Communicanda III

  

DESCOBRINDO O MELHOR VINHO, NO FINAL
Reflexões sobre a terceira idade

 

COMMUNICANDA N° 3
Roma, 8 de dezembro de 2000
Prot. N° 0000 0265/99



Caros confrades:

1.         Saúdo fraternalmente cada um de vocês, em Cristo Jesus. Os membros do Conselho Geral unem-se a mim para estender os mais profundos desejos de bênçãos abundantes nesse Novo Ano. Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre com todos vocês.

Na segunda Communicanda deste Conselho Geral, Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho (14 de janeiro de 1999), manifestei minha intenção de dedicar uma futura carta à questão das “exigências espirituais pertinentes à terceira idade” (n° 41). A presente reflexão é uma tentativa de cumprir esse compromisso.

2.         Inicialmente, explico o que entendo por terceira idade. Se é verdade que a primeira idade na vida de uma pessoa é o período de educação e a segunda, marcada pela produção e uma vida de trabalho, a terceira é freqüentemente usada para referir-se àquele tempo em que o trabalho central da pessoa já está encerrado. Embora eu esteja pensando em você, que já começou a viver a terceira idade, escrevo esta mensagem a cada confrade na Congregação. Independente da idade, como a constituição 55 nos lembra, somos todos irmãos na mesma família e partilhamos da mesma vocação: cada um de nós é um missionário e continuamos a ser missionários a vida toda. Em cada estágio de nossa vida e em qualquer que sejam as circunstâncias nas quais nos encontramos, devemos procurar viver mais intensamente nossa consagração religiosa. Além disso, viver em comunidade e por meio da comunidade realizar o trabalho apostólico é uma lei essencial para nós (Constituição 21). Esta mesma Constituição nos diz que “a comunidade não é somente a convivência material dos congregados, mas, ao mesmo tempo, comunhão de espírito e de fraternidade”. Devemos pôr em comum nossas forças e fraquezas, nossos dons e limitações, por amor à Missão ou Carisma, que conferem um significado às nossas vidas. Cada comunidade, portanto, deve encarar a questão do envelhecimento e suas conseqüências aos missionários redentoristas.

Por que devemos refletir sobre esta questão?

3.         Assim como diversas sociedades, a Congregação está enfrentando uma nova realidade: o número de confrades idosos está crescendo rapidamente. Neste momento em que lhes escrevo, dentre os 5.569 membros professos na Congregação, 520 ultrapassam os 80 anos e 948 já estão na casa dos setenta. Isso significa que 26% dos membros da Congregação estão acima dos 70 anos. É verdade que temos sido abençoados com muitos membros jovens: há mais redentoristas professos nos seus 20 anos que aqueles com mais de 80, e mais nos seus 30 anos que aqueles com mais de 70. Mas a Congregação nunca antes teve tão grande grupo de anciães entre seus membros. É um fato que não podemos ignorar, porque nos apresenta um desafio, que devemos encarar para que possamos amadurecer conjunta e fielmente, como uma comunidade, enviada a pregar e ser testemunha da Boa-Nova do Reino.

4.         Os redentoristas estão não só vivendo mais longamente, mas muitos confrades chegam aos 70 e 80 anos de vida em melhores condições de saúde do que no passado. Ao mesmo tempo, há um significativo aumento da necessidade de seguros de saúde para redentoristas seriamente enfermos. Mas, o desafio mais profundo para os redentoristas idosos não se refere aos problemas de saúde, mas sim ao como viverem sua consagração religiosa, especialmente quando estão no limite, ou freqüentemente, incapacitados de exercerem atividades pastorais. Nessa etapa da vida, redefinir ou reformar sua identidade concreta como missionário, pode até ameaçar a própria autoconfiança e auto-estima.

