ESPIRITUALIDADE
Nosso desafio mais importante
COMMUNICANDA 1
Roma,
25 de fevereiro de 1998
Nr. Prot.
0000 0028/98
Caríssimos
Confrades,
01.
“Damos graças a Deus por todos, sempre que
fazemos menção de vós em nossas orações.
É que recordamos sem cessar, aos olhos de
Deus, nosso Pai, a atividade de vossa fé,
o esforço de vossa caridade e a perseverança
da vossa esperança em nosso Senhor Jesus
Cristo” (1 Tess 1,2-3). A cinco meses do
encerramento do XXII Capítulo Geral e no
aniversário da aprovação de nossas Constituições,
fazemos chegar até vós este documento. Será
um prolongamento do Capítulo e ao mesmo
tempo indicação da linha de nosso serviço
à Congregação.
02.
O Capítulo confiou ao Governo Geral a redação
desta Communicanda para o aprofundamento
da Mensagem e das Orientações já enviadas
a toda a Congregação (Postulados do XXII
Capítulo Geral, 1,1.4). Como bem sabeis,
a espiritualidade é o centro destes documentos
capitulares e foi assumida como tema para
o atual sexênio. À sua luz a Congregação
quer compreender e viver todos os aspectos
de sua vida. A exigência de tratar este
tema já aparece em algumas Reuniões Regionais
preparatórias ao Capítulo Geral, confirmando
uma necessidade sentida por grande parte
de nossa Família missionária.
03.
Cremos que a escolha da espiritualidade
leva em conta o caminho percorrido nos últimos
decênios, lembrado pelos Capítulos Gerais,
pelos seus documentos finais e em particular
pelo empenho de “acentuar o anúncio explícito,
profético e libertador do Evangelho aos
pobres, deixando-nos interpelar por eles”
(XXI Capítulo Geral, Documento Final,
11). Inserida neste contexto, a opção
pela espiritualidade revela-se em toda sua
profundidade e urgência.
04.
Esta Communicanda não pretende afrontar
o tema da espiritualidade de forma exaustiva
ou doutrinal. Queremos encaminhar uma reflexão
sobre o tema proposto pelo Capítulo Geral,
oferecendo a cada um, uma ajuda para o ser
Redentorista hoje. Se por um lado estamos
convencidos de que a espiritualidade é essencialmente
“experiência pessoal e comunitária de Deus
em Cristo Redentor por obra do Espírito
Santo”, por outro devemos ter presente as
necessidades das várias Regiões. Desejamos
que cada Unidade faça deste documento
um uso “compartilhado” na medida e no modo
que forem possíveis.
05.
Percebemos o grande risco - e o próprio
Capítulo Geral se deu conta - de que o tema
da espiritualidade nos afaste do campo específico
e das urgências incômodas da missão. Deixemos
claro que “espiritualidade” não significa
intimismo nem fuga de nossas responsabilidades
ou do necessário compromisso com nossa história.
Não queremos fazer teoria sobre espiritualidade,
mas ter concretamente diante dos olhos tanto
as obrigações normais como também as urgências
que exigem nossa atuação eficaz. Além de
nossos bons propósitos, contamos com a colaboração
dos leigos que nos últimos tempos vem se
firmando nos projetos das diversas Unidades.
Se eles podem “assimilar” nossa espiritualidade
vivendo conosco, freqüentando nossos ambientes
e trabalhando conosco, podem também ajudar-nos
a manter um contato mais estreito com a
realidade e com a dimensão cotidiana da
vida.
06.
Outro perigo a ser evitado: enfrentar o
tema da espiritualidade simplesmente porque
o exige a cultura em voga. Sabemos quanto
a espiritualidade está em moda, inclusive
como um fenômeno de sucesso comercial. É
um verdadeiro e autêntico “supermercado
da espiritualidade” que vai da Nova Era
às seitas esotéricas e seduz muita gente.
Este fenômeno tem muito pouco em comum com
as exigências próprias de uma fé revelada
que parte sempre de uma “escuta” obediente
à Palavra e tende ao encontro responsável
com uma pessoa, Jesus Cristo.
07.
A espiritualidade é fonte de unidade para
toda a Congregação. Contudo não podemos
esquecer a grande diversidade de situações
e expectativas: tanto no que diz respeito
às Regiões e culturas, como também às pessoas.
Alguns confrades têm, graças a Deus, uma
espiritualidade sólida; outros se dão conta
de uma espécie de “desintegração” interior;
outros, enfim, estão em busca de alguma
coisa que não encontraram ainda. São situações
interiores, que não dependem da idade, onde
se entrelaçam misteriosamente a graça de
Deus e as circunstâncias da vida. Tendo
em conta essa diversidade de situações,
cada Unidade saiba fazer as adaptações oportunas
a estas reflexões.
