Communicanda

  

ESPIRITUALIDADE
Nosso desafio mais importante

 

COMMUNICANDA 1
Roma, 25 de fevereiro de 1998
Nr. Prot. 0000 0028/98

 

Caríssimos Confrades,

01.       “Damos graças a Deus por todos, sempre que fazemos menção de vós em nossas orações. É que recordamos sem cessar, aos olhos de Deus, nosso Pai, a atividade de vossa fé, o esforço de vossa caridade e a perseverança da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tess 1,2-3). A cinco meses do encerramento do XXII Capítulo Geral e no aniversário da aprovação de nossas Constituições, fazemos chegar até vós este documento. Será um prolongamento do Capítulo e ao mesmo tempo indicação da linha de nosso serviço à Congregação.

02.       O Capítulo confiou ao Governo Geral a redação desta Communicanda para o aprofundamento da Mensagem e das Orientações já enviadas a toda a Congregação (Postulados do XXII Capítulo Geral, 1,1.4). Como bem sabeis, a espiritualidade é o centro destes documentos capitulares e foi assumida como tema para o atual sexênio. À sua luz a Congregação quer compreender e viver todos os aspectos de sua vida. A exigência de tratar este tema já aparece em algumas Reuniões Regionais preparatórias ao Capítulo Geral, confirmando uma necessidade sentida por grande parte de nossa Família missionária.

03.       Cremos que a escolha da espiritualidade leva em conta o caminho percorrido nos últimos decênios, lembrado pelos Capítulos Gerais, pelos seus documentos finais e em particular pelo empenho de “acentuar o anúncio explícito, profético e libertador do Evangelho aos pobres, deixando-nos interpelar por eles” (XXI Capítulo Geral, Documento Final, 11). Inserida neste contexto, a opção pela espiritualidade revela-se em toda sua profundidade e urgência.

04.       Esta Communicanda não pretende afrontar o tema da espiritualidade de forma exaustiva ou doutrinal. Queremos encaminhar uma reflexão sobre o tema proposto pelo Capítulo Geral, oferecendo a cada um, uma ajuda para o ser Redentorista hoje. Se por um lado estamos convencidos de que a espiritualidade é essencialmente “experiência pessoal e comunitária de Deus em Cristo Redentor por obra do Espírito Santo”, por outro devemos ter presente as necessidades das várias Regiões. Desejamos que cada Unidade faça deste documento um uso “compartilhado” na medida e no modo que forem possíveis.

05.       Percebemos o grande risco - e o próprio Capítulo Geral se deu conta - de que o tema da espiritualidade nos afaste do campo específico e das urgências incômodas da missão. Deixemos claro que “espiritualidade” não significa intimismo nem fuga de nossas responsabilidades ou do necessário compromisso com nossa história. Não queremos fazer teoria sobre espiritualidade, mas ter concretamente diante dos olhos tanto as obrigações normais como também as urgências que exigem nossa atuação eficaz. Além de nossos bons propósitos, contamos com a colaboração dos leigos que nos últimos tempos vem se firmando nos projetos das diversas Unidades. Se eles podem “assimilar” nossa espiritualidade vivendo conosco, freqüentando nossos ambientes e trabalhando conosco, podem também ajudar-nos a manter um contato mais estreito com a realidade e com a dimensão cotidiana da vida.

06.       Outro perigo a ser evitado: enfrentar o tema da espiritualidade simplesmente porque o exige a cultura em voga. Sabemos quanto a espiritualidade está em moda, inclusive como um fenômeno de sucesso comercial. É um verdadeiro e autêntico “supermercado da espiritualidade” que vai da Nova Era às seitas esotéricas e seduz muita gente. Este fenômeno tem muito pouco em comum com as exigências próprias de uma fé revelada que parte sempre de uma “escuta” obediente à Palavra e tende ao encontro responsável com uma pessoa, Jesus Cristo.