5.         Diferentes culturas têm atitudes diversas quanto ao envelhecimento e à terceira idade. Algumas reverenciam seus anciães; o simples fato de ter alcançado certa idade confere à pessoa uma dignidade que exige respeito na comunidade. O que me preocupa é um mundo cultural emergente que idolatra a juventude, a energia e a flexibilidade, enquanto ignora ou tenta “esconder” o ancião. Essa perspectiva cultural causa tanta ansiedade, que muitas pessoas fazem de tudo para “permanecer” jovem. O idoso é encorajado a sair do caminho, a deixar o fórum político, a transformar-se em um ser pacífico e tranquilo, a não ser levado a sério e a não ser desafiado a contribuir com a sua sociedade. Para o ser humano, o trabalho e a dignidade estão a tal ponto relacionados que, a incapacidade de trabalhar, o deixa com a vida sem sentido. E por fim, o fato da morte ter-se tornado um tabu: não deve ser discutida em círculos educados e não deve ser considerada uma passagem para a qual devemos conscientemente nos preparar.

As circunstâncias da Congregação

6.         Devemos reconhecer que a Congregação está sendo influenciada por essa ambivalência etária. Em algumas partes do mundo, a “aposentadoria”, na noção secularizada, tem afetado acentuadamente a vida dos redentoristas. É assumido como natural que um confrade deve maneirar suas atividades, quando atinge certa idade. Em alguns casos, não esperamos do redentorista idoso assumir responsabilidades pesadas na comunidade, independente de seu estado de saúde física ou mental. Alguns redentoristas visualizam a aposentadoria como um direito adquirido e portanto, quando chegam a esta idade, esperam ficar livres de suas obrigações na comunidade, para dedicar-se a seus próprios interesses. Há (V)Províncias no primeiro mundo, onde os recebimentos de aposentadoria tornam-se um grande problema, porque o confrade considera este recebimento, como uma posse pessoal. Vezes há, em que o cuidado aos confrades idosos concentra-se quase que exclusivamente aos problemas de saúde, negligenciando as necessidades espirituais específicas dessa idade.

7.         Em nossas visitas às (V)Províncias, eu e os membros do Conselho Geral somos freqüentemente edificados por confrades idosos, que intensificam sua identidade missionária, na medida em que os anos passam e que têm a habilidade de partilhar com os outros, especialmente com os jovens, a sabedoria que eles têm adquirido. A cada ano, recebo cartas de nossos jubilares: irmãos e padres que celebram cinqüenta ou mais anos de vida na Congregação. Essas cartas resplandecem de gratidão, humildade e zelo. Freqüentemente, sou levado a partilhar esses testemunhos com os membros do Governo Geral.

8.         Infelizmente, a velhice não é algo que automaticamente garanta esses sentimentos. Durante as visitas, também encontramos redentoristas desapontados, desiludidos e até amargurados. Em situação mais grave estão os confrades angustiados, devido às mudanças rápidas pelas quais passaram tanto na Igreja como em nosso Instituto. Alguns deles fazem o julgamento de que a Congregação tornou-se infiel a seu Carisma e Missão na Igreja e concluem que Deus tem retirado sua bênção da Congregação.

9.         Essas são algumas das situações e preocupações que me levam a escrever esta carta. Gostaria de lhes apresentar algumas reflexões, a partir da perspectiva do último Capítulo Geral, que nos incentivou a considerar a espiritualidade como “o prisma através do qual vejamos todas as dimensões de nossa vida” (Mensagem Final, 5). Minha intenção é convidar cada um de vocês a refletir o “como nutrimos e manifestamos nossa relação de fé com Jesus” (Mensagem Final, 3), também como uma comunidade sob o aspecto da velhice e do desafio para uma conversão, para que possamos seguir Jesus mais de perto, em qualquer que seja a etapa de nossa vida missionária.

10.       Há também razões pessoais, que motivam esta carta. Tive o privilégio e a graça de ter passado meus primeiros anos na Congregação com um bom número de confrades maravilhosos, já na terceira idade. Suas palavras e exemplos ainda hoje continuam a me influenciar. Esses redentoristas partilharam comigo seus segredos na pregação da Palavra, ensinaram-me a amar a Congregação e a ter esperança no futuro. Muitos deles já morreram e, eu espero, estão agora saboreando plenamente as doçuras de Deus. Com profunda gratidão, dedico esta carta a todas essas testemunhas fiéis, esperando que estas reflexões me ajudem a me preparar para ser um bom redentorista idoso em meus anos futuros, quando eu também poderei ajudar jovens confrades no início de sua própria peregrinação.