Razões de uma escolha
08.
Antes de tudo devemos nos perguntar: por
que o Capítulo Geral escolheu a espiritualidade
como o desafio mais importante para a Congregação
nos próximos seis anos? Responder a esta
pergunta é entrar nas exigências próprias
deste tema. Damos algumas razões que, a
nosso modo de ver, podem nos aproximar da
realidade. Esperamos que nossas reflexões
sejam analisadas e continuadas a nível local.
09.
Nossa primeira impressão é que se verificou
na Congregação um ativismo excessivo, ocorrendo
uma desproporção entre a reflexão e as inúmeras
atividades desenvolvidas. Em outras palavras,
todos nós temos que reencontrar os verdadeiros
e profundos motivos de nosso agir. Sabemos,
que para nós redentoristas, estes levam
essencialmente a uma pessoa, “o único necessário”
(Lc 10,42), Jesus Cristo Redentor. Esta
necessidade é claramente confirmada pelo
próprio Capítulo Geral, quando diz que nossa
“principal preocupação deve ser o lugar
que Deus ocupa em nossa existência” (Mensagem
final, 3). É uma observação que não
podemos esquecer e que se torna fonte de
alegria para cada um de nós: na medida em
que procuramos dar a Deus o centro de nossa
vida, nós nos realizamos em plenitude.
10.
Apresentamos mais uma hipótese que esclarece
a escolha feita pelo Capítulo, ligada claramente
à fase histórica que vivemos. Muitos dos
nossos conservam uma marca muito forte de
uma formação - referimo-nos aos anos anteriores
ao Concílio Vaticano II - que se inspirou
principalmente nas normas e valores próprios
da observância. Os anos seguintes
viram afirmar-se uma antropologia diferente
e uma conseqüente formação que tinha como
centro a realização da pessoa e sua liberdade.
O balanço destes anos nos fazem entender
que estes modelos não se excluem. Enquanto
para alguns o primeiro modelo favoreceu
talvez uma “observância sem coração”, para
outros, o segundo modelo, pode ter dado
lugar a uma “liberdade sem metas”. Freqüentemente,
o diálogo na comunidade tornou-se difícil
atrasando a caminhada, revelando de curto
alcance os projetos apostólicos, e a identidade
das pessoas entrou em crise. Cremos que
o Capítulo Geral viu na espiritualidade
o elemento capaz de dar sentido à liberdade
na comunidade, delineando um caminho
possível e mais confiante para um futuro
próximo.
11.
A urgência de espiritualidade pode ter ainda
uma outra explicação: vivemos num tempo
de inovação contínua e de progresso tecnológico
acelerado. Este desenvolvimento, logicamente,
não é igual em todas as Regiões. É difícil
seguir o ritmo de nosso tempo! As novidades
não somente tecnológicas ou científicas,
mas profundamente culturais, colocam em
questão nossos horizontes mentais. Se no
passado nossa Regra de Vida, nossas tradições,
nossos “modelos” cotidianos ou nossos santos
constituíam para nós pontos de referência
suficientes e de confiança, hoje, nos encontramos
no limiar de um futuro que não sabemos o
que nos reserva.Vemos quanto é difícil falar
do seguimento de Cristo num mundo
que parece não ter a quem seguir. Temos
necessidade, então, de um “ponto de apoio”
que nos impeça de viver perenemente na superficialidade.
Precisamos também de algo que nos ajude
a fazer uma síntese interior, independente
dos fatores externos, sempre em mudança,
e este “algo” o Capítulo encontrou na espiritualidade.
12.
Em todo caso, este esforço de estar ao ritmo
dos tempos, nós o vemos confrontando a teologia.
Por exemplo: quanto não se desenvolveu nos
últimos tempos o conceito de redenção? Se
muitos dos nossos foram formados numa rigorosa
atenção à “salvação da alma”, vemos também
como este conceito se ampliou gradualmente
até abarcar a salvação integral da pessoa
(cfr. Const. 5); aprendemos que a
Copiosa Redenção nos coloca em uma
relação nova com outras culturas e religiões,
não excluindo de seus interesses certos
problemas como a ecologia, a defesa dos
direitos humanos etc. Sobre o plano puramente
teórico não é difícil entender esta relação,
mas na prática, quantos não tem demonstrado
um esfriamento no “zelo missionário” justamente
por encontrarem diante si um compromisso
novo superior a suas forças?
13.
É verdade que contamos com numerosos meios
de estudo e de formação e se multiplicaram
as iniciativas de formação permanente, seja
em ocasiões extraordinárias (centenário
de nossos Santos, beatificações etc.), como
também no “dia a dia” das diversas Unidades.
