará o cinto em você e o levará
para onde você não quer ir, não estaria nos
falando eloqüentemente de uma característica
essencial desse estágio da jornada da vida.
A metáfora de ser colocado o cinto e ser levado
para onde não se quer ir parece ser uma descrição
bastante apta à inevitável experiência de
perda, que acompanha a pessoa na terceira
idade.
A perda na terceira idade
19. É fácil perceber a realidade
de perda nos sofrimentos individuais suportados
por alguns confrades, para os quais o envelhecer
tem-se manifestado em doenças desgastantes,
confinamento à cama e total dependência dos
outros. Mas, não é verdade que o envelhecer
traz um processo de perdas a qualquer pessoa,
não importando qual seja o seu estado de saúde?
Mesmo nos casos dos anciães mais vigorosos,
está havendo uma consciência mais profunda
quanto à natureza transitória das coisas.
Os dias, as semanas e os anos parecem voar,
sem que se perceba sua passagem sorrateira.
Tem-se aquela sensação estranha de que algo
está terminando e expressamos isso através
de palavras como o “entardecer” ou o “outono”
da vida. A jornada vai levando-nos aonde preferiríamos
não ir. Antes de ficarmos diante da dissolução
final, isto é, da própria morte, já teremos
encarado muitas pequenas mortes, que marcam
o percurso de nossa peregrinação.
20. A vida na terceira idade é um
confronto com a perda, que aparece em muitas
formas e matizes. Há a debilitação física
causada pela idade, que traz consigo o desconforto
e mesmo um terrível sofrimento. Pode haver
uma deteriorização de nossa capacidade mental
e até demência. A morte de nossos amigos mais
próximos na Congregação e de parentes pode
levar-nos a sentimentos de solidão. A perda
experimentada no envelhecimento não está limitada
apenas ao corpo, à mente e às relações humanas.
Também atinge nossa concepção do missionário
redentorista, forçando-nos a repensarmos o
significado de nossa profissão religiosa na
etapa avançada da vida. Nosso fundador com
toda a certeza deparou-se com esta realidade.
A experiência de Afonso
21. Se você visitou a cidade de
Scala, o berço de nossa Congregação, com certeza
deve ter parado para fazer uma oração na capela,
que hoje protege a gruta de Afonso. Esta gruta
era o oásis de nosso pai, nas tumultuadas
semanas e meses que se seguiram ao evento
marcante de 9 de novembro de 1732. Afonso vinha a essa pequena gruta
e passava horas em oração: ponderando os primeiros
passos frágeis de sua Congregação, lamentando
o êxodo de praticamente todos os seus companheiros
e procurando forças em Deus e em sua Mãe.
Hoje o visitante vê apenas uma simples placa
de madeira num canto da gruta, onde estão
inscritas palavras de Afonso, conforme Tannoia,
seu primeiro biógrafo: “Ó minha gruta, ó minha
gruta: oxalá eu possa me deleitar novamente
nesta minha gruta” (II, 97). Essas palavras são atribuídas
a um Afonso ancião, que sonhava em retornar
àquela “cela mística, da qual ele emergiu
inebriado pelo amor de Deus e por uma paixão
sem reservas pela salvação de almas” (Tannoia,
ibid.).
22. Sugiro que Afonso não está apenas
ansioso por um lugar específico de oração.
Ele está lamentando o enfraquecimento daquele
homem de 38 anos que orava na gruta. Talvez,
aos olhos de Afonso ancião, tudo tenha parecido
mais claro naquela pequena gruta. Lá, naqueles
tempos idos, ele teria uma idéia mais precisa
de quem ele era e o que ele devia fazer. Quarenta
anos mais tarde, depois de deixar a diocese
e voltar a Pagani, Afonso deveria redescobrir
o significado de ser redentorista. Não podia
mais fundamentar sua identidade na pregação
de missões – já não pregava mais missão há
mais de 20 anos. Nem podia reassumir a posição
de ter a última palavra entre seus co-irmãos.
André Villani, o Vigário Geral, governava
a Congregação durante a longa ausência de
seu fundador e não abdicou desse cargo, quando
Afonso retornou de Sant’Ágata dei Goti. É
verdade que Afonso continuaria a escrever
e certamente em alguns assuntos teria sua
palavra de peso, como foi o caso de sua rejeição
categórica ao quarto ornamentado, que tinha
sido preparado para ele. Mas ter um quarto
simples, como qualquer outro confrade, não
bastava: Afonso teria de redescobrir o que
significava para ele ser um redentorista em
sua terceira idade, especialmente, o que significava
ser um irmão entre seus irmãos na comunidade.
23. A maioria de nós encontrou –
ou ainda encontrará – nossa própria “gruta”.
Mais que um lugar, esta “gruta” é a memória
de si mesmo, num tempo da vida em que a gente
se sentia mais vivaz e entusiasta, mais missionário,
mais engajado em projetos de vida. Olhando
aquela etapa da nossa vida repousando irredutivelmente
no passado e sabendo que não poderá mais ser
recriada, pode causar um tipo de emoção amargo-doce,
que Afonso provavelmente sentiu em sua saudade
pela sua “gruta”. Essa perda faz parte do
ser humano e precisa ser trabalhada. O que
parece ser um obstáculo, no entanto, ao crescimento
espiritual, é a falta de habilidade ou a falta
de vontade em aceitar as perdas que acompanham
o envelhecimento, especialmente a sensação
de sentir-se diminuído, quando não pode mais
fazer trabalhos apostólicos ou assumir responsabilidades
na (V)Província, como antigamente.
24. Todos os mestres de espiritualidade
insistem em afirmar que o auto-conhecimento
é um alicerce indispensável, sobre o qual
a vida em Deus é construída e desenvolvida.
Portanto, o grande inimigo da espiritualidade
é a negação, isto é, a recusa auto-destruidora
de aceitar o meu eu e as circunstâncias nas
quais me encontro. No caso do redentorista
que envelhece, a negação pode tomar a forma
de querer reassumir sua “gruta” ou agarrar-se
teimosamente ao que ele acredita terem sido
seus dias de glória. Tal negação é difícil
e até impossível de se manter, mas há confrades
que resistem a todas as tentativas em reduzir
suas atividades apostólicas, mesmo quando
fica perfeitamente claro que não têm mais
as energias ou a formação atualizada para
continuar a desempenhá-las. Às vezes, um superior
deve tomar a difícil decisão de remover um
confrade de um ministério que o está suplantando.
Ou, como pode acontecer, depois de deixarem
apostolados que ocuparam a maior parte de
sua vida, confrades tornam-se obsessivos sobre
sua saúde física, consultas médicas, televisão
ou qualquer outra distração. Inconscientemente,
eles podem desenvolver uma verdadeira inveja
dos mais jovens, manifestada freqüentemente
através de um deleite maligno em apontar os
defeitos e os insucessos dos confrades novos.
O fato de alguns confrades de idade avançada
tornarem-se tiranos na comunidade não é tanto
um resultado de um processo de envelhecimento,
mas muito mais uma decorrência de um fracasso
em aceitar essa nova etapa de sua vida de
peregrinação e em descobrir uma sadia espiritualidade
como redentoristas idosos.
25. Na medida em que avança a peregrinação
da vida, nos tornamos mais conscientes de
sermos conduzidos para onde não escolhemos
ir. A debilitação física e mental, a morte
de amigos e familiares e o encerramento de
envolvimento apostólico, que tem ocupado um
redentorista por muitos anos, são desafios
espirituais particularmente pertinentes aos
últimos estágios da vida. Como podem confrades
nessa etapa da peregrinação encontrar serenidade
e alegria diante dessas perdas?
“Contando tudo o mais como uma perda”…mas
sem derrotismo
26. Na terceira idade, há um paradoxo
reanimador. É o seguinte: ao ser levado aonde
não quer ir, o redentorista, em vez de se
deixar escorregar ladeira abaixo, terminando
na morte, é convidado a almejar por uma liberdade
ainda maior. Essa parece ser a experiência
de pessoas que levam a sério a peregrinação
em direção a Deus: encarar o poder possessivo
do apego a coisas, coisas essas que na realidade
vão diluindo-se na vida. Afonso propôs que
essa liberdade espiritual mais aprofundada
pode ser adquirida, ao reduzir o excessivo
controle que as circunstâncias da vida exercem
sobre a pessoa e assim fica mais livre para
amar a Deus. A este movimento duplo – afastar-se
de apegos excessivos e direcionar-se a Deus
– Afonso chama de distacco. É um valor central
no caminho espiritual proposto por ele na
Prática do Amor a Jesus Cristo. O capítulo
17 desse livro apresenta-nos um contundente
resumo da doutrina afonsiana:
O apego a nossas próprias inclinações desordenadas é o maior obstáculo à verdadeira
união com Deus. Portanto, quando Deus deseja atrair
uma alma a seu amor perfeito, Ele faz com
que ela se desapegue de qualquer afeição às
coisas criadas. Assim, Ele a priva de bens
temporais, de amigos, de prazeres mundanos,
de posses, honras, amigos, relacionamentos
e saúde física. Através dessas perdas, problemas,
esquecimentos, postergações e enfermidades,
Ele retira gradualmente todos os apegos terrenos,
para que todos os sentimentos e afeições se
concentrem unicamente n’Ele.