A Vida como uma peregrinação

11.       Peregrinação é uma experiência sagrada encontrada nas grandes religiões e em muitas culturas. É muito interessante que a noção de peregrinação persiste em algumas sociedades, onde o resto das expressões religiosas já foi dissipado por influência da secularização. Talvez isso aconteça porque a peregrinação é um tipo de paradigma da própria experiência humana. Pensamos, ou pelo menos esperamos, que nossas vidas não devam ser entendidas simplesmente como produtos de colisões casuais de átomos, como um destino cego ou como uma necessidade biológica. Pensamos que nossas vidas começaram num determinado lugar e prosseguem para outro. Justamente como peregrinos, movemo-nos em direção a um santuário invisível e procuramos encontrar significado à jornada de nossas vidas “caminhando” em direção ao lugar ou a Pessoa, que freqüentemente apenas visualizamos “como em espelho e de maneira confusa” (1Cor 13, 12).

12.       A sacralidade da peregrinação não deve ser vivenciada apenas na chegada ao objetivo desejado. A vocação do peregrino é vivida a cada dia, a cada hora e a cada minuto da jornada: em cada passo dado na fé. Ao caminharmos pela jornada da vida, estamos conscientes de um paradoxo: mudamos radicalmente ao longo da caminhada e ao mesmo tempo permanecemos o mesmo. Podemos traçar estágios importantes ou segmentos identificáveis através dos quais passamos, enquanto o cerne de nossa identidade misteriosamente permanece imutável. Uma metáfora simples desse paradoxo é o “dia”, que tem uma manhã, um meio-dia, uma tarde e uma noite, todos entendidos distintamente e no entanto, fundidos numa só unidade. Embora unidas, cada uma das fases da vida tem um valor autônomo, que deve ser apreciada em si e não simplesmente como uma preparação à próxima etapa.

13.       Às vezes acontece que circunstâncias impelem uma pessoa a avançar prematuramente ao próximo segmento da vida. Penso na realidade que parte o coração: as crianças que são obrigadas pela pobreza a assumir responsabilidades de adultos, como providenciar alimento à família, ou cuidar de seus pais doentes. Consideramos uma tragédia quando uma vida humana encerra-se prematuramente, antes que a pessoa tenha tido a oportunidade de se desenvolver e “viver” verdadeiramente. E também é possível resistirmos à passagem de um estágio ao outro na jornada, como aquele adulto que deseja permanecer adolescente para sempre. Tal luta é inútil e frustrante, porque na realidade estamos constantemente sendo confrontados pela evidência de que, queiramos ou não, sucessivamente passamos de um estágio para o outro. Em outras palavras, somos sempre lembrados de que estamos envelhecendo.

14.       Uma consciência do envelhecimento tem influenciado vários escritores espirituais, como por exemplo, o Apóstolo Paulo e o Papa João Paulo II. Paulo usou a metáfora do crescimento humano ou o envelhecimento para descrever o crescimento do discípulo (e.g. 1Cor 3, 1-2; 13, 11). Em sua exortação apostólica Vita Consecrata (1996), João Paulo II encoraja os religiosos a reconhecerem os estágios diferentes da vida e a nunca deixarem de trabalhar pelo crescimento humano e como pessoas consagradas, já que “em nenhuma fase da vida se pode considerar tão segura e fervorosa que exclua a conveniência de cuidados específicos para garantir a perseverança na fidelidade, tal como não existe idade que chegue ver consumada a maturação da pessoa” (69).

15.       O que significa ser um redentorista, quando não mais exerce o tipo de apostolado ou responsabilidade que tinha anteriormente? Graças a Deus, uma resposta da Congregação a essa situação não começa com esta presente carta. Muitas (V)Províncias já têm uma política especial para atender às necessidades físicas e emocionais dos confrades que envelhecem. É possível oferecer uma ampla bibliografia de escritores espirituais contemporâneos, inclusive redentoristas, que refletem sobre os desafios especiais do confrade na terceira idade. Espero que os confrades e Governos (V)Provinciais estejam a par de tais fontes e que façam uso delas. Talvez esta carta sirva para estimular a considerar o número crescente dos confrades que envelhecem na Congregação, reconhecendo que suas necessidades vão além do cuidado com a saúde e ocupações com passatempo, já que eles não se aposentam da profissão religiosa, o “ato que define toda a vida missionária dos redentoristas” (Constituição 54).