07.       A espiritualidade é fonte de unidade para toda a Congregação. Contudo não podemos esquecer a grande diversidade de situações e expectativas: tanto no que diz respeito às Regiões e culturas, como também às pessoas. Alguns confrades têm, graças a Deus, uma espiritualidade sólida; outros se dão conta de uma espécie de “desintegração” interior; outros, enfim, estão em busca de alguma coisa que não encontraram ainda. São situações interiores, que não dependem da idade, onde se entrelaçam misteriosamente a graça de Deus e as circunstâncias da vida. Tendo em conta essa diversidade de situações, cada Unidade saiba fazer as adaptações oportunas a estas reflexões.

Razões de uma escolha

08.       Antes de tudo devemos nos perguntar: por que o Capítulo Geral escolheu a espiritualidade como o desafio mais importante para a Congregação nos próximos seis anos? Responder a esta pergunta é entrar nas exigências próprias deste tema. Damos algumas razões que, a nosso modo de ver, podem nos aproximar da realidade. Esperamos que nossas reflexões sejam analisadas e continuadas a nível local.

09.       Nossa primeira impressão é que se verificou na Congregação um ativismo excessivo, ocorrendo uma desproporção entre a reflexão e as inúmeras atividades desenvolvidas. Em outras palavras, todos nós temos que reencontrar os verdadeiros e profundos motivos de nosso agir. Sabemos, que para nós redentoristas, estes levam essencialmente a uma pessoa, “o único necessário” (Lc 10,42), Jesus Cristo Redentor. Esta necessidade é claramente confirmada pelo próprio Capítulo Geral, quando diz que nossa “principal preocupação deve ser o lugar que Deus ocupa em nossa existência” (Mensagem final, 3). É uma observação que não podemos esquecer e que se torna fonte de alegria para cada um de nós: na medida em que procuramos dar a Deus o centro de nossa vida, nós nos realizamos em plenitude.

10.       Apresentamos mais uma hipótese que esclarece a escolha feita pelo Capítulo, ligada claramente à fase histórica que vivemos. Muitos dos nossos conservam uma marca muito forte de uma formação - referimo-nos aos anos anteriores ao Concílio Vaticano II - que se inspirou principalmente nas normas e valores próprios da observância. Os anos seguintes viram afirmar-se uma antropologia diferente e uma conseqüente formação que tinha como centro a realização da pessoa e sua liberdade. O balanço destes anos nos fazem entender que estes modelos não se excluem. Enquanto para alguns o primeiro modelo favoreceu talvez uma “observância sem coração”, para outros, o segundo modelo, pode ter dado lugar a uma “liberdade sem metas”. Freqüentemente, o diálogo na comunidade tornou-se difícil atrasando a caminhada, revelando de curto alcance os projetos apostólicos, e a identidade das pessoas entrou em crise. Cremos que o Capítulo Geral viu na espiritualidade o elemento capaz de dar sentido à liberdade na comunidade, delineando um caminho possível e mais confiante para um futuro próximo.

11.       A urgência de espiritualidade pode ter ainda uma outra explicação: vivemos num tempo de inovação contínua e de progresso tecnológico acelerado. Este desenvolvimento, logicamente, não é igual em todas as Regiões. É difícil seguir o ritmo de nosso tempo! As novidades não somente tecnológicas ou científicas, mas profundamente culturais, colocam em questão nossos horizontes mentais. Se no passado nossa Regra de Vida, nossas tradições, nossos “modelos” cotidianos ou nossos santos constituíam para nós pontos de referência suficientes e de confiança, hoje, nos encontramos no limiar de um futuro que não sabemos o que nos reserva.Vemos quanto é difícil falar do seguimento de Cristo num mundo que parece não ter a quem seguir. Temos necessidade, então, de um “ponto de apoio” que nos impeça de viver perenemente na superficialidade. Precisamos também de algo que nos ajude a fazer uma síntese interior, independente dos fatores externos, sempre em mudança, e este “algo” o Capítulo encontrou na espiritualidade.

12.       Em todo caso, este esforço de estar ao ritmo dos tempos, nós o vemos confrontando a teologia. Por exemplo: quanto não se desenvolveu nos últimos tempos o conceito de redenção? Se muitos dos nossos foram formados numa rigorosa atenção à “salvação da alma”, vemos também como este conceito se ampliou gradualmente até abarcar a salvação integral da pessoa (cfr. Const. 5); aprendemos que a Copiosa Redenção nos coloca em uma relação nova com outras culturas e religiões, não excluindo de seus interesses certos problemas como a ecologia, a defesa dos direitos humanos etc. Sobre o plano puramente teórico não é difícil entender esta relação, mas na prática, quantos não tem demonstrado um esfriamento no “zelo missionário” justamente por encontrarem diante si um compromisso novo superior a suas forças?

13.       É verdade que contamos com numerosos meios de estudo e de formação e se multiplicaram as iniciativas de formação permanente, seja em ocasiões extraordinárias (centenário de nossos Santos, beatificações etc.), como também no “dia a dia” das diversas Unidades. Contudo reconhecemos que a renovação de nossa vida nem sempre correspondeu ao enorme esforço que se despendeu para organizar essas iniciativas. Sentimos na pele, e mais ainda em nosso íntimo, a ruptura entre fé e vida que continua sendo um dos sintomas desconcertantes de nosso tempo. Justamente porque se multiplicam as ocasiões de conhecimento e de animação, percebemos mais dolorosamente a dificuldade de encarnar na vivência diária o que aprendemos.

14.       Esta ruptura interior e existencial reflete-se igualmente em nosso modo de rezar. O Capítulo Geral de 1991 recordava que “abandonadas as que se consideravam 'práticas espirituais' inautênticas e não adaptadas à situação atual, não surgiram outras capazes de preencher o vazio que se produziu” (Documento Final, 33).  O resultado disso foi a falta de um programa de oração nessas comunidades, e de forma mais ampla, o “vazio” espiritual no qual os confrades tem dificuldade de encontrar-se. Olhando certos ambientes nossos - espiritualmente anêmicos - pode-se perguntar: é legítimo falar de comunidade religiosa? É justo, à luz da “consagração”, deixar-se levar por um contexto secularizado? Tal modo de projetar ou não projetar a comunidade oferece algum atrativo às novas gerações? Este é um ponto sobre o qual cada um deveria examinar sua parcela de responsabilidade.

15.       Muitas vezes o vazio espiritual deu a confrades o motivo de uma “fuga” para outras espiritualidades ou movimentos eclesiais, talvez a fim de buscar fora, o que não encontravam dentro da comunidade. Estamos convencidos de que a ninguém se pode negar o direito ao próprio desenvolvimento pessoal e espiritual. Mas lá onde este fenômeno persiste, somos levados a fazer algumas perguntas muito concretas: A comunidade está em condição de criar um ambiente idôneo para a plena realização de nossos confrades? Ela oferece às pessoas o espaço “humano” adequado para que expressem o mais profundo de seus anseios? Estes anseios recebem respostas dentro de um contexto de “comunidade com uma organização adequada” (Const. 44-45; Est. 041) com um adequado projeto de oração?

16.       Não pode nos deixar indiferentes o número de confrades que, depois de alguns anos de consagração ou de ministério, abandonaram a Congregação. O próprio fato de que uma parte desses demonstra insatisfação depois do abandono, faz-nos perguntar se nós os ajudamos a realizar-se humana e espiritual-mente. Mesmo que tais fenômenos tenham se verificado em épocas anteriores às nossas e se encontrem também em outras famílias religiosas, não podemos simplesmente deixar de colocar algumas questões: Que buscavam estes confrades na comunidade redentorista e não encontraram? Nós nos sentimos responsáveis pela vocação uns dos outros? Estes interrogativos devem levar-nos a pensar não somente nos confrades que nos abandonaram, mas também nos que, mesmo permanecendo na Congregação, vão de modo imperceptível acomodando-se a um estilo de vida sem entusiasmo e que põe em xeque os motivos fundamentais de nosso viver juntos.

17.       A nível ainda mais geral, vemos que em nossa vida diária, nas relações interpessoais e no apostolado, nem sempre conseguimos motivar as verdadeiras causas de nossa consagração e ministério. Nem sempre estamos dispostos a “dar resposta a todo aquele que nos pede razão de nossa esperança” (1Pd 3,15). Perguntamos: Aprendemos a compartilhar nossas experiências espirituais? O que faltaria ao mundo de hoje, se improvisamente viesse a faltar o carisma Redentorista? O que tem a dizer a intuição de Afonso a nossa cultura? Conseguimos comunicar a verdadeira atualidade da espiritualidade Redentorista e a propô-la aos leigos para que partilhem conosco, e aos jovens para que façam dela um projeto de vida? Nós nos mostramos como “escola de verdadeira espiritualidade evangélica”? (Vita Consecrata, 93).

18.       Estas questões pedem não somente um sério compromisso de auto-formação, como também recuperação da “identidade” pessoal e um autêntico clima de família. Neste sentido, talvez seja um fiel “termômetro” do problema da espiritualidade a alegria que vemos presente, ou ausente, a nível de comunidade. Devemos recuperar o sentido de pertença e o orgulho sadio de ser redentoristas. Talvez seja esta a razão que resume todas as demais e que levou o Capítulo Geral a optar por este tema da espiritualidade.

Elementos da espiritualidade redentorista

19.       Quem participou do XXII Capítulo Geral, ou pode seguir através dos meios de comunicação, ou com a leitura da Mensagem Final, das Orientações e dos Postulados, compartilha conosco da seguinte impressão: na maioria dos casos, a atenção do Capítulo se voltou mais para a “espiritualidade” como tal do que sobre a “espiritualidade redentorista”. Não queremos com isso sugerir a idéia de uma dicotomia entre estas duas realidades: a espiritualidade se desenvolveu em nossa vocação como “Redentorista”, e por isso não deve ser entendida prescindindo desta conotação. Queremos somente lembrar a linguagem usada pelo Capítulo. A insistência com a qual se tratou de “espiritualidade”, implica, pelo menos, três conseqüências.

20.       Primeira: redescobrimos os “fundamentos” de nossa vida espiritual. Muito mais que uma conseqüência específica de nosso carisma, necessitamos compreender melhor a estrutura da vida de fé e o sentido elementar da consagração. Se o conhecimento específico torna-se fim em si mesmo, corre o risco de tornar-se um exercício puramente acadêmico.

21.       Segunda: não devemos ser míopes, concentrando nossa atenção simplesmente sobre nosso específico, esquecendo o horizonte amplo e mais exigente de nossa espiritualidade, no qual se coloca o carisma redentorista. “Na grande Santa Igreja, a Congregação não é uma capela lateral. Sua missão coloca-a no centro da Igreja, lá onde está o altar e é celebrado o mistério da Páscoa de Cristo pela salvação do mundo. É chamada a realizar aquilo que é central, a continuar Cristo e o acontecimento da salvação que está em Cristo. Qual é, portanto sua especificidade no conjunto da Igreja? Sua especificidade está na realização do essencial, segundo uma intensa plenitude” (F. X. Durrwell, C.Ss.R.). Por outro lado, não podemos pretender que nossa espiritualidade tenha elementos exclusivos que nos caracterizem imediatamente na Igreja. Grande parte dos fatores tradicionalmente tidos como “redentoristas” (pregação aos pobres, missão popular, a vida devota etc...) estão presentes noutras espiritualidades e famílias religiosas. O que caracteriza é o modo como estes elementos se conjugam. E estes, por sua vez englobam outros fatores: o estilo de vida pessoal, o modo de relacionar-se e de falar, o clima comunitário, etc. elementos que, a quantos se aproximam de nós e nos conhecem de perto dirão instintivamente: é “um redentorista!”

22.       Terceira: É a mais importante! A escolha do tema da espiritualidade (mesmo antes de se falar de “espiritualidade redentorista”) coloca no centro de nossas preocupações nossa relação pessoal com Cristo a fim de ver se esta “inspira efetivamente e de modo privilegiado nosso estilo de vida” (Mensagem Final, 1). “Em qualquer contexto em que se viva, acreditamos que todos nós redentoristas somos chamados a centralizar nossa atenção no aspecto da espiritualidade, quer dizer, na forma em que nutrimos e exprimimos nossa relação com Jesus Cristo” (Mensagem Final, 3). Nesta relação é o Espírito que incessantemente nos atrai e anima. É Ele que desperta o desejo de uma resposta completa, fazendo de cada um de nós uma pessoa “cristiforme” (Vida Consagrada, 19). É Ele quem persuade nossa inteligência fazendo aceitar com alegria e por amor aquilo que aos olhos humanos pode parecer simplesmente “loucura”.

23.       Nossas Constituições oferecem material suficiente para definir a espiritualidade redentorista. Rezando com elas e estudando-as, compreenderemos o porque de nossa vocação e os traços essenciais que a caracterizam. Em suas páginas encontramos como entender os vários aspectos da identidade redentorista que substancialmente consistem em “continuar o exemplo de nosso Salvador Jesus Cristo, pregando aos pobres a Palavra de Deus” (Const. 1). Uma crescente familiaridade com nossa “Regra de Vida” permitirá uma visão de conjunto da espiritualidade, que do contrário permaneceria incompreensível.

24.       À luz desta escolha, e da tradição em que a espiritualidade nasceu, podemos individualizar alguns elementos constitutivos, entre os quais devemos sempre distinguir o que é essencial do que é secundário. Apresentamos estes elementos sem a pretensão de abarcar tudo nem fazê-lo com rigor metodológico:

·        Somos redentoristas: nossa espiritualidade situa-se na teologia da Encarnação.
·        Somos missionários, e por isso essencialmente anunciadores do Evangelho, cujo “coração” é a misericórdia.
·        O redentorista tem um jeito “popular”; aproxima-se facilmente das pessoas e usa uma linguagem simples.
·        A espiritualidade redentorista é fonte e fruto da missão (Mensagem Final, 6).
·        O redentorista tem compaixão dos pobres.
·        Nosso envolvimento pastoral, especialmente com os pobres e abandonados, é constitutivo de nossa espiritualidade (Mensagem Final, 8).

25.       Cremos que devemos reservar a N.S. do Perpétuo Socorro um espaço maior e mais evidente em nossa espiritualidade. O zelo e a criatividade dos redentoristas, que fizeram deste ícone o mais conhecido no mundo, podem ajudar-nos a compreender mais nosso carisma. O título de “Perpétuo Socorro” está em total consonância com o tema da Copiosa Redenção.

26.       Mas não devemos esquecer que nossa espiritualidade é também comunitária: aprende-se na comunidade e deve ser também palpável em suas estruturas, dando grande espaço à Palavra de Deus, à liturgia e à Eucaristia (cfr Const. 27). Nós próprios, vendo a história de nossa vocação, podemos dizer que não aprendemos a espiritualidade dos livros, mas dos confrades, de seu estilo de vida, método de trabalho e apostolado que observamos e “assimilamos”. Voltando ainda no tempo, dizemos que a Congregação é caracterizada, desde seu nascimento, por opções concretas (por exemplo, encarnar a predileção de Cristo pelos pobres, fundando as casas no lugares pobres). Em todo caso, nosso modo de abordar o tema da espiritualidade, faz perguntar se nosso testemunho é real e perceptível, e se nossas estruturas comunitárias e apostólicas estão a serviço deste testemunho.

27.       A escolha que o Capítulo fez da espiritualidade redentorista é de vital importância para nós, pelo menos por três razões fundamentais:

·        Um motivo psicológico quer que na espiritualidade esteja em jogo nossa própria identidade. É no carisma redentorista que “jogamos” nossa existência; é nesta “intuição do Espírito” que um dia encontramos nosso próprio rosto. As dificuldades próprias de nosso tempo e as estruturas não adequadas são certamente um problema, mas superável se lhe damos a importância que tem.

·        Uma razão teológica recorda-nos o que nos diz nosso Fundador: “Deus quer que todos sejam santos, cada um no seu estado, o religioso como religioso, o secular como secular, o sacerdote como sacerdote, o marido como marido, o comerciante como comerciante, o soldado como soldado e assim por diante...” (Prática de Amar Jesus Cristo, cap. I). Se cada um é chamado a tornar-se santo no próprio estado de vida, também nós somos chamados a “abraçar” nossa situação e a procurar, como redentoristas hoje, a vontade de Deus.

·        O motivo apostólico recorda-nos que ir para o meio dos pobres sem levar Deus, corre-se o risco de usá-los. É a partir da experiência do amor de Deus que Santo Afonso compreendeu melhor as necessidades dos pobres. Abaixar o nível de nossa espiritualidade e pretender ao mesmo tempo ser confiável diante dos pobres, é uma forma de ilusão para nós e tapeação deles. Nosso projeto apostólico estará fadado ao fracasso.

Conseqüências para a vida

28.       “Acreditamos que se oferece à Congregação uma especial graça de conversão ao Redentor”. Esta frase da mensagem final do Capítulo (n.5) corre o risco de ser tomada como uma recomendação a mais que não atinge a renovação de nossa vida. Em alguns contextos é difícil falar de conversão por temor de se colocar em questão direitos adquiridos ou estilo de vida que se tornou “intocável”. Mas este núcleo central de nossa espiritualidade em nosso cotidiano não é para levar a um sentimento de culpa ou criar desânimo, mas para abrir-nos à novidade de Deus. “Eis, faço uma coisa nova: já vem despontando: não a percebeis?” (Is 43,19).

29.       Toda conversão é para o hoje. “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações»“ (Sl 95,8). Um olhar atento ao nosso tempo nos faz entender que protelar a conversão pode ser fatal para o futuro da Congregação e para o significado de nossa missão. Hoje entendemos mais claramente o que quer dizer “continuar o Redentor” entre os abandonados. Hoje descobrimos a fome e a sede de vida espiritual que o mundo sofre. Hoje nos damos conta de que esta fome e esta sede são mais agudas na medida em que são mascaradas ou instrumentalizadas. Hoje dispomos ainda de suficientes energias espirituais para decidir de modo concreto e corajoso.

30.       A escolha da espiritualidade supõe reconhecer a necessidade urgente de recuperar aquela atitude capaz de sustentar um projeto apostólico. Devemos amadurecer um “olhar contemplativo sobre a vida” (Orientações sobre o tema da espiritualidade, Introdução), de forma que descubramos a riqueza de nosso mundo interior (Const. 24). Em sintonia com este mundo podemos dialogar com Deus como filhos e cultivar uma memória dos “passos” que Deus percorreu em nossa história, fazendo-nos seus. Devemos redescobrir-nos pessoalmente como “redimidos”, para podermos dar crédito ao nosso ser “redentoristas”. Por outro lado, um estilo de vida “superficial”, uma incapacidade de meditar a Palavra de Deus e fazer silêncio, não são uma base válida para um projeto de espiritualidade. O problema torna-se agudo quando esta incapacidade se torna um “estilo de vida comunitária”. Existem situações comunitárias e apostólicas onde é difícil salvaguardar o clima de silêncio e oração, e em muitos casos, é justo que seja assim. Contudo, cada comunidade deveria examinar-se sobre este ponto para encontrar soluções oportunas e corrigir o desequilíbrio existente entre a necessidade de espiritualidade e os momentos ou meios que se oferecem para satisfazer esta necessidade a nível pessoal e comunitário.

31.       Se a conversão exige um compromisso ad intra (interior), não devemos nos esquecer, contudo, que devemos nos projetar ad extra (exterior), ao dúplice compromisso com a Igreja e o Reino de Deus, dentro do qual encontra sentido nosso carisma. Este requer concretamente ter relações com as Igrejas Locais, de conhecer melhor os outros carismas e inspirar cada vez mais nosso serviço na gratuidade. Exigirá também um esforço maior de conhecer como a Congregação vive e atua hoje seu carisma e o leva à prática freqüentemente com heroísmo e criatividade. Exigirá, igualmente, um sério esforço cultural para tornar autêntico nosso serviço à Igreja e ao mundo.