27. A referência ao distacco não
faz você se lembrar das muitas conferências
sobre este assunto no noviciado? Talvez os
obstáculos concretos a uma maior união com
Deus, encontrados em Afonso e seus contemporâneos
napolitanos – os tentáculos de uma família
dominante, o brilho de honras mundanas – não
sejam os nossos problemas hoje. Mas, no fundo,
o que Afonso nos diz é que devemos examinar
com honestidade nossa vida e perceber quem
ou o que tem a última palavra em nosso coração.
Porque é em nossos corações que Deus deseja
ardorosamente habitar. No capítulo 11 da Prática,
Afonso pergunta: Você tem um coração suficientemente
vazio, para ser preenchido pelo Espírito Santo?
28. Não se pode escapar do fato
de que não é fácil adquirir maior união com
Deus. Muitos de nós temos medo de continuar
nesse caminho, porque envolve sofrimento.
Mas, qual é a alternativa? Poderíamos tentar
nos anestesiar: usando o trabalho, o prestígio,
o relacionamento, a bebida, o medo ou o ressentimento,
para assim nos distrairmos do tempo que passa
e de suas inevitáveis conseqüências. Mas,
em nossos momentos sóbrios, aterrorizados,
teríamos de encarar o tempo, não mais como
um kairós, no qual Deus se revela a nós, mas
como um inimigo, onde a vida, como se fosse
um líquido, escorre por entre os dedos de
nossas mãos.
29. Embora tentemos, não podemos
mudar a maioria das coisas que acontecem a
nós. Esta verdade, válida em qualquer momento
de nossa vida, parece ficar particularmente
clara, na medida em que avançamos na idade.
O que realmente está em nosso poder é determinar
como as pessoas, os lugares e as coisas nos
afetam. Afonso ajuda-nos a entender como podemos
transformar as perdas que acompanham a terceira
idade, ao fazer um convite para abandonarmo-nos
aos cuidados de Deus, descobrindo e re-descobrindo
a profundidade de seu amor fiel a nós.
Um caminho de Distacco
30. Paulo propõe o caminho de distacco
em sua carta aos Filipenses. O terceiro capítulo
pode ser uma fonte excelente de meditação
para a terceira idade. Como Paulo descreve
sua peregrinação em direção a Deus? Ele começa com uma prática comum a
pessoas de idade: faz um levantamento de sua
vida (Fl 3, 4-6). Não
se desculpa pelo seu passado, mas o olha de
uma maneira nova: “Tudo que eu considerava
como lucro, agora considero como perda, por
causa de Cristo” (v. 7). Longe de tomar um
caminho seguro, Paulo coloca tudo em risco:
E
mais ainda: considero tudo uma perda,
diante do bem supremo, que é o conhecimento
do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa
dele, perdi tudo e considero tudo como
lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar
com ele. E isso, não mais mediante uma
justiça minha, vinda da Lei, mas com a
justiça que vem através da fé em Cristo,
aquela justiça que vem de Deus e se apóia
sobre a fé. Quero, assim, conhecer a Cristo,
o poder da sua ressurreição e a comunhão
em seus sofrimentos, para tornar-me semelhante
a ele em sua morte, a fim de alcançar,
se possível, a ressurreição dos mortos. (Fl 3, 8-11)
31. Paulo está consciente de que
ele não chegou à meta, mas que está sendo
conduzido na direção certa. Ele decide aceitar
o que acontece, inclusive a perda de tudo
o que ele pensava ser importante em sua vida,
como um preço, a fim de ganhar Cristo Jesus.
Ele não despreza em si, as coisas que perde, mas simplesmente não vê comparação
entre estas e o valor inestimável de seu relacionamento
com Cristo Jesus.
A liberdade para amar
32. Paulo e Afonso ensinam que a
perda pode trazer maior liberdade espiritual,
isto é, a liberdade de amar mais e sem reservas.
Um modo peculiar redentorista de amar
é chamado por nossas constituições de “caridade
apostólica”; esta é a nossa participação na
missão de Cristo e o princípio unificador
de nossa vida (cf. Constituição 52). A caridade
apostólica presume que “a glória de Deus e
a salvação do mundo sejam uma só coisa” e
que “o amor para com Deus e o amor para com
as pessoas sejam a mesma coisa” (Constituição
53). Portanto, em cada estágio de nossa peregrinação,
nós redentoristas somos chamados a “viver
a união com Deus sob a forma da caridade apostólica
e procurar a glória de Deus através da caridade
missionária” (Constituição 53). O XXII Capítulo Geral reconheceu
que o chamado à caridade apostólica permeia
a vida toda, quando recomendou:
Cada membro da Congregação, de qualquer
idade, busque ser fiel no serviço aos
mais abandonados, especialmente os pobres,
por quem fizemos opção no dia de nossa
profissão. (Orientações, 2.4).
33. Certamente, há ministérios que
redentoristas idosos podem desempenhar junto
aos mais abandonados, especialmente junto
aos pobres. Por exemplo, acho que podem levar,
com muita eficiência, a compaixão, o consolo
e a esperança aos idosos e doentes. Mas, por
excelência, o lugar onde muitos redentoristas
da terceira idade são chamados a praticar
a caridade apostólica é dentro de sua própria
comunidade, cuja vida é em si a principal
forma de proclamação do Evangelho (XXII Capítulo
Geral, Orientações, 3). Acredito serem
dois os serviços peculiares que redentoristas
idosos podem desempenhar em nossas comunidades.
O primeiro é o que o próprio Afonso esforçou-se por desempenhar. Em
novembro de 1774, quando se preparava para
retornar de Sant’Ágata, ele escreveu: “Quando
eu voltar a uma de nossas casas, eu poderia
ser útil aos confrades, especialmente aos
jovens”. Talvez Afonso tenha pensado em ser
um assessor aos estudantes nas homilias ou
em teologia moral. Seus biógrafos afirmam
que o exemplo de sua vida na terceira idade
causou um impacto nos confrades jovens. Um
redentorista idoso que não se deixa abater
por sofrimentos ou limitações da idade, mas
vive a alegria, o amor e a esperança, é um
incentivo incalculável aos confrades jovens.
34. O segundo serviço refere-se
a detalhes de nossa vida comum. Tem-se observado
que, freqüentemente, na procura em fazer coisas
fantásticas, perdemos a oportunidade de fazer
coisas simples, mas importantes, porque a
ação em si parece não merecer nossa atenção.
Os idosos em nossas comunidades podem dar
uma grande contribuição à qualidade de nossa
vida comum, desempenhando tarefas simples.
Lembro-me como a generosidade
de um padre idoso ajudou no trabalho de todos
os membros de uma comunidade muito atarefada;
embora um ataque cardíaco o tenha deixado
semi-paralítico, todas as noites ele se dispunha
em atender aos telefonemas, enquanto os confrades
estavam ocupados com as atividades pastorais
de uma paróquia movimentada. Também me lembro, em minha primeira visita a Roma, de ver o ancião Bernhard
Häring cuidando das flores no jardim da comunidade.
Com certeza, cada um de nós já foi tocado
pela generosidade de um confrade idoso.
Descobrindo o melhor vinho, no final
(Jo 2, 10)
35. João da Cruz lembra-nos que,
no entardecer de nossa vida, seremos julgados
com referência ao amor. Talvez seja por isso
que no lusco-fusco da vida de peregrinação,
passamos por perdas, para que possamos ficar
mais livres para amar. É-nos recomendado,
como missionários, não carregar muita bagagem.
No final da peregrinação, o que precisamos
realmente é o amor. Amar a Deus como Ele merece
ser amado, e amar uns aos outros como irmãos.
O amor de um redentorista idoso, expresso
em maneira simples e comum, pode deixar um
impacto duradouro nos confrades, especialmente
nos jovens.
36. É o amor que “envelhece” nosso
espírito, como a ação do tempo curte e “envelhece”
o bom vinho. No poente da vida, o amor nos
dará sabor e paladar, não o amargo-azedo picante
do vinagre. Este tipo de amor nunca será totalmente
conseguido por nós, mas deve ser nosso objetivo
durante uma vida toda de conversão do coração
e renovação constante do espírito (Constituição
41). No dia 24 de novembro de 2000, o Padre
Josef Pfab, Superior Geral emérito encerrou
sua peregrinação. Em seu funeral, um padre
jovem me falou de seu último encontro com
Padre Josef. Foi uns dois dias antes de sua
morte, quando estavam para celebrar a Missa
no quarto do hospital. O padre mais jovem
perguntou-lhe pelo que deveriam rezar. Padre
Josef respondeu: “Rezem para que eu seja convertido
na hora de minha morte”. Paulo teve o mesmo
desejo: Esqueço-me do que fica para trás e
avanço para o que está na frente. Lanço-me
em direção à meta, em vista do prêmio do alto,
que Deus nos chama a receber em Jesus Cristo.
(Fl 3, 13-14).
37. Que Maria, nossa Mãe, cuja presença
orante acompanhou a primeira comunidade apostólica
e que não hesitou em se colocar a serviço
dos outros, nos ajude a sermos fiéis todos
os dias, mas especialmente quando “estivermos
sofrendo e morrendo pela salvação do mundo”.
Fraternalmente
em Cristo Redentor,
Joseph
W. Tobin, C.Ss.R.
Superior Geral
(O texto original é
em inglês.)
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