16.       Gostaria de delimitar o escopo destas reflexões, sem pretender esgotar o assunto sobre o que significa envelhecer. Primeiro, concentrar-me-ei em um aspecto do envelhecimento, isto é, o aspecto da perda, e depois gostaria de refletir se essa experiência seria ou não uma oportunidade para um crescimento espiritual. O que segue poderia ser ampliado e enriquecido por vocês, especialmente pelos confrades idosos, visto que têm condições de contemplar as experiências de vida à luz de uma sabedoria, disponível somente na terceira idade. Que a Congregação continue descobrindo maneiras pelas quais possa ajudar redentoristas na terceira idade a se aprofundarem no compromisso com o Redentor, ao mesmo tempo em que tenha um apreço pelo modo especial em que estes confrades vivem nosso Carisma.

Ser conduzido aonde não quer ir

17.       Entre os vários encontros dos discípulos con o Senhor Ressuscitado, o descrito no epílogo do Evangelho de João é um dos mais comoventes. A narrativa refere-se à aparição de Jesus na praia de Tiberíades e conta detalhes cativantes: a identificação errônea, a pesca milagrosa, o mergulho impetuoso nas águas e uma refeição à moda da casa. A narrativa continua com uma tríplice profissão de amor de Pedro e o mandato do Senhor para uma vida de caridade apostólica.

Então, Jesus fala como aquela vida terminará, dando glória a Deus:

Eu garanto a você:

Quando você era mais moço,
você colocava o cinto,
e ia para onde queria.
Quando você ficar mais velho,
estenderá as suas mãos,
e outro colocará o cinto em você,
e o levará para onde você não quer ir. (Jo 21,18)

Quando medito sobre esse cenário, tento imaginar como Jesus transmitiu essas últimas palavras a Pedro. Imagino o Senhor, olhando nos olhos de seu amigo, enquanto lhe falava com carinho e com calma e segurança. O Pai tem um plano para Pedro: não será fácil, mas sua vida terá sentido e valor. É dado a Pedro um mandato para uma vida de caridade pastoral, mas o que “glorificará Deus” será sua morte. E as palavras finais de Jesus a Pedro (Jo 21, 19, repetido no versículo 22) são as mesmas das primeiras palavras ditas a ele nos Evangelhos (isto é, Mc 1, 17): Siga-me.

18.       Nesta passagem há muitos elementos específicos à etapa da vida, que estamos considerando nesta reflexão. Fico imaginando se a descrição profética da velhice de Pedro, quando você ficar mais velho, estenderá as suas mãos e outro colocará o cinto em você e o levará para onde você não quer ir, não estaria nos falando eloqüentemente de uma característica essencial desse estágio da jornada da vida. A metáfora de ser colocado o cinto e ser levado para onde não se quer ir parece ser uma descrição bastante apta à inevitável experiência de perda, que acompanha a pessoa na terceira idade.

A perda na terceira idade

19.       É fácil perceber a realidade de perda nos sofrimentos individuais suportados por alguns confrades, para os quais o envelhecer tem-se manifestado em doenças desgastantes, confinamento à cama e total dependência dos outros. Mas, não é verdade que o envelhecer traz um processo de perdas a qualquer pessoa, não importando qual seja o seu estado de saúde? Mesmo nos casos dos anciães mais vigorosos, está havendo uma consciência mais profunda quanto à natureza transitória das coisas. Os dias, as semanas e os anos parecem voar, sem que se perceba sua passagem sorrateira. Tem-se aquela sensação estranha de que algo está terminando e expressamos isso através de palavras como o “entardecer” ou o “outono” da vida. A jornada vai levando-nos aonde preferiríamos não ir. Antes de ficarmos diante da dissolução final, isto é, da própria morte, já teremos encarado muitas pequenas mortes, que marcam o percurso de nossa peregrinação.

20.       A vida na terceira idade é um confronto com a perda, que aparece em muitas formas e matizes. Há a debilitação física causada pela idade, que traz consigo o desconforto e mesmo um terrível sofrimento. Pode haver uma deteriorização de nossa capacidade mental e até demência. A morte de nossos amigos mais próximos na Congregação e de parentes pode levar-nos a sentimentos de solidão. A perda experimentada no envelhecimento não está limitada apenas ao corpo, à mente e às relações humanas. Também atinge nossa concepção do missionário redentorista, forçando-nos a repensarmos o significado de nossa profissão religiosa na etapa avançada da vida. Nosso fundador com toda a certeza deparou-se com esta realidade.

A experiência de Afonso

21.       Se você visitou a cidade de Scala, o berço de nossa Congregação, com certeza deve ter parado para fazer uma oração na capela, que hoje protege a gruta de Afonso. Esta gruta era o oásis de nosso pai, nas tumultuadas semanas e meses que se seguiram ao evento marcante de 9 de novembro de 1732. Afonso vinha a essa pequena gruta e passava horas em oração: ponderando os primeiros passos frágeis de sua Congregação, lamentando o êxodo de praticamente todos os seus companheiros e procurando forças em Deus e em sua Mãe. Hoje o visitante vê apenas uma simples placa de madeira num canto da gruta, onde estão inscritas palavras de Afonso, conforme Tannoia, seu primeiro biógrafo: “Ó minha gruta, ó minha gruta: oxalá eu possa me deleitar novamente nesta minha gruta” (II, 97). Essas palavras são atribuídas a um Afonso ancião, que sonhava em retornar àquela “cela mística, da qual ele emergiu inebriado pelo amor de Deus e por uma paixão sem reservas pela salvação de almas” (Tannoia, ibid.).

22.       Sugiro que Afonso não está apenas ansioso por um lugar específico de oração. Ele está lamentando o enfraquecimento daquele homem de 38 anos que orava na gruta. Talvez, aos olhos de Afonso ancião, tudo tenha parecido mais claro naquela pequena gruta. Lá, naqueles tempos idos, ele teria uma idéia mais precisa de quem ele era e o que ele devia fazer. Quarenta anos mais tarde, depois de deixar a diocese e voltar a Pagani, Afonso deveria redescobrir o significado de ser redentorista. Não podia mais fundamentar sua identidade na pregação de missões – já não pregava mais missão há mais de 20 anos. Nem podia reassumir a posição de ter a última palavra entre seus co-irmãos. André Villani, o Vigário Geral, governava a Congregação durante a longa ausência de seu fundador e não abdicou desse cargo, quando Afonso retornou de Sant’Ágata dei Goti. É verdade que Afonso continuaria a escrever e certamente em alguns assuntos teria sua palavra de peso, como foi o caso de sua rejeição categórica ao quarto ornamentado, que tinha sido preparado para ele. Mas ter um quarto simples, como qualquer outro confrade, não bastava: Afonso teria de redescobrir o que significava para ele ser um redentorista em sua terceira idade, especialmente, o que significava ser um irmão entre seus irmãos na comunidade.

23.       A maioria de nós encontrou – ou ainda encontrará – nossa própria “gruta”. Mais que um lugar, esta “gruta” é a memória de si mesmo, num tempo da vida em que a gente se sentia mais vivaz e entusiasta, mais missionário, mais engajado em projetos de vida. Olhando aquela etapa da nossa vida repousando irredutivelmente no passado e sabendo que não poderá mais ser recriada, pode causar um tipo de emoção amargo-doce, que Afonso provavelmente sentiu em sua saudade pela sua “gruta”. Essa perda faz parte do ser humano e precisa ser trabalhada. O que parece ser um obstáculo, no entanto, ao crescimento espiritual, é a falta de habilidade ou a falta de vontade em aceitar as perdas que acompanham o envelhecimento, especialmente a sensação de sentir-se diminuído, quando não pode mais fazer trabalhos apostólicos ou assumir responsabilidades na (V)Província, como antigamente.

24.       Todos os mestres de espiritualidade insistem em afirmar que o auto-conhecimento é um alicerce indispensável, sobre o qual a vida em Deus é construída e desenvolvida. Portanto, o grande inimigo da espiritualidade é a negação, isto é, a recusa auto-destruidora de aceitar o meu eu e as circunstâncias nas quais me encontro. No caso do redentorista que envelhece, a negação pode tomar a forma de querer reassumir sua “gruta” ou agarrar-se teimosamente ao que ele acredita terem sido seus dias de glória. Tal negação é difícil e até impossível de se manter, mas há confrades que resistem a todas as tentativas em reduzir suas atividades apostólicas, mesmo quando fica perfeitamente claro que não têm mais as energias ou a formação atualizada para continuar a desempenhá-las. Às vezes, um superior deve tomar a difícil decisão de remover um confrade de um ministério que o está suplantando. Ou, como pode acontecer, depois de deixarem apostolados que ocuparam a maior parte de sua vida, confrades tornam-se obsessivos sobre sua saúde física, consultas médicas, televisão ou qualquer outra distração. Inconscientemente, eles podem desenvolver uma verdadeira inveja dos mais jovens, manifestada freqüentemente através de um deleite maligno em apontar os defeitos e os insucessos dos confrades novos. O fato de alguns confrades de idade avançada tornarem-se tiranos na comunidade não é tanto um resultado de um processo de envelhecimento, mas muito mais uma decorrência de um fracasso em aceitar essa nova etapa de sua vida de peregrinação e em descobrir uma sadia espiritualidade como redentoristas idosos.

25.       Na medida em que avança a peregrinação da vida, nos tornamos mais conscientes de sermos conduzidos para onde não escolhemos ir. A debilitação física e mental, a morte de amigos e familiares e o encerramento de envolvimento apostólico, que tem ocupado um redentorista por muitos anos, são desafios espirituais particularmente pertinentes aos últimos estágios da vida. Como podem confrades nessa etapa da peregrinação encontrar serenidade e alegria diante dessas perdas?

“Contando tudo o mais como uma perda”…mas sem derrotismo

26.       Na terceira idade, há um paradoxo reanimador. É o seguinte: ao ser levado aonde não quer ir, o redentorista, em vez de se deixar escorregar ladeira abaixo, terminando na morte, é convidado a almejar por uma liberdade ainda maior. Essa parece ser a experiência de pessoas que levam a sério a peregrinação em direção a Deus: encarar o poder possessivo do apego a coisas, coisas essas que na realidade vão diluindo-se na vida. Afonso propôs que essa liberdade espiritual mais aprofundada pode ser adquirida, ao reduzir o excessivo controle que as circunstâncias da vida exercem sobre a pessoa e assim fica mais livre para amar a Deus. A este movimento duplo – afastar-se de apegos excessivos e direcionar-se a Deus – Afonso chama de distacco. É um valor central no caminho espiritual proposto por ele na Prática do Amor a Jesus Cristo. O capítulo 17 desse livro apresenta-nos um contundente resumo da doutrina afonsiana:

O apego a nossas próprias inclinações desordenadas é o maior obstáculo à verdadeira união com Deus. Portanto, quando Deus deseja atrair uma alma a seu amor perfeito, Ele faz com que ela se desapegue de qualquer afeição às coisas criadas. Assim, Ele a priva de bens temporais, de amigos, de prazeres mundanos, de posses, honras, amigos, relacionamentos e saúde física. Através dessas perdas, problemas, esquecimentos, postergações e enfermidades, Ele retira gradualmente todos os apegos terrenos, para que todos os sentimentos e afeições se concentrem unicamente n’Ele.

27.       A referência ao distacco não faz você se lembrar das muitas conferências sobre este assunto no noviciado? Talvez os obstáculos concretos a uma maior união com Deus, encontrados em Afonso e seus contemporâneos napolitanos – os tentáculos de uma família dominante, o brilho de honras mundanas – não sejam os nossos problemas hoje. Mas, no fundo, o que Afonso nos diz é que devemos examinar com honestidade nossa vida e perceber quem ou o que tem a última palavra em nosso coração. Porque é em nossos corações que Deus deseja ardorosamente habitar. No capítulo 11 da Prática, Afonso pergunta: Você tem um coração suficientemente vazio, para ser preenchido pelo Espírito Santo?