32.       A conversão ad extra nos aproxima do tema da espiritualidade tendo como critério nosso serviço à missão. “Nossa espiritualidade se configura também no desafio do compromisso com as lutas e os sofrimentos dos pobres, onde Jesus continua a revelar-se como Servo Sofredor” (Mensagem Final, 6). Como os capitulares, também nós devemos perguntar-nos: “em que medida nosso compromisso com os pobres é expressão de nossa espiritualidade e de que modo nos ajuda a desenvolver uma espiritualidade mais autêntica?” (Mensagem Final, 8).

33.       Estas questões devem acompanhar nosso modo de ver a espiritualidade e nosso estilo de oração pessoal e comunitária. Uma espiritualidade forma-se através dos acontecimentos que nos marcaram e suscitaram em nós determinados interrogativos: notícias chocantes, momentos de conflitos conosco mesmos e com os outros, fases conflitivas da vida etc. Achamos que um redentorista, no centro da oração pessoal e comunitária, deve colocar sempre mais o grito dos pobres, suas preocupações, os problemas da vida cotidiana, as situações de injustiça e opressão. Assim contribui não só com a Copiosa Redenção, como também de manter os olhos abertos para um apostolado generoso e concreto.

34.       O desafio da espiritualidade provoca em cada um de nós a identificação com os pobres. Muitos redentoristas, a começar por S. Afonso, tiveram uma decisiva conversão em direção aos pobres. Mas esta conversão tem reflexos concretos em nosso estilo de vida marcado pela simplicidade e voltada ao essencial? Estamos prevenidos contra os perigos do consumismo? Como poderão nossos ouvidos permanecerem sensíveis, quando o barulho do mundo nos faz surdos ao clamor dos pobres ou nosso estilo de vida é tão diverso do seu?

35.       Tal espiritualidade “modelada pela nossa dedicação aos pobres”, deve ser acompanhada pela formação permanente. Devemos fazer de tudo para motivar teológica e apostolicamente nosso serviço aos pobres nesta fase de nossa história em que a queda das grandes ideologias acabou por marginalizar para valer os mais abandonados. Devemos sempre retomar corajosamente o caminho a partir de semelhantes questões: Como nossa espiritualidade é sinal de contradição na sociedade em que vivemos? Nosso estar no mundo nos faz olhar de modo acrítico e passivo a lógica do mundo? (Jo 17, 11.14). Estamos acomodados na sociedade ou somos um sinal para ela? Em que consiste nossa “profecia” ao anunciar o Evangelho e o carisma redentorista? De que modo nosso carisma é claro e credível como proposta vocacional aos olhos dos jovens? Como nos colocamos em diálogo com outras Igrejas, religiões e culturas?

36.       Estas perguntas podem nos parecer tão exigentes a ponto de desencorajar-nos ou favorecer a idéia de que o Governo Geral olha o presente e o futuro da Congregação com pessimismo. Queremos ressaltar a grande confiança que anima nosso serviço e nosso juízo sobre o papel que a história nos chama a exercer. A espiritualidade oferece-nos a ocasião de tornar mais confiável e incisivo nosso ministério. Esta confiança funda-se também na beleza de nossa história. Nela encontramos raízes suficientemente profundas para que o Espírito produza hoje nova seiva. Testemunhas extraordinárias e normais de nossa tradição colocam em destaque hoje uma santidade alegre, não livre de problemas, mas humanamente confortadora. Sua comunhão entusiasta com Cristo Redentor e sua prontidão a reconhecê-Lo nos pobres nos dizem que o “desafio” continua, porque Cristo (Mt 28,20) e os pobres (Mc 14,7) estão sempre conosco. Não nos faltará jamais a “matéria prima” para uma dedicação generosa! Continua atual a espiritualidade com a qual os redentoristas mantém esta dedicação.

37.       Este “cansaço” próprio de nosso tempo tem que ser afrontado primeiramente pelos superiores locais e (Vice-)Provinciais. Diante das exigências que seu serviço requer, sobretudo na ausência daquilo que no passado eram pontos de referência (regra, horário, obediência absoluta etc...), podem sentir-se despreparados e desencorajados. A espiritualidade provoca a ir às raízes profundas de seu serviço (amor e atenção para com as pessoas) e pede que sejam mais pastores que administradores. Sabemos que isso não basta para um cumprimento exemplar de seu ministério, mas sem dúvida, contribui a dar-lhes um sentido e uma prospectiva de esperança.

Conclusão

38.       Pensamos que esta Communicanda deve manter vivo o processo de discernimento iniciado pelo Capítulo Geral, onde não se tomou nenhuma atitude concreta. É um processo do qual ninguém – incluído o próprio Governo Geral – deve sentir-se dispensado. A escolha do Capítulo Geral tornar-se-á efetiva se encontrar resposta em um “caminho” promovido a nível local e nas iniciativas que o acompanharão. Se a nível (Vice-)Provincial se deverão ocupar do programa que será oportunamente organizado pelo Governo (Vice-)Provincial (por exemplo: com promoção de cursos de formação, encontros de reflexão, assembléias ou capítulos provinciais etc...), a nível local, toda comunidade pode e deve prever ocasiões nas quais refletem e decidem sobre espiritualidade (revisão de vida, organização e qualificação da oração etc...). Ocasiões em que será oportuno introduzir “no projeto de vida comunitária” o que pediu o Capítulo Geral (Postulado 3.1).

39.       Para uma plena atuação da escolha do Capítulo Geral, revelam-se de grande ajuda as Orientações sobre o tema da espiritualidade, que consideramos como parte desta Communicanda. Pensamos que com estas Orientações o Capítulo deu às diversas Unidades um material rico em possibilidades e iniciativas concretas para atuar a nível local. Cada (Vice-)Província pode encontrar nelas o necessário para preparar um programa adaptado à própria situação. E para concretizar, será oportuno ter presente a ajuda que nos podem dar as Irmãs da Ordem do Santíssimo Redentor e os Missionários e Cooperadores Redentoristas.

40.       Por sua parte o Governo Geral se propõe desenvolver “um programa de renovação para os confrades, baseado nas fontes alfonsianas e redentoristas, se possível nos lugares históricos alfonsianos” (Postulados Aprovados pelo XXII Capítulo Geral 4.1) e de “prosseguir na idéia de promover mais cursos de espiritualidade na forma que se sentir mais oportuna” (4.2). Assim lembramos que são previstas “reuniões de superiores maiores e superiores regionais nas regiões até a metade deste sexênio para avaliar a resposta das Unidades ao XXII Capítulo Geral” (Orientações sobre o Tema da Espiritualidade 10.1). Este encontro já foi experimentado como positivo no sexênio passado quando se reuniram os novos superiores maiores das diversas (Vice-)Províncias. Acreditamos, além disso, que essa Communicanda pode e deve ajudar durante a visita do Governo Geral às províncias para um confronto sobre temas tratados e para sua aplicação às situações concretas. Consideramos indispensável a colaboração das (Vice)Províncias para a atuação destes programas. E consideramos importante, que desde agora, as Unidades respondam às perguntas que seguem: Quais são os pontos da Communicanda que refletem melhor os problemas locais? Que decisões concretas vamos adotar? Que ajuda esperamos do Governo Geral?

41.       Queridos confrades, confiamos estas reflexões à ação fecunda e criadora do Espírito Santo, a quem a Igreja dedicou este ano de 1998. Ele “nos faça saborear sua amizade, nos encha de sua alegria e de seu conforto, nos ajude a superar os momentos de dificuldade e a levantar com confiança depois das quedas e nos torne espelhos da beleza divina. Dê-nos coragem de afrontar os desafios de nosso tempo e a graça de levar aos homens a benignidade e a humanidade do Salvador nosso Jesus Cristo” (cfr Vita Consecrata, 111).

A todos nossas cordiais e fraternas saudações que pedimos sejam extendidas às Irmãs da Ordem do Santíssimo Redentor, Religiosas da Familia Alfonsiana e aos Missionários e Cooperadores Leigos Redentoristas.

Em nome do Conselho Geral,

Pe. Joseph Tobin, C.Ss.R.
Superior Geral

(O texto original é em língua italiana.)