Contudo reconhecemos que a renovação de
nossa vida nem sempre correspondeu ao enorme
esforço que se despendeu para organizar
essas iniciativas. Sentimos na pele, e mais
ainda em nosso íntimo, a ruptura entre fé
e vida que continua sendo um dos sintomas
desconcertantes de nosso tempo. Justamente
porque se multiplicam as ocasiões de conhecimento
e de animação, percebemos mais dolorosamente
a dificuldade de encarnar na vivência diária
o que aprendemos.
14.
Esta ruptura interior e existencial reflete-se
igualmente em nosso modo de rezar. O Capítulo
Geral de 1991 recordava que “abandonadas
as que se consideravam 'práticas espirituais'
inautênticas e não adaptadas à situação
atual, não surgiram outras capazes de preencher
o vazio que se produziu” (Documento Final,
33). O resultado disso foi a falta
de um programa de oração nessas comunidades,
e de forma mais ampla, o “vazio” espiritual
no qual os confrades tem dificuldade de
encontrar-se. Olhando certos ambientes nossos
- espiritualmente anêmicos - pode-se perguntar:
é legítimo falar de comunidade religiosa?
É justo, à luz da “consagração”, deixar-se
levar por um contexto secularizado? Tal
modo de projetar ou não projetar a comunidade
oferece algum atrativo às novas gerações?
Este é um ponto sobre o qual cada um deveria
examinar sua parcela de responsabilidade.
15.
Muitas vezes o vazio espiritual deu a confrades
o motivo de uma “fuga” para outras espiritualidades
ou movimentos eclesiais, talvez a fim de
buscar fora, o que não encontravam dentro
da comunidade. Estamos convencidos de que
a ninguém se pode negar o direito ao próprio
desenvolvimento pessoal e espiritual. Mas
lá onde este fenômeno persiste, somos levados
a fazer algumas perguntas muito concretas:
A comunidade está em condição de criar um
ambiente idôneo para a plena realização
de nossos confrades? Ela oferece às pessoas
o espaço “humano” adequado para que expressem
o mais profundo de seus anseios? Estes anseios
recebem respostas dentro de um contexto
de “comunidade com uma organização adequada”
(Const. 44-45; Est. 041) com
um adequado projeto de oração?
16.
Não pode nos deixar indiferentes o número
de confrades que, depois de alguns anos
de consagração ou de ministério, abandonaram
a Congregação. O próprio fato de que uma
parte desses demonstra insatisfação depois
do abandono, faz-nos perguntar se nós os
ajudamos a realizar-se humana e espiritual-mente.
Mesmo que tais fenômenos tenham se verificado
em épocas anteriores às nossas e se encontrem
também em outras famílias religiosas, não
podemos simplesmente deixar de colocar algumas
questões: Que buscavam estes confrades na
comunidade redentorista e não encontraram?
Nós nos sentimos responsáveis pela vocação
uns dos outros? Estes interrogativos devem
levar-nos a pensar não somente nos confrades
que nos abandonaram, mas também nos que,
mesmo permanecendo na Congregação, vão de
modo imperceptível acomodando-se a um estilo
de vida sem entusiasmo e que põe em xeque
os motivos fundamentais de nosso viver juntos.
17.
A nível ainda mais geral, vemos que em nossa
vida diária, nas relações interpessoais
e no apostolado, nem sempre conseguimos
motivar as verdadeiras causas de nossa consagração
e ministério. Nem sempre estamos dispostos
a “dar resposta a todo aquele que nos pede
razão de nossa esperança” (1Pd 3,15). Perguntamos:
Aprendemos a compartilhar nossas experiências
espirituais? O que faltaria ao mundo de
hoje, se improvisamente viesse a faltar
o carisma Redentorista? O que tem a dizer
a intuição de Afonso a nossa cultura? Conseguimos
comunicar a verdadeira atualidade da espiritualidade
Redentorista e a propô-la aos leigos para
que partilhem conosco, e aos jovens para
que façam dela um projeto de vida? Nós nos
mostramos como “escola de verdadeira espiritualidade
evangélica”? (Vita Consecrata, 93).
18.
Estas questões pedem não somente um sério
compromisso de auto-formação, como também
recuperação da “identidade” pessoal e um
autêntico clima de família. Neste sentido,
talvez seja um fiel “termômetro” do problema
da espiritualidade a alegria que vemos presente,
ou ausente, a nível de comunidade. Devemos
recuperar o sentido de pertença e o orgulho
sadio de ser redentoristas. Talvez seja
esta a razão que resume todas as demais
e que levou o Capítulo Geral a optar por
este tema da espiritualidade.