28.       Não se pode escapar do fato de que não é fácil adquirir maior união com Deus. Muitos de nós temos medo de continuar nesse caminho, porque envolve sofrimento. Mas, qual é a alternativa? Poderíamos tentar nos anestesiar: usando o trabalho, o prestígio, o relacionamento, a bebida, o medo ou o ressentimento, para assim nos distrairmos do tempo que passa e de suas inevitáveis conseqüências. Mas, em nossos momentos sóbrios, aterrorizados, teríamos de encarar o tempo, não mais como um kairós, no qual Deus se revela a nós, mas como um inimigo, onde a vida, como se fosse um líquido, escorre por entre os dedos de nossas mãos.

29.       Embora tentemos, não podemos mudar a maioria das coisas que acontecem a nós. Esta verdade, válida em qualquer momento de nossa vida, parece ficar particularmente clara, na medida em que avançamos na idade. O que realmente está em nosso poder é determinar como as pessoas, os lugares e as coisas nos afetam. Afonso ajuda-nos a entender como podemos transformar as perdas que acompanham a terceira idade, ao fazer um convite para abandonarmo-nos aos cuidados de Deus, descobrindo e re-descobrindo a profundidade de seu amor fiel a nós.

Um caminho de Distacco

30.       Paulo propõe o caminho de distacco em sua carta aos Filipenses. O terceiro capítulo pode ser uma fonte excelente de meditação para a terceira idade. Como Paulo descreve sua peregrinação em direção a Deus? Ele começa com uma prática comum a pessoas de idade: faz um levantamento de sua vida (Fl 3, 4-6). Não se desculpa pelo seu passado, mas o olha de uma maneira nova: “Tudo que eu considerava como lucro, agora considero como perda, por causa de Cristo” (v. 7). Longe de tomar um caminho seguro, Paulo coloca tudo em risco:

E mais ainda: considero tudo uma perda, diante do bem supremo, que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar com ele. E isso, não mais mediante uma justiça minha, vinda da Lei, mas com a justiça que vem através da fé em Cristo, aquela justiça que vem de Deus e se apóia sobre a fé. Quero, assim, conhecer a Cristo, o poder da sua ressurreição e a comunhão em seus sofrimentos, para tornar-me semelhante a ele em sua morte, a fim de alcançar, se possível, a ressurreição dos mortos. (Fl 3, 8-11)

31.       Paulo está consciente de que ele não chegou à meta, mas que está sendo conduzido na direção certa. Ele decide aceitar o que acontece, inclusive a perda de tudo o que ele pensava ser importante em sua vida, como um preço, a fim de ganhar Cristo Jesus. Ele não despreza em si, as coisas que perde, mas simplesmente não vê comparação entre estas e o valor inestimável de seu relacionamento com Cristo Jesus.

A liberdade para amar

32.       Paulo e Afonso ensinam que a perda pode trazer maior liberdade espiritual, isto é, a liberdade de amar mais e sem reservas. Um modo peculiar redentorista de amar é chamado por nossas constituições de “caridade apostólica”; esta é a nossa participação na missão de Cristo e o princípio unificador de nossa vida (cf. Constituição 52). A caridade apostólica presume que “a glória de Deus e a salvação do mundo sejam uma só coisa” e que “o amor para com Deus e o amor para com as pessoas sejam a mesma coisa” (Constituição 53). Portanto, em cada estágio de nossa peregrinação, nós redentoristas somos chamados a “viver a união com Deus sob a forma da caridade apostólica e procurar a glória de Deus através da caridade missionária” (Constituição 53). O XXII Capítulo Geral reconheceu que o chamado à caridade apostólica permeia a vida toda, quando recomendou:

Cada membro da Congregação, de qualquer idade, busque ser fiel no serviço aos mais abandonados, especialmente os pobres, por quem fizemos opção no dia de nossa profissão. (Orientações, 2.4).

33.       Certamente, há ministérios que redentoristas idosos podem desempenhar junto aos mais abandonados, especialmente junto aos pobres. Por exemplo, acho que podem levar, com muita eficiência, a compaixão, o consolo e a esperança aos idosos e doentes. Mas, por excelência, o lugar onde muitos redentoristas da terceira idade são chamados a praticar a caridade apostólica é dentro de sua própria comunidade, cuja vida é em si a principal forma de proclamação do Evangelho (XXII Capítulo Geral, Orientações, 3). Acredito serem dois os serviços peculiares que redentoristas idosos podem desempenhar em nossas comunidades.

O primeiro é o que o próprio Afonso esforçou-se por desempenhar. Em novembro de 1774, quando se preparava para retornar de Sant’Ágata, ele escreveu: “Quando eu voltar a uma de nossas casas, eu poderia ser útil aos confrades, especialmente aos jovens”. Talvez Afonso tenha pensado em ser um assessor aos estudantes nas homilias ou em teologia moral. Seus biógrafos afirmam que o exemplo de sua vida na terceira idade causou um impacto nos confrades jovens. Um redentorista idoso que não se deixa abater por sofrimentos ou limitações da idade, mas vive a alegria, o amor e a esperança, é um incentivo incalculável aos confrades jovens.

34.       O segundo serviço refere-se a detalhes de nossa vida comum. Tem-se observado que, freqüentemente, na procura em fazer coisas fantásticas, perdemos a oportunidade de fazer coisas simples, mas importantes, porque a ação em si parece não merecer nossa atenção. Os idosos em nossas comunidades podem dar uma grande contribuição à qualidade de nossa vida comum, desempenhando tarefas simples. Lembro-me como a generosidade de um padre idoso ajudou no trabalho de todos os membros de uma comunidade muito atarefada; embora um ataque cardíaco o tenha deixado semi-paralítico, todas as noites ele se dispunha em atender aos telefonemas, enquanto os confrades estavam ocupados com as atividades pastorais de uma paróquia movimentada. Também me lembro, em minha primeira visita a Roma, de ver o ancião Bernhard Häring cuidando das flores no jardim da comunidade. Com certeza, cada um de nós já foi tocado pela generosidade de um confrade idoso.

Descobrindo o melhor vinho, no final (Jo 2, 10)

35.       João da Cruz lembra-nos que, no entardecer de nossa vida, seremos julgados com referência ao amor. Talvez seja por isso que no lusco-fusco da vida de peregrinação, passamos por perdas, para que possamos ficar mais livres para amar. É-nos recomendado, como missionários, não carregar muita bagagem. No final da peregrinação, o que precisamos realmente é o amor. Amar a Deus como Ele merece ser amado, e amar uns aos outros como irmãos. O amor de um redentorista idoso, expresso em maneira simples e comum, pode deixar um impacto duradouro nos confrades, especialmente nos jovens.

36.       É o amor que “envelhece” nosso espírito, como a ação do tempo curte e “envelhece” o bom vinho. No poente da vida, o amor nos dará sabor e paladar, não o amargo-azedo picante do vinagre. Este tipo de amor nunca será totalmente conseguido por nós, mas deve ser nosso objetivo durante uma vida toda de conversão do coração e renovação constante do espírito (Constituição 41). No dia 24 de novembro de 2000, o Padre Josef Pfab, Superior Geral emérito encerrou sua peregrinação. Em seu funeral, um padre jovem me falou de seu último encontro com Padre Josef. Foi uns dois dias antes de sua morte, quando estavam para celebrar a Missa no quarto do hospital. O padre mais jovem perguntou-lhe pelo que deveriam rezar. Padre Josef respondeu: “Rezem para que eu seja convertido na hora de minha morte”. Paulo teve o mesmo desejo: Esqueço-me do que fica para trás e avanço para o que está na frente. Lanço-me em direção à meta, em vista do prêmio do alto, que Deus nos chama a receber em Jesus Cristo. (Fl 3, 13-14).

37.       Que Maria, nossa Mãe, cuja presença orante acompanhou a primeira comunidade apostólica e que não hesitou em se colocar a serviço dos outros, nos ajude a sermos fiéis todos os dias, mas especialmente quando “estivermos sofrendo e morrendo pela salvação do mundo”.

Fraternalmente em Cristo Redentor,

Joseph W. Tobin, C.Ss.R.
Superior Geral

(O texto original é em inglês.)