Elementos da espiritualidade redentorista
19.
Quem participou do XXII Capítulo Geral,
ou pode seguir através dos meios de comunicação,
ou com a leitura da Mensagem Final, das
Orientações e dos Postulados, compartilha
conosco da seguinte impressão: na maioria
dos casos, a atenção do Capítulo se voltou
mais para a “espiritualidade” como tal do
que sobre a “espiritualidade redentorista”.
Não queremos com isso sugerir a idéia de
uma dicotomia entre estas duas realidades:
a espiritualidade se desenvolveu em nossa
vocação como “Redentorista”, e por isso
não deve ser entendida prescindindo desta
conotação. Queremos somente lembrar a linguagem
usada pelo Capítulo. A insistência com a
qual se tratou de “espiritualidade”, implica,
pelo menos, três conseqüências.
20.
Primeira: redescobrimos os “fundamentos”
de nossa vida espiritual. Muito mais que
uma conseqüência específica de nosso carisma,
necessitamos compreender melhor a estrutura
da vida de fé e o sentido elementar da consagração.
Se o conhecimento específico torna-se fim
em si mesmo, corre o risco de tornar-se
um exercício puramente acadêmico.
21.
Segunda: não devemos ser míopes, concentrando
nossa atenção simplesmente sobre nosso específico,
esquecendo o horizonte amplo e mais exigente
de nossa espiritualidade, no qual se coloca
o carisma redentorista. “Na grande Santa
Igreja, a Congregação não é uma capela lateral.
Sua missão coloca-a no centro da Igreja,
lá onde está o altar e é celebrado o mistério
da Páscoa de Cristo pela salvação do mundo.
É chamada a realizar aquilo que é central,
a continuar Cristo e o acontecimento da
salvação que está em Cristo. Qual é, portanto
sua especificidade no conjunto da Igreja?
Sua especificidade está na realização do
essencial, segundo uma intensa plenitude”
(F. X. Durrwell, C.Ss.R.). Por outro lado,
não podemos pretender que nossa espiritualidade
tenha elementos exclusivos que nos caracterizem
imediatamente na Igreja. Grande parte dos
fatores tradicionalmente tidos como “redentoristas”
(pregação aos pobres, missão popular, a
vida devota etc...) estão presentes noutras
espiritualidades e famílias religiosas.
O que caracteriza é o modo como estes elementos
se conjugam. E estes, por sua vez englobam
outros fatores: o estilo de vida pessoal,
o modo de relacionar-se e de falar, o clima
comunitário, etc. elementos que, a quantos
se aproximam de nós e nos conhecem de perto
dirão instintivamente: é “um redentorista!”
22.
Terceira: É a mais importante! A escolha
do tema da espiritualidade (mesmo antes
de se falar de “espiritualidade redentorista”)
coloca no centro de nossas preocupações
nossa relação pessoal com Cristo a fim de
ver se esta “inspira efetivamente e de modo
privilegiado nosso estilo de vida” (Mensagem
Final, 1). “Em qualquer contexto em
que se viva, acreditamos que todos nós redentoristas
somos chamados a centralizar nossa atenção
no aspecto da espiritualidade, quer dizer,
na forma em que nutrimos e exprimimos nossa
relação com Jesus Cristo” (Mensagem Final,
3). Nesta relação é o Espírito
que incessantemente nos atrai e anima. É
Ele que desperta o desejo de uma resposta
completa, fazendo de cada um de nós uma
pessoa “cristiforme” (Vida Consagrada,
19). É Ele quem persuade nossa inteligência
fazendo aceitar com alegria e por amor aquilo
que aos olhos humanos pode parecer simplesmente
“loucura”.
23.
Nossas Constituições oferecem material suficiente
para definir a espiritualidade redentorista.
Rezando com elas e estudando-as, compreenderemos
o porque de nossa vocação e os traços essenciais
que a caracterizam. Em suas páginas encontramos
como entender os vários aspectos da identidade
redentorista que substancialmente consistem
em “continuar o exemplo de nosso Salvador
Jesus Cristo, pregando aos pobres a Palavra
de Deus” (Const. 1). Uma crescente
familiaridade com nossa “Regra de Vida”
permitirá uma visão de conjunto da espiritualidade,
que do contrário permaneceria incompreensível.
24. À luz desta
escolha, e da tradição em que a espiritualidade
nasceu, podemos individualizar alguns elementos
constitutivos, entre os quais devemos sempre
distinguir o que é essencial do que é secundário.
Apresentamos estes elementos sem a pretensão
de abarcar tudo nem fazê-lo com rigor metodológico: